
Três anos após sua estreia, o espetáculo “Hip-Hop Blues – Espólio das Águas” volta aos palcos para celebrar os 25 anos do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, um dos coletivos mais importantes do teatro hip hop brasileiro. A montagem dirigida por Cláudia Schapira cumpre curta temporada no Mezzanino do Sesc Copacabana, de 23 de outubro a 16 de novembro, com apresentações às 20h30.
Criado em 2022, o espetáculo nasceu de um processo pós-pandêmico que refletia os abalos sociais e políticos do período. A partir de “Os Sete Pecados Capitais dos Pequenos Burgueses”, de Bertolt Brecht, o grupo iniciou uma investigação sobre o depoimento e a memória como ferramentas cênicas. O texto serviu como ponto de partida para uma criação que logo ganhou vida própria, transpondo o rio Mississippi da obra original para os rios soterrados de São Paulo (metáfora de uma cidade que, quando chove, deixa emergir lembranças, conflitos e vozes silenciadas).
No palco, depoimento e ficção se misturam em um jogo que revisita as marcas da ancestralidade, do racismo estrutural, da LGBTQIAPN+fobia e da supremacia branca e patriarcal, expondo as tensões que ainda moldam o país.

“O Núcleo Bartolomeu sempre parte do exercício do depoimento”, explica Cláudia, fundadora e diretora. “Reunimos relatos e memórias dos artistas em uma dramaturgia cênica que entrelaça música ao vivo, coreografia, luz e vídeo para dar corpo a essas histórias evocadas no campo da memória”, completa.
Além dos quatro membros-fundadores (Cláudia Schapira, Eugênio Lima, Luaa Gabanini e Roberta Estrela D’Alva), o elenco reúne Cristiano Meirelles, Dani Nega e Daniel Oliva, artistas que já colaboraram com o coletivo em outros trabalhos. Também participam por meio de projeções Adeleke Adisaogun Ajiyobiojo, Aretha Sadick e Zahy Guajajara, ampliando o discurso do espetáculo e reforçando sua dimensão coletiva e plural.
A música é o eixo central da encenação. O blues, mais do que gênero musical, surge como visão de mundo e ato de resistência, um canto de lamento e de luta, mas também de celebração e renascimento. “O blues é metáfora e personagem”, define o grupo. “Um território onde cabem todas as diásporas e levantes.”

“Hip-Hop Blues – Espólio das Águas” marca uma virada na trajetória do núcleo. Mais processual e performático, o espetáculo questiona os próprios limites da representação e da linguagem teatral. “Este quarto de século de trabalho construiu não só uma cartografia de nossa linguagem, mas também um olhar para o futuro, para a invenção de novos imaginários”, afirma Eugênio Lima.
Sesc Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ.



