
Em 1886, quando Sarah Bernhardt se apresentou pela primeira vez em São Paulo, a cidade ainda era uma província de cerca de 60 mil habitantes. Dois anos antes da abolição da escravidão, a atriz francesa (já uma estrela internacional) encontrou um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. É a partir desse encontro que o dramaturgo Samir Yazbek e o diretor Ulysses Cruz imaginam a trama de “Sarah Bernhardt em São Paulo”, em cartaz no Sesc Santana até 22 de novembro.
A peça combina figuras históricas e invenção teatral para falar de arte, racismo, desigualdade e relações de poder. Entre os estudantes está Francisco da Conceição, interpretado por Daniel Haidar: um jovem de família cafeicultora, estudante de Direito, poeta e aspirante a ator. Ele se apaixona por Sarah, mas também enxerga na atriz uma possibilidade de ajudar a ampliar os negócios do pai no exterior.

Para Haidar, essa contradição é o motor do personagem. A paixão revela sua sensibilidade; a rejeição, por sua vez, faz emergir o herdeiro apegado aos privilégios e disposto a reproduzir os valores do pai, um barão do café escravocrata. “Essa primeira paixão, desse jovem apaixonado por poesia, traz a humanização e a base sensível desse cara. Depois que tudo rui, vem à tona o homem apegado aos privilégios”, diz o ator. “Pode parecer contraditório, mas uma coisa deu impulso para a outra.”
Sarah, na leitura de Haidar, funciona como um abalo na vida dos estudantes. “Ela é um furacão que passa na vida desses jovens. Desperta coisas em todos eles de maneira específica.” Para Francisco, o encontro tem ainda uma dimensão prática – ele acredita que a atriz pode abrir caminhos para os negócios da família numa época em que a estrutura escravocrata começava a ser contestada. “Eles já estavam vendo a derrocada da mão de obra escravizada, com o abolicionismo ganhando cada vez mais força”, afirma Haidar. “Ver na Sarah a possibilidade de os negócios do pai continuarem se expandindo, num momento em que tudo dele já estava começando a desandar, é parte do personagem.”

O ator vê Francisco como alguém que transita entre a elite cafeeira e as pessoas escravizadas que viviam na fazenda da família. “Eu sou justamente a ligação entre essas duas coisas”, explica, referindo-se à posição do personagem. “Tenho o dinheiro e os acessos intelectuais para tratar de igual para igual com a Sarah e com essa figura europeia. Ao mesmo tempo, fui criado junto com a classe menos favorecida da época.”
Para construir essa figura sem reduzir sua violência a uma maldade abstrata, Haidar estudou o contexto e os discursos escravocratas. O desafio, diz, era compreender como aquela visão de mundo podia ser considerada natural por quem se beneficiava dela. “Para eles, aquilo era o mundo deles. O antinatural era que essas pessoas tivessem uma vida livre. A lógica estava invertida, mas, para eles, era real.”

Essa aproximação entre passado e presente é uma das questões que a peça deixa para o público. “O Francisco é um dedo na ferida da sociedade brasileira hoje”, afirma Haidar. “Ele é uma pessoa que não quer que mude um cabelo no time que está ganhando, que é o dele.” O ator espera que os embates do personagem provoquem reconhecimento e debate. “É praticamente impossível ver as discussões do Francisco e não sair pensando: ‘Nossa, tem gente assim até hoje’.”

A montagem não pretende reconstituir os fatos com rigor documental. Ela aproxima personagens de épocas diferentes, como Sarah Bernhardt, Antônio Bento e Esperança Garcia, para criar um espaço de confronto teatral. “O teatro está aqui para mexer com o sensível das pessoas”, diz Haidar. “Quando elas saírem, podem procurar e entender que aquela personagem não estava naquela época. Mas o que sentiram naquele embate é onde a gente quer chegar.”
A criação reuniu Haidar a Cruz, Yazbek e Arietha Corrêa, que interpreta Sarah. O ator descreve os ensaios como um processo de provocação, escuta e colaboração. “O Samir vinha com todo o embasamento histórico, o Ulysses com sua bagagem de teatro e a Arietha voltava à cena. Foi uma sala de ensaio muito inspirada. A gente pôde ter a confiança de se atirar no abismo.”

A música também entrou nessa construção. Haidar assina duas canções feitas a partir de letras de estudantes da época. Como canta desde os oito anos e toca violão desde os dez, musicar esse material foi, segundo ele, um caminho natural. “Nada melhor do que dar música a vozes dessa época.”
Sesc Santana – Av. Luiz Dumont Villares, 579, Jd. São Paulo, São Paulo, SP.


