
Entre edifícios, hotéis, mobiliário e colaborações internacionais, Jayme Bernardo (arquiteto e engenheiro) construiu uma carreira que não cabe em um único rótulo. Aos 67 anos, ele segue operando no mesmo princípio que o move desde o início: a curiosidade. “Arquitetura exige isso. Você precisa querer saber sobre tudo”, resume.
À frente de um escritório com mais de 40 profissionais, em Curitiba, e uma produção que chega a 150 projetos por ano, Bernardo encontrou na estrutura coletiva uma forma de sustentar essa amplitude. Não existe sala individual. O núcleo criativo funciona como uma espécie de agência, onde ideias circulam, se sobrepõem e ganham consistência em grupo. “Isso faz com que o projeto tenha sempre uma personalidade do escritório, não de uma pessoa só.”

E essa lógica está prestes a evoluir. O arquiteto quer transformar seus principais colaboradores em sócios, num modelo mais próximo dos grandes escritórios internacionais.
A trajetória de Bernardo não seguiu um plano rígido. Começou com lojas, passou por interiores (com peças exclusivas) e, aos poucos, expandiu para residências, edifícios e hotelaria. O design de produto, hoje uma frente consolidada, nasceu quase sem intenção. “Eu fazia peças especiais para os projetos. Quando vi, já tinha um repertório.”

O ponto de virada veio com uma exposição no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Foram 35 peças autorais apresentadas como protótipos. A mostra temporária deu certo e acabou ficando meses em cartaz. A resposta do mercado abriu caminho para parcerias com a indústria e, mais tarde, para a criação da marca Dieedro.
Hoje, o Studio Dieedro recém-inaugurado na Rua Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo, funciona como uma galeria. Trabalha com peças únicas, produção controlada e distribuição quase sob demanda. “Não é para pulverizar. A ideia é manter exclusividade.”
Além da arquitetura, do design de mobiliário, outro segmento está sob a mira do arquiteto, a hotelaria. E não por acaso.
No início da carreira, Bernardo trabalhou ao lado de arquitetos americanos em um projeto que daria origem ao Marriott Hotel São Paulo. A experiência foi decisiva. Ali, teve contato com uma metodologia altamente especializada em arquitetura, interiores, iluminação e orçamento, tratados como disciplinas independentes. “Foi quando percebi que o nível de exigência era outro. Desde material até normas de segurança que nem existiam aqui.”

Décadas depois, o ciclo se fecha com a homologação do seu escritório por redes internacionais, resultado de anos de troca e amadurecimento. Para ele, o Brasil ainda tem um potencial enorme nesse setor. “Hotelaria é um dos grandes futuros.”
Referências como Frank Lloyd Wright e Isay Weinfeld aparecem menos como estilo e mais como postura. Proporção, equilíbrio, olhar.
“Você pode ir para o clássico ou para o moderno. O que não pode é perder essa noção.”
Na prática, isso se traduz em projetos que dialogam com o entorno, seja respeitando o terreno, evitando intervenções desnecessárias ou entendendo o modo de vida de quem vai ocupar o espaço. Mais do que linguagem, é contexto.
E mesmo em um mercado cada vez mais digital, Bernardo mantém um hábito quase teimoso: desenhar à mão. “A criação não nasce no computador. Começa na folha em branco”, garante.

Essa atenção ao processo aparece também fora da arquitetura. No terraço do escritório, em Curitiba, uma colônia de abelhas sem ferrão deu origem a um projeto paralelo que virou tradição. O mel, inicialmente produzido de forma quase experimental, hoje chega a centenas de potes distribuídos a clientes e parceiros. A demanda cresceu tanto que a produção precisou ser expandida para uma chácara com lavandas. “Virou uma coisa que as pessoas esperam.”
Sem planos de desacelerar, Bernardo prefere pensar no presente como motor do futuro. Organizar o escritório, expandir a atuação em hotelaria, aprofundar o design de produto, além de manter São Paulo cada vez mais próxima. “Eu não consigo parar. O que me move é isso”, finaliza.



