
O Brasil acaba de ganhar uma nova representante da alta joalheria contemporânea. A Ybra, fundada por Yuri Almeida e pelo designer Raul Costa, chega ao mercado com a ambição de reposicionar o país no circuito global do luxo a partir de uma narrativa clara: celebrar a brasilidade, proteger o que é nosso e provocar uma indústria ainda marcada por códigos tradicionais. “A gente nasce para romper essa síndrome de vira-lata. O brasileiro sempre achou que o de fora é melhor. A Ybra existe para mostrar que não, o que é nosso também pode liderar”, afirma Almeida.
O nome (uma fusão de Yuri, Brasil e Raul) simboliza o propósito central da marca: colocar o Brasil no centro do mapa da alta joalheria. E quem ocupa o papel de guardiã dessa identidade é a onça-pintada, eleita símbolo absoluto da Ybra. Presente na nota de 50 reais e no imaginário nacional, o felino sintetiza força, exuberância e ancestralidade. “É o felino das Américas, é nosso. Sempre usei animal print, sempre me conectei com essa estética. Era natural que a onça virasse nosso emblema”, diz o fundador.

A Ybra nasceu depois de dois anos de pesquisa, estudo e construção detalhada. Tudo, das joias ao logo, passando por cores e tipografia, é assinado por Costa. As criações começam no tablet, seguem para protótipos impressos em 3D e, então, voltam ao passado, com lapidações feitas à mão, cravações artesanais e acabamentos tradicionais. Essa mistura do digital com o manual sustenta a proposta de unir o urbano ao natural, o contemporâneo à ancestralidade.
Mas o ponto que mais diferencia a Ybra é a decisão de produzir exclusivamente com ouro de reuso. A escolha nasce de um incômodo profundo com os impactos socioambientais do garimpo. “Não dá mais para criar uma marca ignorando isso. A gente não arranca da natureza, não devasta nada. A gente recria a partir do que já existe. Esse é o nosso luxo regenerativo”, afirma Almeida. O compromisso se estende às embalagens, todas biodegradáveis, até a cera enviada aos clientes.
As joias da Ybra são pensadas para quem vê elegância como expressão autêntica de si, sem gênero, sem códigos rígidos, sem necessidade de encaixe. Essa visão também aparece no compromisso social da marca: 6,5% do ouro de cada peça vendida é destinado a ONGs LGBTQIAPN+. Almeida fala do assunto sem rodeios. “Enquanto homem gay, eu nunca encontrava joias que me representassem. Era tudo pesado, binário. Se a gente não cuidar da nossa própria comunidade, quem vai? A Ybra provoca porque fala disso abertamente. A joia tem que adornar, mas também tem que ter propósito.”

A Ybra opera com uma estrutura pequena, mas altamente especializada. São cerca de 35 profissionais diretos e indiretos, entre artesãos, lapidadores, equipes de PR, marketing, social media e criação. A rotina exige versatilidade: Almeida escreve, cria campanhas, edita imagens e lidera direção criativa; Costa mergulha nos desenhos e no desenvolvimento técnico. “É se virar nos 30. Estamos começando, é um bebê. Mas temos clareza de onde queremos chegar”, explica Almeida.
A previsão de faturamento no primeiro ano é de R$ 300 mil, objetivo que a marca busca alcançar com construção sólida de imagem, visibilidade no digital e um avanço sem pressa. “Antes de vender, você precisa implementar a marca. É um passo por dia, com coragem, amor e humildade. Empreender no Brasil nunca vai ter um momento ideal, você cria o momento”, diz.

Com preços de R$ 2,9 mil a R$ 122,9 mil a Ybra quer atender desde quem busca uma peça de entrada até quem coleciona gemas e lapidações exclusivas. “Trabalhar com ouro e pedras naturais tem um custo real. Mas queremos que pessoas diferentes consigam acessar nossa proposta”, afirma o fundador.
A primeira fase da marca é 100% digital, com entregas no Brasil e no exterior. A abertura de uma flagship em São Paulo está nos planos, mas depende do desempenho e reconhecimento no ambiente online.

Para o futuro próximo, Almeida promete continuar apostando na brasilidade como força disruptiva, e entrar em territórios que grandes joalherias evitam. Ele adianta que a marca deve lançar uma linha inspirada em religiões de matriz africana, tema frequentemente evitado por receio de posicionamento. “Eu escuto que muitas marcas não querem se envolver. Eu não tenho medo. O medo me empurra. O Brasil tem histórias lindas que o luxo nunca teve coragem de contar, e é isso que queremos fazer.”



