
Em “Meu Filho é um Musical”, Paulo Gustavo ganha, literalmente, um lugar entre os deuses do teatro. Idealizado por Déa Lúcia, sua mãe, o espetáculo retrata a trajetória do ator e comediante, desde a sua infância até a sua morte em 2021. Na direção, mais dois profundos conhecedores de Paulo Gustavo: Ju Amaral, sua irmã, e João Fonseca, que o dirigiu em trabalhos como “Minha Mãe é Uma Peça”.
Após passar pelo Rio de Janeiro, o musical faz sua temporada em São Paulo e realiza um de seus sonhos, o de virar tema de um musical. Para trazê-lo de volta aos palcos, João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli se alternam no papel. João Pedro, aliás, por mais que tenha ganhado notoriedade em vídeos curtos em que imita sua própria mãe, consegue sustentar o personagem de Paulo pelas três horas de espetáculo. Ao seu lado, Dona Déa aparece em dose dupla: em pessoa e interpretada por Renata Borges, acompanhada por Milena Machado como Ju Amaral. Além delas, Thiago Voltolini se destaca como Fábio Porchat ao reproduzir a energia e os trejeitos do comediante sem cair no ambiente da cópia.

Como plano de fundo, literalmente, “Meu Filho é um Musical” tem um teatro grego cercado por estruturas e estátuas grandiosas de Paulo Gustavo. Por mais que esse cenário cause um estranhamento inicial, ele se transforma nos diferentes ambientes cariocas que abrigam as cenas. Por exemplo, o teatro grego ganha ares de balada gay, casa de família, ruas do Rio de Janeiro e escola de teatro. A temática grega revela seu sentido completo com a inclusão do coro vestido em túnicas coloridas nos números de abertura e encerramento. Dessa forma, eternizando Paulo Gustavo em uma espécie de panteão dos deuses do teatro. Isso ao som de tanto músicas originais, quanto outras já conhecidas que fizeram parte da vida pessoal e profissional do homenageado.
Um grande acerto de “Meu Filho é um Musical” é honrar o bom humor e a irreverência típicos do comediante. A todo momento, o elenco arranca risos da platéia no melhor estilo de Paulo Gustavo. E com direito à participações pontuais de personagens marcantes como Dona Hermínia e Mulher Feia. Mesmo assim, o espetáculo toma o cuidado de mostrar outros lados do comediante ao abrir espaço para as bandeiras que levantou ao longo da vida. A começar por ser assumidamente gay e defensor de famílias homoafetivas, mas também um forte defensor da classe artística.
As bandeiras de Paulo aparecem espalhadas ao longo das três horas de musical, e todas elas culminam no momento em que “Minha Mãe é uma Peça” vira o maior sucesso de bilheteria e público da história do cinema brasileiro. Este momento, além de representar o sucesso da sua carreira como comediante, também marca o auge dos seus esforços pela valorização do seu trabalho como artista. Porém, a obra não se define pelos desafios que o comediante enfrentou, preferindo evidenciar suas conquistas e legado com alegria.

Por fim, tão repentinamente quanto na vida real, os momentos de leveza são interrompidos pela sequência de cenas que abordam a pandemia de Covid-19. Com isso, também passam a fazer parte da peça a doença de Paulo Gustavo e a sua morte. Apesar do novo contexto de tensão e aflição, principalmente para aqueles que acompanharam as notícias sobre a sua internação, o espetáculo novamente se esforça para retratar as atitudes de força do comediante. Neste caso, ele relembra sua defesa ao isolamento social e à vacinação, críticas tecidas ao governo de Jair Bolsonaro, e constante cuidado com a família e amigos.
Mesmo para aqueles que não sejam tão familiarizados com a história de Paulo Gustavo, “Meu Filho é Um Musical” recria sua vida de maneira tão carinhosa que fica difícil não se apegar ao personagem. Tudo isso resulta em uma cena final de despedida que emociona boa parte da platéia. Mas, o próprio musical dá conta de reconfortar o público ao citar a famosa frase de Paulo Gustavo: “Rir é um ato de resistência”.
Teatro Renault: Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista, São Paulo, SP. Até 11 de outubro. Ingressos à venda pela Ticketsforfun.



