
A partir do sábado, dia 12 de julho, o espaço Fonte – organização que oferece desde 2013 residências para artistas internacionais, estadias para artistas de outros estados brasileiros e ateliês temporários para jovens artistas – abre suas portas para a exposição “A Montanha em Mim”, da artista visual Renata Egreja, demarcando um ponto de inflexão em sua trajetória artística: um retorno à terra, mas também uma expansão simbólica de seu próprio território criativo.
“Se antes a narrativa da produção da Renata era permeada por códigos íntimos da domesticidade da mulher, atravessada pelas violências do cotidiano entre paredes, agora ela se ancora em uma poética mais telúrica, que ecoa vozes silenciadas de várias épocas e abre caminho para uma identidade coletiva, extraída da sua própria ancestralidade feminina”, explica a curadora Marina Bortoluzzi – fundadora da plataforma mundial WOW – Women on Walls, que assina a curadoria e o texto da exposição.
Em “A Montanha em Mim”, a artista aprofunda sua pesquisa a partir da sua experiência pessoal da vida rural, coletando elementos pictóricos do sítio de sua linhagem materna, localizado em Ipaussu, no interior do estado de São Paulo.

Renata cresceu entre as plantações agrícolas da região centro-oeste paulista até os 14 anos e, em 2019, retornou ao território para viver e trabalhar, com o marido e as duas filhas, reafirmando o vínculo com suas raízes, cultivadas há quatro gerações sob uma liderança matriarcal. “Em tempos em que o agronegócio é visto muitas vezes sob uma perspectiva de vilão dentro de cenários políticos e para a conservação de meio ambiente no Brasil é preciso reforçar que a presença de mulheres líderes no campo sempre trouxe uma perspectiva positiva neste contexto. Como a gestão eficiente de recursos, a adoção de práticas sustentáveis e a inovação em processos produtivos. Mulheres que lideram propriedades rurais costumam fazer a diferença otimizando a produção com base na humanização no trabalho, promovendo sustentabilidade, segurança alimentar, desenvolvimento local e bem-estar nas zonas agrícolas”, explica Renata, reverenciando o trabalho no sítio onde vive, que foi iniciado pela avó materna.
Para Renata, após uma longa trajetória – que inclui exposições em importantes instituições, como Instituto Tomie Ohtake, Paço das Artes, MAC Sorocaba, Museu de Arte de Curitiba, Sesc-SP, Faap e Pinacoteca Forum das Artes – este é um momento de virada ética e política em sua pesquisa e produção. “Eu recuso a ideia de um feminino frágil, delimitado pelas bordas do sistema. Acredito em uma visão insurgente, em que o corpo da mulher e o chão cultivado compartilham a mesma lógica de exaustão e, ao mesmo tempo, de potência regenerativa”, explica a artista, que aos 41 anos, apresenta uma produção madura, onde alegria e melancolia; jovem e anciã coexistem, integrando luz e sombra. “As montanhas que a cercam, podem ser guardiãs ancestrais, como também reflexo do seu próprio self. Em seu interior cavernoso e uterino, abriga metais preciosos, escavados de suas profundezas. Ao se reconectar com suas raízes como fonte de sabedoria e força criadora, ela semeia um novo ciclo”, explica a curadora.

“A Montanha em Mim” chama a atenção pela pintura monumental e expandida, que rege o eixo curatorial e a paleta cromática da exposição, composta por quatro telas de larga magnitude, que preenchem a sala expositiva da galeria Fonte como um site specific, nos transportando para outra dimensão, imersos ao universo metafísico e onírico da artista. Além disso, a individual apresenta 20 obras em técnicas e materiais diversos, como pintura a óleo e acrílica, pigmentos naturais e sintéticos, purpurina, aquarelas, instalação imersiva e cerâmicas.
Galeria Fonte – Rua Mourato Coelho, 751, Vila Madalena, São Paulo, SP. Até 09 de agosto de 2025.



