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Galeria Estação abre em 22 de fevereiro a coletiva “Mulheres por Mulheres”

por Redação CHNews
16/02/2024
Tempo De Leitura: 5 minutos de leitura
Obra de Zica Bérgami – Foto: João Liberato

Neste ano, quando duas décadas de intensa atuação no mercado de arte, a paulistana Galeria Estação dá início à programação 2024 de exposições com a abertura, em 22 de fevereiro, da coletiva “Mulheres por Mulheres”. Idealizada pela colecionadora e galerista Vilma Eid, a mostra, de acordo com ela, “é uma homenagem a mulheres artistas com quem venho trabalhando, divulgando e que fazem parte da nossa história e pelas quais tenho grande admiração”.

Vilma selecionou 47 obras – entre telas e esculturas – de oito mulheres: a gaúcha Conceição dos Bugres (1914-1984), a pernambucana Elza de Oliveira Sousa (1928-2006), as mineiras Izabel Mendes da Cunha (1924-2014) Maria Auxiliadora Silva (1935-1974) e Noemisa Batista dos Santos (única artista viva da coletiva), a baiana Madalena dos Santos Reinbold (1919-1977), a goiana Mirian Inêz da Silva Cerqueira (1938-1996) e a paulista Zica Bérgami, (1913-2011). Além dos trabalhos dessas artistas, telas da pintora Yara Dewachter que retratam as homenageadas também irão compor a mostra em um diálogo visual enriquecedor com o legado delas.

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De acordo com Vilma, a vida dessas mulheres foi pautada por muita criatividade e histórias, a maioria comoventes. De sua relação com algumas delas, a galerista conta: “Conheci pessoalmente dona Izabel, Noemisa e Zica. As duas primeiras em uma viagem que fiz em fevereiro de 2010 ao Vale do Jequitinhonha. Com ambas vivi momentos de muita emoção e contato com uma realidade muito rica, com diálogos surpreendentes e muito pessoais”. Sobre Zica, cujo nome original é Maria Elisa Campiotti Bérgami, ela lembra ter recebido sua visita pouco tempo depois de abrir a Estação. “Foi um encontro delicioso. Ela já estava na faixa dos 90 anos e muito bem-disposta. Além de desenhista, foi compositora, tendo criado a célebre canção “Lampião de Gás”. Já em relação a Conceição dos Bugres, Izabel, Maria Auxiliadora e Mirian, fiz exposições individuais quando ainda não eram conhecidas do grande público”, pontua.

Obra de Mirian Inêz da Silva Cerqueira – Foto: João Liberato

Para escrever sobre esta coletiva, Vilma convidou três mulheres: Galciani Neves, professora de Artes Visuais na Universidade Federal do Ceará e na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo; Lilia Schwartz, historiadora, antropóloga e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo; e Lorraine Mendes, artista, pesquisadora e atualmente curadora da Pinacoteca do Estado São Paulo. 

“Além dessas três estudiosas também convidei a artista plástica Yara Dewachter, cuja pesquisa e obra falam de artistas mulheres. Em uma de suas exposições adquiri os retratos de Izabel e Zica. Foi então que, ao pensar em “Mulheres por Mulheres”, a convidei para retratar nossas oito artistas”, explica a galerista.

Para a professora Galciani Neves, esta coletiva reveste-se de grandes significados. Segundo ela, realizar uma mostra apenas com mulheres artistas é afirmar e ressaltar a importância do espaço de trabalhos dessas mulheres. “Essa é uma questão que demarca muitas diferenças. Para uma mulher ser artista, há que enfrentar desafios ainda mais complexos. Por isso, essa mostra tem a força de uma natureza de tempo muito específica, de uma resistência que tem a ver com o gênero e desejos que não sucumbem ao mundo como está organizado”, avalia.

Já Lorraine Mendes recorre a um artigo de 1971 da historiadora da arte norte-americana Linda Nochlin que ela considera essencial, “Por que não houve grades mulheres artistas”, para contextualizar a importância de “Mulheres por Mulheres”. De acordo com Lorraine, “Linda questiona parâmetros metodológicos da disciplina, bem como a construção da narrativa chamada de história da arte a partir da construção da figura do artista genial, esse ser com gênero, classe social e raça caprichosamente concebidos ao longo da história”. Em sua interpretação, ela acrescenta que às reflexões da historiadora podem ser adicionadas outras questões próprias de um contexto brasileiro, principalmente quando considerada a categoria da arte dita popular. 

“Nesse sentido, pensar a produção dessas oito artistas é, mais do que um convite à apreciação das obras e de suas histórias, a oportunidade de reconhecê-las como grandes referências da história da arte brasileira e de discutir questões urgentes que o campo enfrenta na atualidade”, afirma.

Obra de Elza de Oliveira Sousa – Foto: João Liberato

Por sua vez, em seu texto “Elza e Mirian: quando usar o nome próprio é ato de rebeldia”, Lilia Schwarcz revê e analisa de forma meticulosa e crítica a trajetória pessoal e profissional das duas artistas. Após contextualizá-las em seus espaços e tempo, ela afirma que o sistema de artes nunca foi generoso para com as mulheres e tampouco com artistas que foram externamente classificadas como populares. “Mirian e Elza são duas pintoras iluminadas, que, em plenos anos 1960/70, optam por tirar os nomes das respectivas famílias para se fazer reconhecer profissionalmente pelo designativo próprio por suas originalidades. Justo elas que, tão diferentes, foram enquadradas e hierarquizadas a partir de uma métrica elitista das artes que não dava espaço à pluralidade e à diferença. Hora de recusar esses gestos coloniais que preferem classificar o outro, mas não a si próprios. Pintar o cotidiano, a subjetividade e o mundo dos afetos nunca foi menos, sempre foi um imenso e profundo mais”, afirma.

“Mulheres por Mulheres” permanece em cartaz na Galeria Estação até 16 de março.

Tags: coletivaexposiçãogaleria estaçãomostramulheres por mulheressão paulo
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