
O ator e psicanalista Rafael Costa, idealizador da 3C – Plataforma de Pesquisa, Criação e Produção Cultural Antimanicomial -, tem uma longa pesquisa na interface Arte, Loucura e Psicanálise. Em seu novo espetáculo, “Esboço”, a investigação tem como premissa o não enclausuramento cênico da loucura e a desconstrução de estereótipos. A obra é construída a partir de dois textos da escritora brasileira Hilda Hilst e faz sua estreia no projeto Teatro Mínimo, do Sesc Ipiranga, nesta sexta-feira (16.05), às 21h30. A temporada segue até 8 de junho, com sessões às sextas, às 21h30, e, aos sábados e domingos, às 18h30. A apresentação do dia 24 de maio fará parte da Virada Cultural de São Paulo.
A partir dos textos “Esboço” e “Com os meus olhos de cão”, a trama apresenta ao público um professor de matemática pura que conclui que tudo à sua volta e todo o seu entendimento sobre a vida é apenas um esboço. Por isso, esboço passa a ser a única palavra que media a sua comunicação com o mundo.
O solo tem direção e dramaturgismo de Donizeti Mazonas, que investiga a obra dessa autora há quase duas décadas. “Por ser uma prosa poética, torna-se um desafio levar seus textos para a cena. O fluxo de consciência é um recurso bastante presente na escrita da autora, numa polifonia de vozes que torna, às vezes, difícil saber exatamente quem está falando”, comenta o diretor.
“Esboço” estreia no Mês da Luta Antimanicomial no Brasil, comemorado especialmente no dia 18 de maio, que marca o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. A data celebra a Reforma Psiquiátrica e a criação de uma sociedade sem manicômios, isto é, a luta por um sistema de cuidado em saúde mental que priorize a liberdade e o tratamento em comunidade.
Infância, família, trabalho e a sua relação com Deus estão em chamas, é dentro deste fogo que Riolo, protagonista desta jornada, recebe a constante exigência externa para esboçar o que ele quer dizer com a palavra “esboço”. Para construir cenicamente a experiência de um fluxo de pensamento, a encenação parte da proposta radical de uma ação ininterrupta, paradoxalmente, uma caminhada sem fim e sem sair do lugar.

A equipe de criação formada por Renan Marcondes, Vic von Poser, Dimitri Luppi e Pedro Canales criam um ambiente sinestésico para adentrar no pensamento e nos afetos desse “acrobata sobre os fios do tempo”. O palco é atravessado por sons, cores, texturas e textos que pluralizam as vias de recepção do espetáculo.
“Eu gostaria que as pessoas saíssem do espetáculo com a infamiliar sensação de estranhamento. Isso porque, quando se fala em saúde mental, penso que as concepções de harmonia e equilíbrio acabam por nos aprisionar em um ideal que humanamente não nos contempla. Precisamos lidar com as nossas experiências de transbordamento, são nesses momentos, por vezes difíceis, que somos mais gente”, defende Costa.
“Esboço” é um convite para o público vivenciar os caminhos do enlouquecimento para além da replicação de estereótipos e de tipos de cuidados já amplamente conhecidos. Rafael acredita que, tanto no campo artístico quanto na vida, o encontro com a Loucura proporciona o abalo das certezas e revela os modos que se instauram como padrão. A peça é também um dispositivo para celebrar e reforçar a importância do 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
“A obra de Hilda Hilst serve perfeitamente a esse propósito já que nela a suposta loucura das personagens é nada mais que um excesso de lucidez”, diz Donizeti. “Todos os personagens dela deram um passo além da realidade, mas, por outro lado, atingem um outro nível de compreensão da existência. Na verdade, é como se essas pessoas conseguissem extrapolar o senso comum enxergando além. E isso não é algo negativo”, completa.
Costa pesquisa a partir dos pressupostos éticos da luta antimanicomial brasileira, a analogia entre o fazer clínico psicanalítico e o fazer artístico. A plataforma tem se destacado dentro e fora do país como um polo de criação no campo das artes, no qual a loucura não fica restrita à condição temática, mas também se afirma como instauradora de novos regimes estéticos.
Sesc Ipiranga – Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo, SP.



