
Cinco décadas de uma das vozes mais emblemáticas da música brasileira ganham uma homenagem à altura nos palcos. Para celebrar os 50 anos de carreira de Fafá de Belém, a cantora ganha seu primeiro musical biográfico, um espetáculo que revisita sua trajetória artística e seu papel como símbolo da cultura e da história recente do país.
Depois de uma temporada no Rio de Janeiro, “Fafá de Belém, o Musical” chega a São Paulo para uma temporada de um mês e, na sequência, segue em turnê por Belém, São Luís e Belo Horizonte. Com texto e roteiro musical de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, a montagem vai além da biografia tradicional e aborda temas que marcaram a vida e a carreira da artista, como política, ecologia e memória.
Para contar uma trajetória de cinco décadas, “Fafá de Belém, o Musical” aposta em três fases da vida da artista, interpretadas por diferentes atrizes. A infância, cercada pelos mitos e lendas amazônicos, ganha vida com Laura Saab, neta de Fafá, que se reveza com Clarah Passos no papel. A fase de ascensão e consagração da cantora é vivida por Helga Nemetik, enquanto a Fafá dos dias atuais conduz a narrativa durante a gravação de um documentário em homenagem aos seus 50 anos de carreira.
Ao longo do espetáculo, essas três versões da artista se entrelaçam para construir um retrato amplo de sua vida e de seu legado. A montagem percorre as raízes paraenses, a forte ligação com a fé e o Círio de Nazaré, a participação nas Diretas Já, o apoio à comunidade LGBTQIA+ e a relação afetiva com Portugal. Com uma narrativa dinâmica, o musical transforma momentos marcantes da carreira e da vida pessoal de Fafá em uma história envolvente, que vai muito além da música.

A estratégia dos três fases cria uma narrativa que é dinâmica e estimulante, de maneira a reter a atenção do público. Além disso, o plano do documentário é uma ferramenta criativa para narrar a história diretamente para o público sem causar uma sensação de estranhamento. Outro ponto de destaque são as lendas e mitos que permeiam todo o musical, já que eles servem uma função dupla. Ao mesmo tempo em que reforçam a relação de Fafá com a cultura nortista, eles sintetizam sentimentos e emoções vividos por ela. Um exemplo marcante disso é a cena que retrata alegoricamente a relação da cantora com Raul Mascarenhas usando a lenda do boto cor-de-rosa.
Toda essa combinação leva a um espetáculo que retrata Fafá de Belém em sua completude: como alguém que sempre fez o que quis e da maneira como quis, mas sem perder contato com a sua essência em momento algum. Muito pelo contrário, “Fafá de Belém, o Musical” faz questão de retornar várias vezes às suas raízes e a sua recusa a abandoná-las, contrariando as pressões da indústria musical e do público.
E, claro, para unir os três planos e os mais de 50 anos de história que o musical se propõe a contar, algumas das canções mais conhecidas de Fafá de Belém estão presentes. Em quantidade impressionante de números musicais, são encenados sucessos como Vermelho, Coração do Agreste, Nem às Paredes Confesso, Abandonada, Filho da Bahia e muitos outros.

Em entrevista ao CH News, Fafá de Belém define o espetáculo como um musical “fundamentalmente brasileiro”. Para a cantora, a montagem mergulha nas lendas, encantarias e na cultura amazônica para revelar um Brasil profundo, muitas vezes desconhecido pelo restante do país. “O mérito é ser um musical brasileiro que fala de uma parte do Brasil que é o Brasil, mas que as pessoas acham que é uma coisa distante. Como diria Mário de Andrade, ‘o verdadeiro brasileiro, o brasileiro profundo, está aqui na Amazônia'”, afirma.
A artista também celebra o elenco que dá vida à sua história. Sobre Lucinha Lins, responsável por interpretar a Fafá dos dias atuais, ela é categórica: “Lucinha é uma puta atriz, é uma puta cantora”. Segundo a cantora, o fato de as duas pertencerem à mesma geração aproxima ainda mais a interpretação. “Há coisas que você não consegue contar para uma pessoa que não viveu aquilo”, explica. Mas é ao ver a neta, Laura Saab, representando sua infância no palco que a emoção fala mais alto. “É emocionante vê-la. Vejo a minha família, as brincadeiras com os meus irmãos. É como revisitar a minha própria história”, finaliza.
Teatro Claro Mais SP: Rua Olimpíadas, 360, Vila Olímpia, São Paulo, SP.
De 12 de junho a 12 de julho.
Ingressos a venda pelo site da Uhuu.com.


