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RJ: Cia Líquida apresenta o solo “Cio da Terra” com exibições gratuitas

por Redação CHNews
03/05/2024
Tempo De Leitura: 4 minutos de leitura
Cena de “Cio da Terra” – Foto: Paulo Nogueira

Reunindo um panteão de deusas pagãs, a força de um feminino ancestral da terra e do corpo, a Cia Líquida estreia a circulação do espetáculo “Cio da Terra” no dia 05 de maio, às 18h no Teatro Angel Vianna, na Tijuca. Desenvolvido e encenado pela artista multilinguagem Mery Horta, que dança e performa o primeiro solo de sua carreira, este trabalho é o terceiro desenvolvido pela companhia e dá seguimento aos anteriores, inspirados pelos elementos da natureza. Após ganhar o Prêmio Firjan Sesi de Dança para criação em 2023, o espetáculo agora foi contemplado com o edital Giros – Solos – Apoio à Dança – Lei Paulo Gustavo Secec RJ e uma residência artística do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro.

“Cio da Terra” será apresentado ainda nos municípios de Nova Iguaçu, Queimados, Duque de Caxias e Rio das Ostras, e a circulação contempla ainda uma oficina de dança gratuita para mulheres cis e transexuais, que acontece no próprio Centro Coreográfico dia 04 de maio, às 9h30.

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Caverna, corpo-fenda, abertura que cria universos outros a partir das próprias entranhas, o espetáculo instaura uma ambiência sensorial terrosa onde são trabalhados elementos do corpo feminino, seus ciclos e inquietações. Num universo microcosmos de tempo cíclico espiralar que entrelaça presente, passado e futuro, que revira o tempo e o pluraliza, a montagem abre fendas e passagens por onde se insinuam o riso e o gozo, rasga um sulco na terra por onde brotam novos sentidos e possibilidades. Permeando muitos dos trabalhos da multiartista Mery Horta, o vermelho e o urucum são dois elementos que se relacionam com sua ancestralidade afro-brasileira e indígena e, ainda, com questões do feminino. 

Na montagem, eles se juntaram à ideia de pensar com outras partes do corpo – como o quadril, o útero e os pés – um modo de dar atenção e desenvolver os saberes ligados a essas partes.

“Muitas vezes deixamos de lado partes do corpo em detrimento de uma hierarquização da cabeça como centro do raciocínio e do pensamento. Nessa ideia de pensar com outras partes do corpo abrem-se outros caminhos para a cena. Local gerador de vida e morte, o útero é como um microcosmos de força vital para o corpo feminino e que geralmente é visto como um tabu em nossa sociedade. O próprio ciclo menstrual, que está diretamente ligado ao ciclo de vida da mulher, é extremamente importante ser tratado assim como os ciclos da natureza, ciclos de morte e vida, do sangue menstrual ao ovário que se regenera. A montagem pretende contribuir nessa discussão por meio de uma perspectiva poética e artística”, diz Mery.

Cena de “Cio da Terra – Foto: Paulo Nogueira

Diferentemente das montagens anteriores, onde orixás estavam intrinsecamente ligados aos espetáculos, em “Cio da Terra” a relação divina surge de formas variadas na inspiração e relação com a dança e sua cena. “Nossa pesquisa de movimento revelou características de algumas divindades pagãs. O orixá Nanã foi uma delas, assim como as deusas Balbo e Hécate. Em registros da Grécia antiga, Balbo é uma deusa que, em sua representação, possui os olhos no lugar dos seios e a boca no lugar da vagina. Hécate, a deusa de três cabeças, vem como uma sabedoria ligada a esse feminino ancestral, da cura através das ervas, dos jogos de palavras. Junto de todo esse panteão, trazemos ainda uma transmutação com a natureza proposta pela cultura oriental, o ser montanha, ser árvore, bem como tomamos como referência autores afro-brasileiros e indígenas como Leda Maria Martins e Ailton Krenak”, resume Mery, que desenvolve pesquisas e criações na dança, nas artes visuais e na performance.

Assim como nas outras duas montagens da Cia Líquida, nesta também foi criado um ambiente sensorial em cena para o público. Após mais de 10 anos de carreira na dança, tendo dançado em várias companhias de dança contemporânea e sempre desenvolvendo trabalhos autorais em paralelo, Mery criou a Cia Líquida veio num momento de maturidade de sua vida profissional, ao perceber a necessidade de desenvolver projetos de forma mais independente. “Após dois espetáculos onde dirigi e coreografei vários intérpretes-criadores, me vi no momento de realizar meu primeiro solo, como se o próprio trabalho me pedisse isso. Levo para a cena longos anos de estudo na UFRJ e de trabalho no Brasil e no exterior, e o axé do samba pois, além de tudo, sou passista há oito anos na G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel”, afirma Mery.

Completando dois anos em 2024, a Cia Líquida já ganhou prêmios consecutivos, editais de fomento e realizou circulações no Rio, Bahia e São Paulo. “Fico extremamente feliz e vejo que os longos anos de estudo e de trabalho deram frutos, pois eu e minha equipe trabalhamos incessantemente. Passei longos anos da minha carreira profissional desenvolvendo trabalhos autorais sem fomento, patrocínio ou qualquer tipo de aporte financeiro. Agora, graças ao aumento e também à democratização de editais de fomento às artes, profissionais como eu, com origem periférica (Bangu – Zona Oeste) e uma longa trajetória, conseguem acessar o fomento público, o que nos permite desenvolver nossos trabalhos em arte com o mínimo de dignidade que todo trabalhador merece”, finaliza a artista.

Tags: cia líquidacio da terradançagratuitomery hortario de janeirosolo
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