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Como um livro de psicanálise de Ana Suy virou solo de Johnny Massaro

por Ligia Kas
02/10/2026
Tempo De Leitura: 6 minutos de leitura
“A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, solo de Johnny Massaro que está no Sesc Pinheiros – Foto: Hudson Rennan

Como transformar em teatro um livro de psicanálise que não tem personagens, diálogos ou uma trama a ser seguida? A pergunta esteve no centro da criação de “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, espetáculo inspirado no livro homônimo de Ana Suy que está em cartaz no Auditório do Sesc Pinheiros, em São Paulo, até 31 de outubro. Idealizada e interpretada por Johnny Massaro, a montagem tem dramaturgia de Júlia Portes, direção de Helena Varvaki e produção artística de Pablo Sanábio.

Em vez de tentar reproduzir no palco a estrutura do livro, a adaptação encontrou um personagem capaz de atravessar suas questões: um guia turístico que convida a plateia para uma visita ao coração humano.

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O plano parece simples. Ele conhece o território e os espectadores devem apenas acompanhá-lo. Mas alguma coisa começa a escapar do roteiro. Entre a expectativa pela chegada da pessoa amada e a elaboração do fim de uma relação, o guia que deveria conduzir a visita começa, ele próprio, a se perder É nessa fissura que a dramaturgia transforma as reflexões de Ana Suy sobre amor e solidão em uma história. “Um guia que não conhece muito bem o lugar que está apresentando, no entanto quer que as pessoas acreditem que ele domina o que está falando”, define Júlia Portes. A contradição encontrou imediatamente um paralelo amoroso. “No amor, também é assim: a gente se apaixona e tenta parecer no controle, mas, na verdade, não estamos.”

Como colocar a psicanálise no palco?

A resposta demorou a aparecer. Massaro conta que a ideia de adaptar o livro chegou a diferentes dramaturgos antes de encontrar sua forma, e que a reação não era exatamente animadora. “O desafio de transpor qualquer livro para o teatro já é imenso. Tratando-se de um livro de psicanálise, a coisa se intensifica. Levamos essa ideia a muitos dramaturgos e dramaturgas, que foram unânimes em dizer que seria impossível”, lembra.

O encontro com Júlia aconteceu por outro caminho. Os dois trabalharam juntos na série “Emergência Radioativa”, da Netflix, e a escritora presenteou Massaro com seu livro “O Céu no Meio da Cara”, finalista do Prêmio Jabuti. Depois de ler a obra e assistir à sua adaptação teatral, ele percebeu que talvez tivesse encontrado quem pudesse solucionar o impasse.

Júlia partiu daquilo que não existia no original: um personagem. “Gosto de pensar a partir de uma personagem e acredito que os hábitos dos personagens guardam segredos sobre eles. Por isso, a profissão exercida pode ser uma boa pista para esse enigma que é escrever uma dramaturgia”, explica.

Nasceu assim o guia turístico. A partir dele, as reflexões psicanalíticas deixam de existir apenas como ideias e passam a atravessar uma experiência concreta: a de um homem tentando compreender uma relação enquanto pretende ensinar aos outros alguma coisa sobre o amor.

“A dramaturgia está na intersecção entre o percurso íntimo do guia turístico e a descoberta do recorte do livro que nos interessava”, resume Júlia.

Livro

Antes de existir um projeto teatral, porém, havia um leitor. Johnny Massaro encontrou “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” há cerca de três anos, durante um período difícil de um relacionamento. A leitura o levou a olhar para comportamentos que se repetiam em sua própria vida afetiva. “Eu me via falhando e repetindo os mesmos erros de relação em relação, geralmente culpando o outro pela falta de consciência dos meus próprios padrões e desejos. Estava cansado e curioso”, conta.

Uma das ideias que o atravessaram foi justamente a de que, embora o amor ocupe um lugar central na vida, ninguém chega às relações sabendo exatamente como amar. “Exigem de nós, e a gente exige de nós mesmos, que saibamos agir no exercício do amor, quando, na verdade, não é algo para o qual fomos educados.”

A identificação foi tamanha que Massaro sentiu necessidade de transformar a leitura em cena. Procurou Pablo Sanábio para falar sobre a ideia e descobriu uma coincidência: o amigo também estava lendo o livro naquele momento. “Tomamos aquilo como um sinal”, diz o ator.

Anos depois, aquela mensagem se transformaria também em um marco particular de sua trajetória: “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” é o primeiro monólogo de Massaro em 22 anos de carreira.

Se a dramaturgia encontrou no guia turístico uma forma de dar corpo às ideias do livro, a direção de Helena Varvaki procurou transformar o próprio ato de narrar em experiência. “É no processo de contar o vivido que repensamos o viver”, afirma a diretora. “Ao escorregar no que se propôs, fazer uma visita guiada ao coração, nosso guia reinventa a si mesmo.”

O coração não permanece apenas como metáfora. Ele está fisicamente no palco. Surge como objeto anatômico, mapa de câmaras e passagens e, ao mesmo tempo, matéria plástica nas mãos do ator. Aos poucos, aquilo que poderia pertencer a uma aula de anatomia abandona a biologia e entra no terreno da poesia.

Também muda a relação entre quem guia e quem é guiado. O personagem começa oferecendo respostas, mas sua vulnerabilidade vai desmontando a posição de autoridade. O público deixa de ser apenas visitante e passa a interferir na experiência daquele homem. “A atuação parte de um lugar de vulnerabilidade, aquele que todos reconhecemos quando imersos em nosso desejo de amor”, explica Helena. Para ela, há em cena “um personagem que guia e é, ao mesmo tempo, guiado pelos espectadores”.

“A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, solo de Johnny Massaro que está no Sesc Pinheiros – Foto: Hudson Rennan

Freud

Ana Suy acompanhou a transformação de suas ideias em ficção e encontrou no palco algo que reconhecia profundamente, mas que já não era exatamente o livro que havia escrito. “Foi um susto delicioso ver a interpretação do Massaro na adaptação do meu livro”, afirma a psicanalista. Ela recorre a Freud para explicar a sensação e chama a experiência de “infamiliar”: aquilo que provoca estranhamento justamente porque, de alguma maneira, já nos pertence. “Ao mesmo tempo em que reconheço minhas ideias, palavras e a centralidade da minha tese em ‘A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão’”, diz a escritora, a adaptação lhe parece “emocionante” e “bastante original”.

Talvez seja justamente nessa distância entre reconhecer e estranhar que a peça encontre sua forma teatral. O livro parte da ideia de que amor e solidão não são necessariamente opostos. A solidão continua existindo mesmo quando amamos, e suportar essa condição pode ser parte da própria possibilidade de estabelecer uma relação.

No palco, essa reflexão deixa de pertencer apenas à psicanálise. Torna-se a história de alguém que acredita poder oferecer um mapa do coração aos outros até descobrir que não existe roteiro seguro para atravessá-lo.

E há uma camada adicional nessa escolha: depois de mais de duas décadas trabalhando em uma arte construída pela presença e pela relação com outros atores, Massaro estreia seu primeiro solo justamente falando sobre solidão. Ele encontra no próprio livro uma maneira de lidar com o paradoxo. “É fato que nascemos e morremos sozinhos, mas, entre uma ponta e outra, a nossa vida se dá em relação, com várias pessoas”, cita.

E é no teatro (uma arte que só acontece plenamente quando existe alguém do outro lado) que essa ideia ganha outro sentido. “Nada nos livra da solidão”, conclui Massaro, “mas certas coisas, como os amigos e o teatro, nos lembram que não estamos sempre tão sozinhos.”

Tags: amorana suyhelena varvakijohnny masssarojúlia portesmonólogopablo sanábiopsicanálisesesc pinheirossolo
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