
Há 15 anos, Marina Chap Chap Droghetti entrava em uma sala de dança em Paris como aluna. Aos 22, havia acabado de trocar uma carreira promissora na publicidade pelo sonho de se tornar bailarina profissional e sabia que começava em desvantagem. Enquanto ela transformava um hobby em profissão, muitas das meninas ao seu lado dançavam seriamente desde a infância. Hoje, Marina entra naquela mesma sala como professora.
“Quando me vejo aqui como professora, realmente fico arrepiada”, conta. “Há exatamente 15 anos frequento as aulas em Paris como aluna e me ver na sala onde tudo começou é uma conquista. É um lugar em que me sinto muito honrada de estar e uma grande responsabilidade.”
A sala é a Beethoven, no Centre de Danse du Marais, onde Marina começou sua trajetória na capital francesa. Desde 2022, ela dá aulas em Paris e retorna todos os anos para temporadas que podem chegar a quatro meses. Desta vez, porém, a experiência teve outro peso. “Eu me vi ali, uma menina que ainda não sabia onde a decisão de ter largado tudo iria dar. Era publicitária, trabalhava havia alguns anos na área de criação e estava relativamente atrasada tecnicamente perto das outras meninas, mas tinha muita vontade de aprender.”

Antes da dança virar profissão, Marina havia estudado e trabalhado em Madri. De volta a São Paulo, conquistou espaço na publicidade e, mesmo muito jovem, já atendia grandes contas, como Mercedes. Aos 22, decidiu mudar tudo.
“Fiz cursos em Berlim, em Paris, e as meninas que estavam ao meu lado já eram profissionais. Eu sempre pratiquei dança, mas como hobby. Na Europa, crianças de nove anos já estão em competições.”
A solução foi correr atrás do tempo. Marina fazia mais de uma aula por dia, frequentava turmas avançadas e, ao mesmo tempo, voltava ao nível básico para aperfeiçoar a técnica. “Precisei de muita humildade e carinho comigo mesma para entender que precisava de tempo, mas que chegaria lá.”
Duas Marinas
Paris, na verdade, entrou na história bem antes. Marina tinha 16 anos quando passou uma temporada na cidade para aprender francês e se apaixonou pelo lugar. Queria morar ali, mas os pais preferiram que ela cursasse a faculdade em Madri, onde tinha uma tia. O desejo, porém, permaneceu.
Há 15 anos, ela faz seus aller-retours [as idas e vindas entre Brasil e França]. E agora começa a sentir que deixou de ser apenas visitante. “Vou conhecendo as escolas, as donas, as alunas, os professores. Eles acabam me conhecendo também. Sinto que pertenço a uma comunidade da dança cada vez mais.”
As francesas também mudaram seu olhar para o próprio ofício. Recentemente, uma aluna de cerca de 80 anos avisou que faria apenas o que seu corpo permitisse. Gostou tanto que voltou. “Ela me olhou nos olhos e disse que eles já me adoravam e não viam a hora de eu voltar. Fiquei muito feliz.”

Marina diz se impressionar ao encontrar mulheres mais velhas fazendo uma ou até duas aulas por dia. “Elas me ensinam constância e disciplina. Mostram que a idade não é nada. O que importa é continuar praticando algo pelo qual você é apaixonada.”
E Paris também parece despertar outra personalidade.
“Existe totalmente uma Marina em São Paulo e outra em Paris.” Em São Paulo, entre o home studio, as aulas e os dois filhos, ela diz ser extremamente caseira. Na França, passa o dia atravessando a cidade entre os estúdios onde dança, treina e ensina. “Eu me sinto muito viva aqui em Paris.”
Até o figurino muda. “Gosto de andar de tutu”, diverte-se. “Trago meus tutus e, quando me troco como uma pessoa normal, gosto de usar looks que tenham algum pontinho de balé.”
Aos poucos, essa outra Marina começa a querer ficar.

Enquanto mantém seu estúdio e suas alunas no Brasil e planeja expandir o BalletBuild, método criado por ela, Marina admite que vive um dilema cada vez maior entre os dois países. “Fico muito dividida entre criar minhas raízes e me fixar aqui ou continuar nessas idas e vindas. Eu me sinto uma pessoa completamente diferente nesses dois países.”
E então vem a revelação: “Sonho muito em conseguir fazer essa mudança total”.

Curiosamente, há três integrantes da família dificultando os planos: seus cachorros. “Se não fossem eles, talvez eu já tivesse feito essa mudança aos 25 anos. Nunca tive coragem de colocá-los no avião”, conta.
Por enquanto, Marina continua entre São Paulo e Paris. Mas algo já mudou definitivamente. Quinze anos depois de entrar naquela sala tentando acompanhar bailarinas muito mais experientes, ela voltou ao mesmo lugar. Desta vez, quando a música começa, é Marina quem está na frente da turma.


