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“A Hutu é uma porta que eu criei”, diz Regina Ferreira sobre sua carreira

por Fernanda Miki Tsukase
08/05/2026
Tempo De Leitura: 21 minutos de leitura
Regina Ferreira criou a Hutu Casting em 2019 para promover a representatividade negra – Foto: Divulgação

Regina Ferreira, de 37 anos, é a fundadora da Hutu Casting, uma agência de casting voltada exclusivamente para modelos negros. Natural do Guarujá e vivendo em São Paulo há 15 anos, Regina teve uma longa trajetória nas mais diversas profissões até criar a Hutu em 2019. Mas, muito mais do que apenas casting, o trabalho de Regina cria espaço para a representatividade de corpos que são deixados de lado pelos olhos do mercado. 

Em entrevista para o CH News, Regina Ferreira conta sobre a sua trajetória, sua força, suas inspirações e seus desejos para o futuro. Confira aqui: 

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O que te levou para o universo do casting?

Foi o sonho de ser modelo. Desde novinha eu tinha esse sonho de ser modelo. E após uma temporada trabalhando como dançarina na Itália, eu resolvi me arriscar de vez e morar em São Paulo. Inicialmente a ideia era ficar uma semana, mas estou até hoje. 15 anos completos agora em fevereiro. Foi também o incômodo de não me ver representada nas campanhas. Posteriormente, trabalhando como promotora de eventos, também não me ver representada dentro do set de filmagem, nas realizações dos eventos. Então eu cheguei aqui em São Paulo e fiz alguns testes.

Mas o que me manteve aqui, o meu sustento, veio através dos eventos. Trabalhando como promotora me conectei a muitos profissionais, clientes. E, consequentemente, comecei a trabalhar como assistente de produção.

Fale sobre as suas mudanças de carreira. Você falou que você foi dançarina na Itália e promotora de eventos.

Eu nasci no Guarujá e comecei a trabalhar com 13 anos. Então, desde nova, já muito focada em não passar necessidade, em ter uma vida melhor. Sempre gostei de dançar, mas me sentia tímida. Tinha uma amiga muito querida que morava na esquina de casa e surgiu uma possibilidade de trabalhar em uma companhia de dança na Itália. A gente ficou sete meses lá. A gente ficou na Itália, passamos um tempo na Eslováquia, alguns dias na Suíça.

Quando eu voltei para o Guarujá, falei: “nossa, acho que agora é hora da gente tentar outras possibilidades”. Então, eu comecei a trabalhar como babá, trabalhei em loja de roupas como atendente, trabalhei em posto de gasolina, tanto na loja de conveniência quanto na bomba, trabalhei em bufê infantil como recreadora e monitora, trabalhei no cinema. E tentando me conectar com as agências, entrando na internet, tentando e-mail. Fiz esses testes, enviei vários e-mails para várias agências, e uma me respondeu dizendo que queria me ver pessoalmente. Nesse dia tinha eu e outra menina de outra cidade. E eles me disseram: “olha, se você conseguir ficar aqui durante uma semana inteira, a gente consegue incluir você na semana de castings”. E para a outra menina eles falaram para ela não se preocupar que eles tinham um apartamento de modelo.

Aí eu já percebi essa diferença ali. Mas eu falei: “eu vou tentar”. Fui trabalhar como caixa de supermercado pra me manter aqui, mas ainda continuava indo a testes até que uma modelo me falou desse ramo de eventos. “Por que você não tenta? Vou te incluir em um grupo do Facebook em que eles disponibilizam as vagas”. Todo dia, no horário de almoço, eu ia lá na Lan House e ficava ali me disponibilizando. Até conseguir ser chamada.

Fui chamada para um evento, me chamaram para fazer outro, me chamaram para fazer um evento de um mês. Pedi para sair do mercado e me joguei pros eventos. Quando se trata de trabalho, eu não tinha vergonha de “poxa, como vocês conseguem viver de eventos? Me indica aí nessas agências”. Mesmo sabendo que a partir do momento que eu mandasse o meu perfil, eu tinha muito mais certeza do não do que do sim por ser uma promotora negra. Mas ainda assim eu ficava ali, tanto que eu tenho muitas amizades hoje queridas que eu fiz durante esses anos. 

E depois você acabou indo para o mundo do casting? 

Comecei a trabalhar como assistente de produção. Sempre fui muito curiosa e era um ramo novo, então eu queria saber de tudo. Ficava muito atenta às coisas que rolavam ali durante o evento, então alguns clientes começaram a me chamar para trabalhar como assistente de produção. Como eu estava de assistente de produção, não teria como eu estar como promotora.

Eles começaram a me pedir indicações de outros promotores e ali eu pensei comigo que essa era a oportunidade de eu conseguir incluir mais profissionais negros dentro da área de eventos. E ainda assim, isso foi por anos. A Hutu fez sete anos agora em abril e eu estou aqui há 15.

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Um post compartilhado por Hutu Casting (@hutucasting)

Comecei a apresentar um casting com 70%, 80% de pessoas negras e trazia uma outra menina branca ou não negra. E o cliente sempre me devolvia com “nossa, o seu casting é maravilhoso, mas o cliente quer mais diversidade”. Então, mais uma vez, seria a diversidade que o mercado vê: uma menina loira, uma menina ruiva, uma menina com cabelo preto e uma menina negra. Ainda assim é só uma menina negra e isso me incomodava muito. 

Mas sempre precisando trabalhar e pagar as contas, então acabava faltando muito para poder trabalhar no evento. Fiquei pensando o que eu sei fazer, o que eu desenrolo, como eu posso me manter aqui em São Paulo, onde tenho contato. Fiquei quebrando a cabeça e eu falei: ”cara, eu vou abrir uma agência”. Já que eu tenho uma curadoria de elenco grande e tenho os contatos, e o que eu não tiver eu vou atrás.

Primeiro eu travei e falei: “sozinha não vou conseguir mudar esse cenário”. Mas depois pensei que se eu mudar um pouquinho aqui, mudar um pouquinho ali, e esses clientes, esses profissionais que eu me conectar levarem isso pra frente e isso for reverberando, de pouquinho em pouquinho a gente vai expandindo esse olhar, essa mudança. E aí eu criei a Hutu. 

E o nome “Hutu”? 

Eu demorei muito para tirar a Hutu do papel, porque queria que o nome tivesse conexão com o que eu queria fazer. Então eu pensei em vários nomes e um dia eu estava assistindo uma série com a Michaela Coel, que se chama “Black Earth Rising”, ela falou dos Tutsis, e eu pesquisei os Tutsis. Eu sabia do genocídio de Ruanda, mas não sabia do nome dos grupos étnicos. Então, o Hutu é um dos grupos étnicos que viviam nos arredores de Ruanda e houve um conflito entre os Tutsis e os Hutus que se deu aquele genocídio em Ruanda.

Quando eu li a história, me veio “Hutu Casting”. Fui pesquisar sobre essa história do genocídio, mas as matérias eram sempre escritas por jornalistas brancos. Então, essas matérias estavam sempre em um viés de pessoas negras animalizadas, violentas, que não sabiam fazer nada até a chegada dos brancos. Conversei com um amigo que é jornalista e sociólogo, e ele encontrou uma matéria escrita por uma jornalista negra que sinalizava que sim, houve esse conflito, mas ele se deu após a entrada dos brancos alemães naquele território com a estratégia de dividir para dominar. Porque são dois grupos diferentes, cada um dentro da sua vivência, mas eles se respeitavam. Após a entrada do branco e a estratégia de dividir para dominar, que ainda existe nos dias de hoje, é que houve esse conflito. Quando se inicia o conflito, eles saem e a história é contada a partir do olhar deles.

Então, ele falou: “eu acho que é muito válido você usar esse nome porque você está usando o inverso, você quer unir para fortalecer”. E eu fico pensando muito que a história desse povo não pode se resumir a isso, a essa história de conflitos.Tem outras histórias também de pessoas ali desse grupo étnico dos Hutus e a gente não pode se resumir a isso. E aí coloquei no mundo,  no dia 1º de abril de 2019

Quando você começou a trabalhar com agência, qual foi o primeiro trabalho que você fez e te deu a sensação de que você estava no caminho certo?

O primeiro trabalho veio em 10 dias de agência. Eu acho que ali eu senti porque era um cliente que eu atendia enquanto promotora, fazia sempre evento com eles. Quando eu contei da agência, eles confiaram e respeitaram. Eles falaram: “Rê, eu confio em você, pode indicar aí quem você quiser do seu casting que a gente confia”. E eu fui nesse evento como convidada, fui acompanhar. Eu falei: “cara, realmente é isso”. Mas ainda assim, mesmo com a Hutu já na rua, eu ainda continuei trabalhando como promotora. 

Muitas portas se fecharam. A partir do momento em que você se posiciona, ainda mais dizendo: “eu não vou contratar promotores brancos, eu não vou contratar um elenco branco”, muita coisa mudou. Mas ao mesmo tempo que muita porta se fechou, mais uma vez eu não só fui bater em outra, acho que a Hutu é uma porta que eu criei. De tanto bater nas portas, eu falei: “eu vou criar essa porta que vai ser o intermédio onde eu vou puxar muitos profissionais negros para dentro desse mercado”. 

Em três meses a gente fez o primeiro mutirão, porque aí eu pensei em tudo que me impedia de chegar às marcas: um direcionamento, um acompanhamento, um material. Então eu me juntei com amigos e a gente fez um primeiro mutirão de fotos pra quem não tinha condições de ter um book. Agora eu tenho uma parceria com o Senac, faço as digitais do elenco no Senac, com a máquina profissional, fundo neutro. E eu acho que quando o elenco vê ali na telinha a foto deles, mesmo sem edição, acho que aquele momento eles se vêem como eu os vejo. Com a potencialidade com que eu os vejo. Então eu preciso que eles vejam isso.

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Também o Webinar Hutu, que é um encontro online de duas horas e eu conto da onde eu vim, o porquê da criação da Hutu, o porquê do nome, o que é o mercado de eventos, o que é o mercado de publicidade. E ele é importante porque aqui a Hutu virou um ecossistema de profissionais, e tem muitos profissionais que também são empreendedores.

E vieram reconhecimentos que eu nunca imaginei. No primeiro ano, palestrar. Entrar para a lista das 500 pessoas mais influentes da América Latina, receber prêmio. São coisas que eu não imaginava que iriam acontecer. O meu intuito sempre foi promover o avanço profissional desses profissionais negros do mercado que estão parados, que não têm uma oportunidade pelo fato de serem pretos. Então, esse encontro também é para que eles se sintam pertencentes a esses espaços, se sintam minimamente seguros e saibam que eles também têm um respaldo do lado de cá.

Como funciona o seu processo de seleção de talentos?

Eu fico atenta à estética do mercado, os corpos que o mercado deixa de olhar também. Não excluindo os outros, as superfícies de pessoas pessoas magras, de pessoas pretas com a pele mais clara. Aqui na Hutu, eu tento abranger tudo: tonalidades, idades, pessoas com algum tipo de deficiência. E dentro disso, entender se esse profissional consegue transmitir isso para uma câmera. Então, o meu critério é esse: entender se essa pessoa tem um perfil que vá transmitir essa potencialidade através das câmeras. 

Óbvio que precisa de um direcionamento também, que aí vem o webinar. Eu sempre indico para que a galera faça teatro para desenvolver mais as expressões, tanto físicas quanto expressão facial e corporal. Geralmente não me pedem pessoas gordas, mas eu vou apresentar pessoas gordas. Não me pedem pessoas mais velhas, mas eu vou apresentar pessoas mais velhas. Mas eu sempre vou tentar, enquanto tiver 0,00001% de chance, eu vou tentar.

Caramba, eu abri uma agência de casting exclusivamente negro em São Paulo, sendo nova para o mercado. Era um risco muito grande, então enquanto tiver chance e eu tiver saúde, eu vou continuar tentando. 

O mercado de casting mudou muito desde que você entrou nele? 

O mercado mudou, mas mudou pouco. A gente vive também um retrocesso no que diz respeito à pauta de inclusão, de gênero. Isso tem refletido no trabalho, na nossa autoestima, até no nosso psicológico. Porque você se vê de novo naquele lugar que o Brasil estava lutando para sair. A gente precisa tratar a inclusão como estrutura e não como uma pauta, como uma coisa pontual. De fato uma estrutura que precisa ser implementada com seriedade, com dedicação e com muita escuta. 

A gente não tem como falar de diversidade se a gente não tem esses profissionais nas cadeiras de liderança e de tomada de decisão. Então, para o mercado mudar, a gente precisa olhar para o profissional negro. Não é só uma marca colocar uma pessoa preta em uma cadeira de liderança, você precisa entender a estrutura em que ela vive. Como você consegue manter esse profissional, sabendo que ele passa por uma série de micro-violências desde a hora que ele acorda? Você tem um lugar seguro para esse profissional crescer como uma pessoa preta dentro da sua empresa? 

E não falo só de pessoas pretas. Também falo de pessoas periféricas. Eu já vivi um contexto de sair de casa com medo. A gente tem um medo latente, que é um medo em vários sentidos. Eu, enquanto pessoa preta e enquanto mulher, eu tenho medo dos meus irmãos não voltarem para casa. A gente está sempre com medo. Você conseguiu um cargo bom em uma empresa, mas você está com medo de ser o primeiro a ser cortado, de não ter uma gestão que te acompanhe e entenda esses atravessamentos. 

Tem alguma coisa que o mercado ainda não entendeu sobre representatividade?  

Acho que o mercado não entendeu que nós, pessoas pretas, somos mais da metade da população. E que, apesar de vários contextos, a gente consome as marcas e dita tendências dentro das nossas vivências. E a gente precisa ser considerado dentro desses espaços, a gente precisa ser respeitado dentro desses espaços enquanto profissional e enquanto consumidor. Acho que a moda ainda não entendeu isso, que a gente está aqui, a gente consome, que a gente quer se ver. Não só se ver, mas também trabalhar ali dentro. A gente quer ter a nossa criatividade ouvida e respeitada do começo ao fim. 

O mercado não entendeu que a gente é potência, que a gente tem uma diversidade de profissionais, de áreas e de ideias muito grandes que precisam ser colocadas para fora. A gente vai estar nesses espaços, ou a gente também vai criar os nossos próprios espaços, as nossas portas. Mas a gente também precisa desse apoio. Não existe criatividade sem diversidade. Se a gente não tem um mercado criativo, fica tudo muito parecido. O Brasil, a moda, o mundo, ele é plural. 

A diversidade para mim não se resume ao elenco, eu tenho uma empresa de elenco exclusivamente negro. Mas a gente não pode dizer que uma marca é inclusiva porque ela fez uma campanha com casting exclusivamente nergo. É preciso pensar no todo, e eu preciso que a marca também entenda isso, que o mercado entenda isso. E é preciso também que as pessoas dentro dessas cadeiras de tomada de decisão, para isso mudar, abram mão do privilégio.

Qual foi o casting mais desafiador que você já fez?

Do lado de cá, os desafios são muitos. Eu estou lidando com pessoas pretas, periféricas, que muitas vezes estão sendo atravessadas por uma série de questões. A gente ainda vive um mercado racista, um mercado gordofóbico, transfóbico. Os desafios são diários, cada situação tem uma coisa. Dentro disso, eu também sou uma mulher preta, que também tenho os meus atravessamentos. 

Prazo de pagamento também. No começo, o cartão de crédito da Hutu era só para pagar o Uber do elenco. Porque as produtoras falavam: “pode chamar o Uber que a gente reembolsa”. Muitas vezes a pessoa não tem a grana do Uber, às vezes não tem a grana nem da condução. Do lado de lá são pessoas que não tem essa vivência, justamente por não ter uma equipe diversa. Não tem essa vivência e acaba não tendo essa sensibilidade de pensar que esse elenco não vai poder esperar 30 dias para receber o reembolso do Uber. São muitos desafios até sair esse trabalho na rua, é babado, mulher. 

Qual é o legado que você quer deixar, tanto como pessoa, quanto com a agência? 

O legado que eu quero deixar é que não é absurdo você fazer uma campanha de medicina, de empresários, de quaisquer outros segmentos que não sejam só da temática afro, com casting totalmente negro. O casting da Hutu existe para que haja mais inclusão no mercado, isso não quer dizer que eu só quero fazer trabalhos com temática afro. Eu quero mostrar que posso fazer qualquer tipo de trabalho com casting exclusivamente negro e naturalizar isso. 

Naturalizar uma campanha de margarina com uma família inteira preta e que não seja feito só em novembro, outubro. Naturalizar uma campanha com pessoas trans que não seja feita só no mês LGBT. É esse legado que eu quero deixar: que a gente pode fazer muitas coisas, que a gente tem muitos profissionais bons e éticos que só precisam de oportunidade.

Sargitariana de 37 anos, Regina Ferreira transborda força e persistência – Foto: Divulgação

E como pessoa e como profissional eu quero deixar um legado de que a gente pode e deve ter uma tratativa mais humanizada com as pessoas com quem a gente trabalha, com quem a gente troca. Que as pessoas vejam que o trabalho audiovisual é a junção de todo mundo, de uma equipe de profissionais da marca, de quem faz a limpeza, quem fica de madrugada montando uma estrutura, testando o som. A gente não deve perder a nossa saúde por causa do trabalho, as pessoas não podem desrespeitar a gente por causa do trabalho. Não podem, não vão, e a gente não vai deixar. 

Ter essa humildade de falar: “putz, isso daqui eu sei, isso daqui eu não sei. Vou atrás de aprender”. E ter a humanidade de errar. Onde eu estiver, eu vou recomeçar, vou criar uma outra estratégia, vou refazer o caminho. Não tem problema dar um passo para trás, dois, para dar três para frente. Mas é esse legado que eu quero deixar: que apesar das dificuldades que o mercado impõe para as pessoas pretas, a gente possa se unir para se fortalecer e seguir nesse mercado de uma forma minimamente saudável. 

Da onde você tira tanta força, tanta determinação para não desistir em meio a tantos desafios? 

É a minha mãe, que é uma referência muito grande para mim de resiliência, de transmutar que ela não teve e dar para a gente. Eu tenho uma rede de apoio muito inspiradora, amigos que não só me apoiaram esse tempo todo, mas que me inspiram também com a trajetória deles, com os desafios que eles têm do lado de lá. 

Busco sempre olhar para trás, pensar de onde eu vim. Como era antes? O que eu consegui até aqui? Eu já sou uma pessoa fora da curva, que já estou fazendo coisas que o mercado e a sociedade, no caso, não querem para mim. O natural é mulheres pretas e retintas estarem em uma área de limpeza, no atendimento, que não é vergonhoso, óbvio que não. Mas eu acho que tem um monte de gente que tá nesses cargos e que quer fazer outras coisas. Que poderia tá trabalhando como uma diretora de elenco, que poderia tá trabalhando numa cenografia, que poderia ser ser uma liderança dentro dessas marcas que a gente trabalha.

Então, se eu cheguei até aqui, sempre busco olhar para trás e pensar também nessas referências de pessoas negras que a gente tem  na história do Brasil, que também fizeram tanta coisa. Sempre fico pensando como era lá atrás? Como que essa galera conseguiu fazer tudo isso? E aí eu olho aqui em volta e falo: “ vou dar uma respirada, tô muito tensa, tá tudo muito difícil. Vou conversar com os meus amigos, a gente vai num samba, vamos tomar uma cerveja”.

Sempre tento me cercar dessa rede de apoio da minha mãe, ou eu vou para a casa da minha mãe, ou minha mãe vem para cá. Tem hora que eu preciso ir no samba, preciso tomar uma cerveja gelada na calçada. Falar assim: “não, caramba, pera aí que não é só B.O., também preciso viver, também preciso sorrir”. Inclusive, um dos serviços da Hutu é o mailing, que é quando eu convido pessoas para os eventos de marcas. E eu gosto tanto de fazer esse trabalho, porque eu acho que é o momento que eu vejo essas pessoas pretas dançando, sorrindo, se divertindo, se conectando. Às vezes a pessoa chega em um evento de marca e fala: “Rê, onde eu compro comida?”.  Eu falo: “não, mona, não tem que comprar, é tudo de graça. Come mesmo, bebe”.

Muitas vezes, dentro desses eventos, eu vou trazer uma professora, um artista plástico, uma jornalista. Pessoas que têm a sua profissão, mas que também têm essa conexão com a marca, porque elas também existem fora do trabalho delas. Então, para esses profissionais entenderem essas mil possibilidades que a gente tem de trabalhar, de se conectar, de ocupar os espaços com estratégia. Dali já saiu namoro, já saíram grandes amizades, já saíram outros trabalhos. 

Você falou de profissionais que existem fora das profissões deles. Quem é a Regina fora da profissão dela?

A Hutu fez sete anos, e sete anos não são sete dias e nem sete meses. Eu sou muito determinada, aprendi muita coisa aqui dentro da Hutu e acho que a gente vai morrer sem aprender tudo. Sou muito focada também, então foquei tanto no trabalho que eu falei: “opa, cadê a Regina?”. Então, diminui muito de sair, de fazer outras coisas porque o cansaço, ele vem né? Você ser empreendedora, você faz o marketing, o financeiro, o atendimento, você faz tudo.

Eu sou sagitariana, sou tímida, mas também sou muito engraçada às vezes, faço piadas e piadas. Às vezes sou mais introspectiva também. Eu gosto muito de estar com os meus amigos, de estar com a minha mãe, de estar com o meu sobrinho. Gosto muito de samba. Adoro cerveja. Sou bem animada, muito otimista, dedicada, amorosa, carinhosa. Nossa, minha terapeuta vai ficar com orgulho de mim falando tudo isso (risos). 

A gente vive também um outro fluxo que dá um bug na nossa cabeça. Eu não tive uma adolescência conectada com a internet e agora é tudo muito online. Então, eu também tento balancear. Preciso me desligar um pouco, preciso ir para rua, sair. Isso me deixa feliz enquanto pessoa: conhecer outras pessoas, ouvir outras histórias. Enfim, essa sou eu. 

Tags: destaque homeentrevistaHUTU CastingRegina FerreiraRepresentatividade Negra
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