
O designer Leandro Buarque apresenta ao mercado a marca de joias Olindo, que estreia com criações autorais, ancoradas na sustentabilidade e livres de estereótipos de gênero.
Em um bate-papo exclusivo com o CHNews, Leandro fala sobre seus conceitos, processos criativos e missões da grife. Leia na íntegra:
O que são “joias sem gênero” para você?
Uma joia sem gênero é aquela peça feita para qualquer anatomia, pensada e comunicada para qualquer pessoa, independentemente da cor, tamanho e material. Desenhamos e produzimos uma joia a partir de uma pedra ou a partir de um conceito, se preocupando também em estimular e ajudar as pessoas a pensar de forma mais aberta, considerando o que gosta e o que quer transmitir através da moda. Neste sentido, ter opções de joias mais democráticas e versáteis é essencial, a exemplo de anéis com numeração ampla, ear cuffs para quem não tem orelha furada ou mesmo brincos unitários e pares que podem ser usados separadamente. Esse é um processo de desconstrução e reconstrução, de renascimento mesmo, como falamos em Olindo. Naturalmente, neste segmento, olhamos com especial atenção para as pessoas que se identificam com o gênero masculino, onde ainda há maior restrição e preconceito de cunho social e cultural no que diz respeito ao uso de joias e acessórios. Muitos designers e marcas acreditam nisso e nos traz muita satisfação contribuir com este caminho de alguma forma.

Em que momento você percebeu que o design de joias poderia (ou deveria) ser mais inclusivo?
A partir da minha própria experiência. Como um homem que já usava e buscava peças diferentes, e que não as encontrava na seção ‘masculina’, fui percebendo que a joalheria poderia ser mais inclusiva, mais aberta quando comparada a outros segmentos da moda. Praticamente todos os anéis, pulseiras e brincos que eu tenho no meu acervo foram encontrados fora dessa seção. Essa busca por peças com mais cor e personalidade, que era frustrante em alguns momentos, me fez ver que havia oportunidade para olhar ainda mais para esse segmento. Na moda como um todo, é clara essa evolução, e é preciso reconhecer o quanto já evoluímos. Mas muitos segmentos ainda podem avançar mais, como os calçados, por exemplo, e a própria joalheria e acessórios em geral.

Como é o seu processo criativo ao desenhar peças sem gênero?
Pensamos na peça. No que ela transmite, sem amarras ou direcionamentos de gênero. Só depois alinhamos esse desejo com as demais etapas do negócio. E como as pedras são o ponto de partida de muitas das nossas criações, as gemas nos orientam e nos instigam a ousar mais. Atualmente, além de ouvir a nossa comunidade, o exercício mais valioso tem sido aquele em que pensamos se nós mesmos, envolvidos no processo, usaríamos a peça que estamos desenvolvendo, se temos opções variadas: das mais tradicionais àquelas que inovam e nos provocam em algum sentido.

Quais elementos você considera para garantir que a peça seja neutra ou inclusiva?
O que permite isso é quem veste, como uma pessoa usa determinada peça. Na prática, quando olhamos para o Brasil, podemos usar praticamente tudo o que temos vontade, o que nos representa como indivíduo ou como grupo, como comunidade. Ainda existem muitos tabus, claro, sobretudo com o corpo feminino, onde a moda têm papel fundamental na revisão desses estereótipos. Mas, de maneira geral e excluindo o fator preço, uma peça deveria ser escolhida pela sensação que ela traz, o significado ou sentimento que ela carrega, seja alegria, celebração, proteção ou sentimento de pertencimento e individualidade. Nosso papel como marca é ajudar nossos clientes, nossa comunidade, a questionar algumas convenções para que mais pessoas se sintam livres para usar o que gosta. Nossa campanha “Narciso” nasceu desse propósito, falar sobre a possibilidade de reconhecer sua beleza como algo positivo, se admirar e atravessar para o outro lado, ser livre na sua individualidade.

Você acha que existe um “novo padrão estético” para joias sem gênero?
Acredito que não. O que pode ser considerado recente é esse olhar mais livre, sem rótulos de gênero, no segmento de joalheria, algo que a moda já exercita de maneira geral. Assim como as pessoas, cada marca busca sua identidade e essa estética, seus propósitos e a forma como se comunica é o que vai criando e nutrindo sua comunidade. Eu, particularmente, ainda vejo pouco uso de cores, proporções maiores ou pedras em peças que buscam despertar o desejo das pessoas que não se identificam apenas com o gênero feminino. Talvez o desafio seja deixar de procurar um padrão, mas sim, olhar para todos os estilos como uma possibilidade real.

Quais materiais ou formas são mais comuns nesse tipo de design?
Em geral, linhas mais limpas, algo considerado mais simples e de cor neutra, costumam agradar um maior número de pessoas. Ao mesmo tempo em que precisamos ajudar a mudar essa visão, que limita nossas escolhas e possibilidades, não podemos ignorar o caminho, a necessidade das pessoas nos diferentes momentos da vida e seus diferentes desejos. Nosso objetivo é sempre ter peças com diferentes opções de preço, estilo e composição, para todos esses momentos, ao mesmo tempo em que seguimos comunicando pluralidade em tudo o que fazemos.
Você sente que há uma demanda crescente por joias sem gênero?
Sim, sem dúvida. Acredito que a moda tem criado um caminho mais diverso e plural. Claro que vivemos alguns retrocessos, assim como avançamos mais rápido em outras agendas que poderiam ter uma evolução mais demorada. Mas, no segmento de joias especificamente, percebemos uma demanda crescente por peças sem distinção de gênero. Os maiores desafios que vemos hoje, sobretudo como uma marca nacional e indo além da pauta de gênero, é a maior identificação dos consumidores com marcas internacionais, sobretudo no mercado de luxo. Falando em oportunidades, a brasilidade é uma característica que precisa ser mais valorizada.

A questão de gênero nas joias é também uma pauta política para você?
A diversidade, a pluralidade é um valor e um propósito, guia nossa produção, nossa comunicação e o nosso investimento. Temos uma política clara de sustentabilidade, que vai desde o emprego de metal de reuso, até o apoio a iniciativas e projetos de preservação ambiental, cultura e ligados à comunidade LGBTQIAPN+, da qual faço parte. Ao comunicar isso com clareza, nutrimos uma comunidade alinhada aos nossos valores, que investem em produtos mais sustentáveis, feitos para todas as pessoas.



