
A presença feminina no comando das empresas da indústria do vestuário no Brasil está crescendo – e os números mostram que a mudança é real. Nos últimos 15 anos, a participação de mulheres na liderança do setor mais que dobrou, passando de 9,8% em 2010 para 24,1% em 2025, segundo dados inéditos do Iemi – Inteligência de Mercado.
O avanço sinaliza uma transformação gradual na estrutura de poder de um dos setores mais importantes da cadeia têxtil nacional. Hoje, praticamente uma em cada quatro empresas de vestuário no país é liderada por mulheres. O movimento também aparece em outros segmentos industriais ligados ao universo da moda e da casa. Nas indústrias de Têxteis Lar (que incluem cama, mesa, banho, cozinha e decoração) a presença feminina no comando saltou de 6,7% para 18% no mesmo período.
Já nas indústrias têxteis de fios e tecidos, tradicionalmente mais técnicas e industrializadas, o crescimento é mais discreto, mas ainda assim significativo: o índice subiu de 4,6% para 7%. Apesar do avanço, os números ainda mostram uma distância importante entre a participação feminina no mercado e nos cargos de liderança.
“Existe um descompasso entre quem consome, quem trabalha e quem lidera em determinadas etapas da cadeia. Esse é um dado relevante para discutir competitividade, diversidade e inovação no setor”, afirma Marcelo Prado, consultor e diretor do Iemi.
Esse contraste fica ainda mais evidente quando se observa o comportamento do consumo. As mulheres são hoje o principal motor de decisão de compra em diversos segmentos ligados à moda e ao lar. No vestuário, 67% das decisões de compra passam pelas mulheres. Em calçados, o índice é de 65%. Nos produtos de utilidades domésticas, elas respondem por 66% das escolhas.
Mesmo em categorias tradicionalmente associadas à decisão familiar, como móveis e colchões, a influência feminina continua dominante: 60% e 61%, respectivamente. Já em artigos decorativos, elas representam 59% dos compradores. Para o setor, isso significa que entender o comportamento feminino deixou de ser apenas uma segmentação de marketing, virou uma questão estratégica.
“Quando dois terços do consumo de roupas e calçados estão concentrados nas mulheres, qualquer mudança de comportamento, renda ou percepção de valor impacta diretamente a produção, o varejo e o planejamento da indústria”, explica Prado.

Na prática, o peso das consumidoras influencia tudo: desenvolvimento de produtos, ritmo de coleções, gestão de estoques e estratégias comerciais. Categorias com maior participação feminina tendem a ter ciclos de renovação mais rápidos e maior pressão por inovação.
Outro ponto relevante aparece dentro das próprias fábricas. As mulheres também representam uma parcela significativa da força de trabalho nas confecções brasileiras, principalmente em áreas como costura e acabamento. Essa presença nas duas pontas da cadeia [como consumidoras e como profissionais da indústria] reforça o papel central do recorte de gênero na análise econômica do setor.
“Não se trata apenas de segmentação de público. Estamos falando de inteligência de mercado. Quem entende a mulher como agente econômica consegue planejar melhor produção, mix e canais de venda”, resume Prado.
Em um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais por ano no Brasil, compreender o papel feminino no consumo e na estrutura produtiva deixou de ser uma pauta pontual e se consolidou como um fator estratégico para a indústria e o varejo.



