
A grife Foz apresentou no São Paulo Fashion Week a coleção “Expresso Maravilha”, que aborda o percurso de migração e retorno entre Nordeste e Sudeste. O título faz referência à expressão “Sul Maravilha”, usada para descrever o movimento de quem deixa o Norte e o Nordeste em direção às regiões Sul e Sudeste em busca de trabalho e renda. A proposta desloca o foco da chegada para o trajeto e para as memórias associadas à casa de origem.
Inspirado pelo filme “Bye Bye Brazil”, de Cacá Diegues, Antônio Castro organiza o desfile como um road movie de passarela. A sequência de entradas assume o papel de estrada que conduz o público a um retorno ao lar, mas o enredo não se apoia em uma ideia de volta como resolução. A narrativa explora a tensão entre o desejo de regressar e a percepção de que o lugar de partida se transformou ou existia sobretudo como ideal.
A coleção recorre a referências da casa no Brasil: cortinas com babados, almofadas, capas de sofá, mosquiteiros, colchas em cetim matelassado, galinheiros de quintal e figuras de namoradeiras em janelas. Esses elementos aparecem em estruturas que sugerem o corpo em trânsito, com roupas que funcionam como extensão da casa e suporte para imagens de convivência, romance e observação da rua. A sensação de não-pertencimento surge nesse contraste entre proteção doméstica e deslocamento constante.
“Expresso Maravilha” articula parcerias com sete comunidades de artesãs em Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte, em técnicas que incluem bordado, renda, cestaria em fibra de ouricuri e filé. A coleção reúne Renda Irlandesa de Divina Pastora, bordados de Timbaúba dos Batistas, Redendê de Entremontes com motivos conhecidos como “caracóis”, além de intervenções sobre jacquards produzidos pela Innovativ em diálogo com o Instituto Riachuelo. Sobras de brocados e jacquards são recombinadas com recortes irregulares em vestidos, jaquetas e em uma sunga incorporada ao repertório da marca.
Os acessórios ampliam esse mapa de colaborações. As bolsas criadas com a marca paraense Adue combinam couro e fibras de buriti e carnaúba. Os calçados levam a assinatura de Jailson Marcos, em diálogo com o trabalho em couro do Nordeste. Nas joias de Duda Bradley, aparecem colares e brincos em jaspe e peças em prata em forma de carrancas, com desdobramento para linha de venda. As estampas retomam desenho floral de Cleyton Almeida, baseado em série de Andy Warhol, conectando referências de cultura de massa dos Estados Unidos a um relato de contrafluxo migratório que parte do Nordeste e se volta para esse mesmo território.
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