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Laila Garin vive Piaf em musical: “Tudo que eu quero é desobedecer”

por Fernanda Miki Tsukase
29/08/2026
Tempo De Leitura: 11 minutos de leitura
Comemorando 30 anos de carreira, Laila Garin homenageia seu lado francês com o papel de Édith Piaf – Foto: Divulgação/Antropofagia

Entre personagens marcantes nos palcos, filmes e séries, Laila Garin comemora 30 anos de carreira em 2026. E ela faz isso com uma novidade: dar vida à cantora francesa Édith Piaf no musical “Piaf – Eu Não Me Arrependo“. Mas não é só isso, nascida em Salvador, filha de uma mãe baiana e de um pai francês, a atriz também entrou em contato com as suas raízes nordestinas neste mesmo ano com a sua participação em “As Centenárias”. Laila conversou com CHNews sobre o desafio de interpretar Édith Piaf, as lições que aprendeu com esse papel e seus 30 anos de trajetória artística. 

Quando perguntada se a combinação de “As Centenárias” com “Piaf – Eu Não Me Arrependo” foi pensada de propósito como alguma forma de comemoração, Laila Garin responde que “as coisas da vida de um artista, na melhor das hipóteses, metade é planejado e metade é por acaso. Mas não, não foi planejado”. De acordo com ela, o espetáculo sobre Piaf já estava previsto para acontecer este ano e que o compromisso de “As Centenárias” surgiu depois.

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Porém, ela escolheu participar de ambas as produções como uma forma de se desafiar ao completar 30 anos de carreira e homenagear suas origens. “Pensei: é isso. Então vou aproveitar o que aconteceu e reverenciar todos os meus ancestrais nordestinos e os meus ancestrais franceses”, conta. Além disso, Laila comenta que optou por encarar esse cenário como um presente a ser aproveitado. Ela continua: “Não há privilégio maior do que estar em cena há 30 anos, em um país como o nosso, trazendo teatro. Isso é um grande privilégio. E eu agradeço me entregando inteira, exausta e feliz”. 

Agora, ela se entrega ao papel de Édith Piaf em um musical sobre a sua vida e carreira na França do século 20. Tudo isso em um texto inédito assinado por Newton Moreno e Alessandro Toller, com a direção de Sergio Módena. No que Laila define como “um olhar contemporâneo” sobre a vida de Piaf. Em cena, isso se traduz em um espetáculo que cede espaço para que a cantora dê a sua própria versão sobre sua vida.

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Para a atriz, é de extrema importância narrar a história de Piaf, ainda mais com esse olhar atualizado da nova montagem. “As coisas que ela realizou ainda hoje são uma afirmação feminista, mesmo sem querer. Ela conseguiu fazer coisas que mesmo que fosse hoje em dia seria de uma grande ousadia”. Por exemplo, Piaf ousou viver diversos amores apaixonadamente, e não apenas conquistar o estrelato como cantora, a saída da pobreza, mas também como compositora, além de ajudar outros artistas a construírem suas carreiras.

Em meio a tantas ousadias, porém, Laila cita as dificuldades que Édith teve que superar ao longo de seus 47 anos de vida. O que inclui acidentes, problemas de saúde e perdas de pessoas amadas. O conjunto de tudo isso, nas palavras da atriz, são “muitos livros dentro de um livro só”. E são esses muitos livros que constroem a grande artista que foi Piaf. “Por isso que ela até hoje está viva, né? E está sendo admirada e está sendo escutada. É realmente extraordinário o que ela faz como intérprete”, conclui Laila Garin. 

Mas, mesmo explorando uma vida marcada pela dor, o musical toma a decisão nobre de não deixar que Piaf seja definida apenas por seus sofrimentos. E para isso, a palavra-chave é superação. “Tem uma coisa que é muito bonita que a gente aprende quando estuda interpretação e dramaturgia: o que mais comove as pessoas é ver a personagem lutando contra o sofrimento, contra o obstáculo”, Laila explica.

Por isso, a Piaf que ela leva para os palcos é livre de sentimentos como autopiedade e pena. Em seu lugar, Laila incorpora o sorriso, alegria de viver e senso de humor afiados que eram característicos da sua homenageada. Para evitar que sua interpretação seja excessivamente trágica e pesada, a atriz ainda tira forças da própria Édith. Comenta: “Dá até vontade às vezes. Mas não, ela não pode, ela está sempre indo para cima, para cima e para frente. Sempre cantando, sempre amando, sempre sorrindo”. 

Piaf também se faz presente no corpo de Laila. Com seu menos de 1,50 metro de altura, Piaf ficou conhecida por seu tamanho diminuto e Laila encontra formas de reproduzir essa característica em cena. Tanto que a atriz revela que esse foi um dos elementos que a atraiu para o papel: “Um dos motivos que eu quis fazer Piaf é por essa transformação dela. É um prato cheio para um ator”. Sua atenção também se voltou para as mãos da sua personagem que, com o decorrer dos anos, passaram a sofrer com artrite reumatoide e, talvez, até mesmo lúpus. “Observei muito esse corpo. A forma como ela respira, o busto, o corpo. Também tem essa parte na caracterização: como uma máscara, você cria o corpo para entrar naquela máscara”, relembra. 

A esse trabalho corporal, a produção de “Piaf – Eu Não Me Arrependo” combina técnicas de maquiagem para aproximar a aparência de Laila a de Piaf. Em um trabalho que abrangeu desde o formato do rosto e tamanho da testa até o desenho das sobrancelhas da homenageada.  E o resultado é surpreendentemente parecido no palco, dando a impressão de que uma fotografia antiga ganha vida.

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O desejo de interpretar Piaf habita Laila há mais de 10 anos. Anteriormente, ela conta, já tinha ouvido comentários de que  seria uma ótima escolha para o papel. Além disso, a atriz contava com parte das canções de Piaf em seu próprio repertório de shows e gravações. Mas, as origens dessa vontade estão na infância de Laila. 

“Era um sonho meu, porque eu ouvia desde criança por causa do meu pai”, diz. Após o fim do casamento, os pais de Laila se dividiram entre Bahia e França. A partir deste arranjo, ela passou a visitar o pai na europa durante as férias, enquanto morava no Brasil no restante do ano. Isso criou na sua imaginação a imagem de uma França construída a partir de canções de nomes como Édith Piaf e Charles Aznavour. Continua: “A música tem esse lugar de alimentar o meu imaginário do que era a minha família francesa. De lembrar de Paris, de sempre lembrar a mim mesma que eu era da Bahia e que eu também era de outro lugar”.

A atriz também comenta que seu pertencimento a dois países e duas culturas distintas lhe deu uma outra percepção sobre Édith Piaf. Enquanto muitos brasileiros associam a cultura francesa ao luxo e ao glamour, ela encara sua personagem como uma menina de rua que tinha de ser barulhenta e encrenqueira para sobreviver. Por outro lado, Laila confessa que ainda tem algo a aprender com Édith e outras das suas personagens: desobedecer. 

Em contraste com a famosa frase de Piaf que diz “Tudo o que fiz na minha vida foi desobedecer”, a atriz propõe que outra versão seria mais apropriada para a sua trajetória. Ela elabora sua própria reflexão: “tudo que eu quero é desobedecer cada vez mais”. Além disso, Garin adiciona que aceita interpretar mulheres desobedientes para aprender a desobedecer. Como é o caso de Elis Regina, outra de suas personagens marcantes. “O capitalismo e o patriarcado é um negócio incutido dentro da gente mesmo. É a maior mordaça e a camisa de força que a gente pode ter”. Ela ainda conclui seu pensamento com: “Eu quero desobedecer sem virar uma figura trágica. Mas já não virei né? Estar 30 anos aqui já não é trágico. É sublime”. 

E, se Piaf tinha Santa Terezinha como fonte de motivação em seus momentos de dificuldade, Laila tem o seu elenco único: orixás, cabala, budismo e a própria Santa Teresinha, que ela confessa ter pegado emprestado de sua personagem. Já para o público que a vê em cena, a atriz deseja que ele leve consigo a sede de viver que Piaf tinha, junto de sua alegria, sorriso e intensidade. “Quero que o povo brasileiro pegue essa menina de rua no colo e se reconheça nesse desamparo que é muito dela, mas que todo mundo tem desamparo no peito”.

Teatro Bradesco: Bourbon Shopping Săo Paulo, R. Palestra Itália, 500, Perdizes, São Paulo, SP. Até 27 de setembro. Ingressos a venda na Uhuu.

Tags: destaque homeÉdith PiafentrevistafrançaLaila GarinmusicalPiaf – Eu Não Me Arrependosão pauloteatro bradescoteatro musical
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