
O dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989) escreveu “Fim de Partida” nos anos 1950, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial. Nesse cenário pós-apocalíptico, ele apresenta os personagens Hamm e Clov, símbolos de um mundo em ruínas físicas e emocionais.
Mais de sete décadas depois, a peça ainda dialoga com o atual estado do mundo, o que motivou esta nova montagem. A temporada tem estreia marcada para 30 de abril, no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, e segue em cartaz até 31 de maio de 2026.
Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França são dirigidos por Rodrigo Portella em um projeto produzido por Fernando Libonati, da Pequena Central.
Em cena, Hamm (Nanini) e Clov (Weber) possuem uma trágica dependência física e emocional, em um vínculo atravessado pela violência e pela crueldade cotidiana, em uma tragicomédia ácida e melancólica. Presos em um espaço claustrofóbico, as personagens enfrentam uma realidade desprovida de sentido, marcada por repetições, jogos de poder e uma espera que nunca se resolve.
“Costumo dizer que Beckett fica orbitando a cabeça dos atores contemporâneos, pois oferece um imenso desafio com os múltiplos caminhos que a sua obra permite”, diz Nanini, que já pensava em encenar algum texto do autor irlandês quando aceitou de pronto a provocação de Weber, responsável pela sugestão para atuarem juntos em “Fim de Partida”. Juntos, eles já estiveram nas montagens célebres de “Os Solitários” (2002) e “A Morte do Caixeiro Viajante” (2004).
Logo, reuniram Helena Ignez, nome icônico nome do cinema brasileiro, com quem Nanini contracenou no início da carreira, e Ary França, com quem dividiu o palco no premiado “O Burguês Ridículo” (1996).
Rodrigo Portella foi convidado para assumir a direção da peça e chega em um momento profissional marcado pela consagração de espetáculos recentes, como “Tom na Fazenda”, “Ficções”, “Um Ensaio sobre a Cegueira” (Grupo Galpão) e “Ray”. Ele divide o texto de “Fim de Partida” em três fluxos: “O primeiro seria a relação simbiótica entre Hamm e Clov, mas, numa segunda camada, a peça pode ser lida como uma alegoria política. Hamm surge como um tirano arbitrário, figura que alude à lógica da guerra e do militarismo, cuja autoridade se funda no poder bélico e opressivo. Clov é o corpo submisso, o soldado em vigília permanente, sempre de pé, incapaz de repouso, a serviço de uma engrenagem que não faz nenhum sentido. A cena torna-se, assim, um campo de poder em ruínas”, explica Portella
O diretor chama a atenção para uma terceira camada de leitura: a do metateatro. Evidenciada pela cenografia de Daniela Thomas, que coloca uma espécie de palco dentro do palco, em uma pequena caixa cênica retangular, a característica de metalinguagem proposta pelo texto se estabelece.
“Clov é o clown, o operador da cena, o ridículo, enquanto Hamm assume a figura do ator principal, o narrador canastrão que se sustenta na fabulação de si mesmo. O teatro se dobra sobre ele próprio: Há um teatro dentro do teatro, um palco dentro do palco”, afirmaRodrigo Portella
A equipe criativa do espetáculo reúne ainda parceiros recorrentes na trajetória de Nanini, como a cenógrafa Daniela Thomas, o iluminador Beto Bruel e o figurinista Antonio Guedes, além do produtor Fernando Libonati, responsável pela produção artística de seus espetáculos nas últimas três décadas.
Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo, SP.



