
Uma das tragédias mais conhecidas de William Shakespeare, “Macbeth” ganha uma adaptação em linguagem drag queen realizada pela Cia. Extemporânea. Dirigido por Ines Bushatsky, com texto de João Mostazo, o espetáculo estreia sua primeira temporada em São Paulo no Sesc Pompeia, onde fica em cartaz de 22 de outubro a 15 de novembro. As apresentações ocorrem às quintas-feiras e aos sábados, às 20h; às sextas-feiras, às 16h e às 20h; e aos domingos, às 18h. Antes da temporada paulistana, a montagem estreou no Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, com ingressos esgotados.
O espetáculo é o segundo trabalho do projeto Shakespeare in Drag, iniciado com “Rei Lear”. A primeira montagem foi assistida por mais de 10 mil pessoas em diferentes cidades brasileiras e rendeu a Alexia Twister o Prêmio Shell de 2025 na categoria Melhor Ator.
Alexia retorna aos palcos ao lado das drag queens Antonia Pethit, DaCota Monteiro, Ginger Moon, Lilith Prexeva, Maldita Hammer, Mercedez Vulcão, Thelores e Xaniqua Laquisha, que também integraram o elenco de “Rei Lear”.

Na trama, o general Macbeth regressa da guerra e encontra três bruxas, que profetizam que ele será rei da Escócia. Impulsionados pela previsão, Macbeth e sua mulher, Lady Macbeth, planejam o assassinato do rei Duncan para tomar a coroa. O crime desencadeia uma espiral de culpa, medo e violência. À medida que passa a enxergar ameaças ao seu poder, Macbeth é dominado pela paranoia e se transforma em um tirano.
Para João Mostazo, a aparente simplicidade da história esconde a complexidade psicológica de uma obra atravessada por ambiguidades e conflitos não verbalizados. “Quase tudo do que as personagens dizem pressupõe uma segunda camada de sentido, e há um ensurdecedor não dito pulsando por baixo de toda a ação”, afirma o dramaturgo. Segundo ele, a peça investiga sentimentos como “medo, paranoia, traição, desconfiança e ambição” com grande profundidade.
A ideia de encenar Shakespeare com um elenco formado integralmente por drag queens surgiu em 2017, durante os ensaios de “A demência dos touros”, montagem que tinha Lilith Prexeva no elenco e incluía cenas inspiradas em “Hamlet”. “Ali, há quase dez anos, já estávamos explorando muito do que iríamos concretizar futuramente: um espaço de cena onde a drag estabelece diferentes tipos de ambiguidade, entre as performances de gênero, entre o ser ou não ser, e o ser e não ser”, explica Ines Bushatsky.

Em “Macbeth”, a linguagem drag é utilizada para rever personagens tradicionais e deslocar convenções de gênero presentes na obra. De acordo com a diretora, a proposta não busca uma reprodução literal do texto de Shakespeare, mas a recriação dos efeitos que ele produzia em seu próprio tempo.
A adaptação incorpora versos, expressões e referências da cultura e da literatura brasileiras para aproximar o clássico do público contemporâneo. Ao cruzar a tragédia shakespeariana com elementos estéticos e políticos do universo LGBTQIAPN+, a montagem propõe novas leituras sobre poder, ambição, identidade e violência.
Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93, Água Branca, São Paulo, SP.


