
Uma superfície que deixa de ser superfície. Uma forma que parece avançar ou recuar, dependendo do lugar de onde é observada. Uma estrutura de aço cuja solidez convive com uma inesperada sensação de leveza. Na obra de Wolfram Ullrich, enxergar nunca é uma operação inteiramente segura. Aquilo que os olhos reconhecem em um primeiro instante pode se desfazer após um simples passo para o lado.
Essa instabilidade conduz “Ambiguidade construtiva e ativação do espaço”, exposição individual do artista alemão na Galeria Raquel Arnaud, em São Paulo. Com texto crítico de Guilherme Wisnik, a mostra reúne trabalhos que transitam entre pintura, escultura e arquitetura e transformam o visitante em parte fundamental da experiência. É preciso se aproximar, mudar de posição e aceitar que nenhuma percepção será definitiva.

Para Ullrich, o olhar está longe de ser neutro. “Vemos o mundo a partir de uma perspectiva única, moldada por nossas experiências, expectativas, emoções e pelo contexto particular em que nos encontramos. Nossa busca pela realidade, e pela verdade, em seu sentido mais amplo, permanece, portanto, necessariamente limitada e incompleta”, afirma. A reflexão ganha ainda mais força em uma época atravessada por algoritmos e imagens digitais cada vez mais convincentes. “Nossa percepção é cada vez mais influenciada, moldada e, algumas vezes, manipulada pela mídia, pela inteligência artificial, pelos ambientes sociais e por outras forças externas. Isso torna o distanciamento crítico mais importante do que nunca.”

Desconfiar daquilo que se vê não significa negar a realidade. Para o artista, a dúvida pode abrir caminho para uma compreensão mais profunda. “Significa reconhecer os limites da nossa perspectiva, questionar nossas suposições e permanecer abertos à possibilidade de que a realidade seja diferente de como se apresenta inicialmente”, explica.

A origem dessa investigação remonta à formação de Ullrich como pintor. Durante os estudos, ele percebeu que as questões que desejava explorar já não cabiam inteiramente nos limites da tela. “Meu verdadeiro tema era o espaço. As possibilidades da pintura bidimensional, apenas por meio da cor e da forma, já não pareciam suficientes para expressar as questões que eu queria investigar”, conta. O relevo tornou-se uma maneira de ultrapassar o plano pictórico e analisar como espaço, representação, arquitetura e presença física da obra interagem.

Na Galeria Raquel Arnaud, essa pesquisa se organiza em núcleos distintos. No andar térreo, trabalhos inéditos utilizam exclusivamente as cores primárias [vermelho, azul e amarelo]. Longe de cumprir uma função decorativa, a cor estabelece ritmos, tensões e relações com o espaço. Uma instalação de grandes dimensões ocupa a maior parede da galeria e muda de aparência conforme a posição do visitante. “Ela dialoga com a arquitetura por meio de um ritmo de cores e superfícies metálicas, alternando-se entre diferentes perspectivas”, observa Ullrich.

Outros objetos pictóricos parecem flutuar diante das paredes brancas, reunindo a presença física do aço, a precisão geométrica e a intensidade cromática. “A restrição às cores primárias e o uso das propriedades de cada material não são limitações impostas de fora, mas decisões artísticas conscientes”, ressalta. “Ao reduzir a paleta, crio uma estrutura concentrada, dentro da qual espaço, luz, cor, matéria e percepção podem interagir.”

No segundo andar, relevos inéditos produzidos em aço corten introduzem outra dimensão à mostra: a passagem do tempo. Neles, a cor não é simplesmente aplicada à superfície, mas nasce do próprio processo de oxidação. “Cor e matéria são dois conceitos centrais em meu trabalho. Cada peça revela o material do qual é feita. Nesse sentido, os objetos não são monocromáticos, mesmo quando parecem ser à primeira vista.”
As marcas da ferrugem registram um material em contínua transformação e criam um contraste com a exatidão das formas. “O que parece estável e inequívoco é continuamente alterado pelo tempo, pelo processo e pelas mudanças na superfície do material”, afirma Ullrich. É justamente nesse confronto entre permanência e mudança, imagem e objeto, peso e leveza que sua obra encontra força.

Como observa Wisnik, “não há um ponto de vista privilegiado para se observar esses trabalhos, nem, portanto, uma forma estável de reconhecê-los”. Mais do que uma exposição sobre geometria, “Ambiguidade construtiva e ativação do espaço” coloca em cena uma pergunta urgente: até que ponto podemos confiar no próprio olhar? Ullrich não oferece uma resposta definitiva. Em vez disso, transforma a dúvida em instrumento de descoberta e sugere que enxergar melhor talvez dependa de reconhecer que a primeira imagem nunca conta a história inteira.
No sábado, 3 de outubro, às 11h, a Galeria Raquel Arnaud promove “Volumes e distorções”, conversa sobre a obra de Wolfram Ullrich com os convidados Agnaldo Farias e Guilherme Wisnik.
Galeria Raquel Arnaud -R. Fidalga, 125, Vila Madalena, São Paulo, SP. Até 30 de outubro.



