
Ela começou pela dança, migrou para o teatro, conquistou espaço no audiovisual e hoje se desdobra entre atuação, direção, produção e ensino. Aos 33 anos, Eliza Telles encena Glorinha em “Perdoa-me por me Traíres”, de Nelson Rodrigues, cuja pré-estreia acontece nesta sexta-feira (08.08) no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, enquanto prepara o curta distópico “YBI”, rodado no Amazonas em plena seca, e lança um curso online de produção executiva para artistas. Inquieta e multifacetada, ela transforma urgência em criação. “Se mudar uma pessoa, já é muito. A arte é a agulhinha que incomoda e faz pensar”, afirma.
Eliza começou a dançar aos três anos de idade e seguiu no balé por três décadas. A bagagem corporal, diz, influencia não só sua atuação, mas sua visão de mundo. “A dança interfere em muitas coisas além do trabalho de corpo. Ela me deu disciplina, pontualidade, disponibilidade. Carrego esse olhar quase militar até hoje”, conta.
Ao migrar para o teatro, aprendeu a adaptar o corpo à cena. “No teatro, e principalmente no cinema, o corpo é micro. São pequenas alterações de postura que transformam um personagem. É o que eu ensino hoje aos meus alunos: as micromodificações invisíveis que dizem tudo.”

Dos trabalhos mais desafiadores de sua carreira, a atriz destaca a interpretação de Anita Malfatti. “Ela era o extremo oposto de mim. Tive meses para estudar, pintando mais de 40 quadros, reproduzindo o diário dela, mergulhando na biografia. Era uma energia completamente diferente da minha.” A personagem foi idealizada por Eliza e deve dar origem, no futuro, a uma série sobre mulheres da Semana de Arte Moderna. “Ainda é um projeto caro, mas vai acontecer.”
Depois de viver personagens em séries como “Bom Dia, Verônica”, “Sessão de Terapia” e “Não Foi Minha Culpa”, Eliza fala sobre os efeitos da ficção em temas sociais delicados. “O ator anda sempre de mãos dadas com a terapia. A energia de um personagem entra na sua vida e te modifica. Por isso, o autoconhecimento é fundamental.”
Para ela, humanizar personagens é parte essencial do trabalho. “A Glorinha, por exemplo, não é corrompida. Ela busca sobreviver num universo repressivo. Eu não julgo minhas personagens. Eu dou a mão a elas.”

Interpretar Glorinha foi também uma provocação pessoal. “O que mais me atrai no Nelson é a hipocrisia da sociedade. Cresci em uma família de classe média, em Campinas, e me vejo nesse universo. A Glorinha é uma sobrevivente, alguém que se adapta ao caos para viver. Eu a chamei de ‘filha do caos’, assim como minha terapeuta me chamou um dia.”
A montagem respeita o texto original, com destaque para a ambientação visual em vermelho, inspirada na estética de Hélio Eichbauer, e canções de Chico Buarque entrelaçadas à narrativa.
Morando parte do ano no Amazonas, Eliza cria e produz projetos que denunciam a devastação ambiental da região. Entre eles está o curta “YBI”, que significa “terra” em tupi. “É uma distopia sobre uma menina que busca o último pedaço de terra fértil. Uma ficção para crianças e adolescentes entenderem que a salvação está na reconexão com a natureza”, explica.

O filme é inspirado em vivências pessoais e no agravamento das crises climáticas. “A seca está cada vez mais severa. Os rios evaporam mais rápido. Eu não consigo ver isso e ficar em silêncio.” Outros projetos ambientados na floresta incluem o longa “Jamari”, apresentado em Cannes, e “Nhandê”, em pré-produção. Em todos, há protagonismo feminino e foco nas infâncias amazônicas. “As crianças ainda não se perderam. São elas que podem mudar o mundo”, diz.
Produção
Durante a pandemia, Eliza descobriu a produção executiva como um caminho de autonomia criativa. Sem formação técnica e com dislexia, venceu a insegurança e aprendeu a escrever projetos para editais. Deu certo: já foram mais de 30 aprovados.
Agora, compartilha esse aprendizado no curso online Meu Primeiro Edital, voltado a artistas do audiovisual. “Aprendi na prática. Ninguém nos ensina como transformar uma ideia em um projeto viável. E produzir me permitiu protagonizar seis filmes meus. Contar as histórias que ninguém me chamaria para fazer.”
Com presença marcante nas redes sociais, Eliza encara a internet como ferramenta de democratização e comunicação. “Sou comunicadora desde criança. Uso as redes para dizer algo, ensinar, provocar. A arte precisa ter serventia”, relata.

Criadora de conteúdo, ela escreve, edita, filma e compartilha sozinha. “É desafiador, mas me obriga a fazer. Nem sempre o que você produz está pronto, mas você precisa colocar a cara a tapa.”
Ao assumir também a direção de seus filmes, Eliza aprendeu a conciliar olhar técnico e liberdade criativa. Para ela, o ator tem magia. “Às vezes o personagem fala por ele. Já o diretor é um regente, que precisa permitir que todas as artes floresçam – a atuação, a fotografia, a arte.”
Pela frente, Eliza ainda toca dois projetos que devem ganhar forma nos próximos meses: “Nhandê”, uma série infantil no estilo “Hoje é Dia de Maria” (TV Globo), ambientada no Amazonas e voltada à TV aberta; e “Uma Noiva em Fuga no Rio de Janeiro”, uma produção de baixíssimo custo que irá virar curso online sobre como filmar sem dinheiro.



