
Publicado originalmente em 1899, “Dom Casmurro” ganha uma nova vida na forma de um musical. Davi Novaes se encarrega da adaptação do texto, e Guilherme Gila assina as letras, músicas e direção musical. Já a direção é de Zé Henrique de Paula. Em sua quinta encenação, o musical fará uma curta temporada no Itaú Cultural começando nesta quinta-feira (02.04) e se estendendo até o dia 12 de abril. As apresentações acontecem de quinta a domingo e com entrada gratuita.
Com estreia em novembro de 2024, a peça recebeu os prêmios Bibi Ferreira de melhor dramaturgia original em musicais e o Prêmio Destaque Imprensa Digital de dramaturgia original e de letra original, ambos em 2025. Gila contou para o CHNews que o processo de escrita das letras e do texto, que levou cerca de um ano para ser concluído, além de mais três anos para que ele saísse do papel.
O desafio de transformar Dom Casmurro em um musical
Adaptar um romance de Machado de Assis para um musical de cerca de duas horas de duração, conta Gila, foi um ponto de atenção durante a produção. “Por ser uma obra muito clássica da nossa literatura, a gente realmente fez questão de olhar com muita calma, muito carinho, para entender o que ia entrar na história e o que não ia, qual era o olhar que a gente ia dar.”
Gila, que já tinha trabalhado com adaptações musicais de “A Igreja do Diabo” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos“, percebeu uma tendência do mercado de teatro musical: a receptividade de versões musicais de biografias e obras literárias. Mas, nesse contexto, ele também notou a ausência da literatura brasileira. E, a partir daí, nasceu o desejo de levar uma das maiores obras brasileiras para os palcos.
A escrita machadiana também surgiu como um destaque. Combinada à linguagem dos musicais, ela ganhou uma nova conexão com o público atual. “A dramaturgia, o texto, as frases são muito parecidas com as frases do Machado. Tem algumas citações do próprio livro. Mas, para a música e a letra eu fiz questão de trazer uma coisa um pouco mais contemporânea para que fosse um fator de identificação mais direto com o público de hoje em dia”, comenta o compositor.
O “anacronismo musical” de Dom Casmurro
O foco da musicalidade da peça reside na emoção que o enredo desperta nos seus leitores. Em uma decisão que muitos considerariam sábia, Gila reconheceu que imitar a escrita de Machado de Assis seria um erro, dada a sua complexidade e estilo único. “Quando eu fui reler o livro, e já pensando em adaptar para musical, eu falei: ‘não vou conseguir dar conta de escrever do jeito que ele (Machado de Assis) escreve’. Isso nunca foi uma pretensão”. No lugar disso, o resultado que chega para o público é a sua percepção emocional da obra traduzida na forma de música. Das melodias mais românticas às mais atormentadas e insinuosas, a ideia foi transpor os sentimentos de Bento Santiago, o protagonista do livro, para as canções.
Como inspirações sonoras, Gila destaca a MPB e o pop rock como carros-chefe. E ele explica que cada um dos personagens, que são muitos, recebeu suas próprias características musicais. “A Capitu é mais puxada para o samba, com toda essa coisa leve que ela traz, ela tem uma identificação cultural muito forte com o nosso país. O Bentinho tem um conflito religioso muito forte, então eu trouxe alguns elementos de gospel também. O Escobar, que é um personagem que vem com rebeldia e que tem uma relação muito masculina com o Bentinho, ele é no rock’n’Roll”.
O compositor aponta a concepção dos arranjos, feitos em parceria com Samir Alves, como um dos maiores trunfos do espetáculo. Todos os gêneros musicais foram condensados em uma banda formada por instrumentos de sonoridade que ele considera antiga, como violino, piano, violoncelo e contrabaixo. Para finalizar a musicalidade, ela é acompanhada de uma percussão que dá à trilha um ar mais “brasileiro”.
Nas palavras de dele, a mistura de instrumentos antigos com a sonoridade nova, cria um “anacronismo musical” para unir o lado histórico da obra com os estilos musicais usados na adaptação.
Musical Dom Casmurro para além da traição (ou não) de Capitu
“Capitu traiu o Bentinho ou não?”. Essa talvez seja a pergunta que mais ronda Dom Casmurro e a que mais permeia as discussões sobre o livro. Mas, para Gila, ele vai muito além desse questionamento. “Quando eu fui reler o livro, eu falei ‘por que a gente tá discutindo isso?’. Sendo que existe um problema muito maior que é esse cara (o Bentinho, que é abusador, tóxico para caramba.”
Na leitura dele, a forma como o protagonista da obra é escrito avança para tópicos que cercam a masculinidade e superam a clássica pergunta da traição. “Essa pergunta surge do meio para o final do livro, que, como um todo, para mim, é muito mais sobre como a gente cria os nossos meninos. Como a gente está criando esses homens que são muito orgulhosos, que são muito mimados, que acham que é tudo sobre eles.”
Mesmo assim, a adaptação musical não tem como fugir do assunto da traição por se tratar de algo tão intrínseco ao enredo. Porém, no espetáculo a história termina de uma forma diferente: em uma cena que não existe no material original, há um direito de resposta. Isso foi adotado como uma forma de reforçar a visão da equipe criativa sobre a real mensagem da história e tirá-la do lugar comum. “O livro está no imaginário coletivo das pessoas. Mas os detalhes da história, os personagens, as relações que de fato acontecem, não estão ali.”
Futuras adaptações musicais brasileiras
Gila citou nomes como Jorge Amado, Mário de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst e Carla Madeira como fontes de materiais que ele gostaria de, um dia, levar para os palcos. Mas que, por enquanto e por falta de investimentos, ele tende a se ater a livros que estão no domínio público. Além disso, ele expressou o desejo de incentivar que mais pessoas leiam e tenham contato com a literatura brasileira por meio de suas adaptações.
Quando perguntado se voltaria a trabalhar com o repertório de Machado de Assis, Gila contou que há um terceiro projeto machadiano em desenvolvimento. Ainda sem muitos detalhes, explicou que esse próximo lançamento completará sua trilogia de adaptações machadianas que começou com “A Igreja do Diabo” e “Dom Casmurro”.
Dom Casmurro fica em cartaz até dia 12 de abril de 2026. As sessões acontecem de quinta a sábado, às 20h, e de domingo e no feriados, às 18h. O espetáculo tem duração de cerca de duas horas e conta com um intervalo de 15 minutos. Os ingressos são gratuitos e disponibilizados no site do Itaú Cultural, e limitados a dois por CPF.



