
O Itaú Cultural abre, no dia 7 de abril, às 19h, a exposição “Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira”, primeira grande individual de Mestre Didi no Brasil em mais de 15 anos. Gratuita e espalhada pelos pisos 1, -1 e -2 do instituto, a mostra reúne 170 peças (entre elas, 50 esculturas) e propõe uma imersão na trajetória de um dos nomes centrais da arte afro-brasileira do século 20. A mostra segue em cartaz até 5 de julho.

Nascido em Salvador, em 1917, e falecido na mesma cidade em 2013, Didi construiu uma obra que atravessa arte, espiritualidade e pesquisa. Conhecido como artista e sacerdote, ele transformou elementos do universo litúrgico dos orixás em linguagem escultórica, tensionando as fronteiras entre ritual e arte contemporânea. A exposição parte desse cruzamento para reposicionar sua produção no circuito artístico, destacando o caráter inventivo de um trabalho ancorado na ancestralidade.

A abertura será marcada pela cerimônia Oro Ojés, conduzida pelo terreiro Ilê Asipá. Na performance, sacerdotes entoam cantigas sagradas, transportando para dentro do espaço expositivo uma vivência direta da tradição que molda a obra do artista.
Além das esculturas, o percurso incorpora documentos, livros, fotografias, registros carnavalescos, esboços e correspondências vindos do acervo da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil, fundada por Didi e atualmente sob guarda do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo. Materiais audiovisuais produzidos especialmente para a exposição ajudam a ampliar a leitura sobre sua atuação como artista, intelectual e líder religioso.

A curadoria, assinada por Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura, propõe um diálogo entre a obra de Didi e a produção de artistas afro-brasileiros de diferentes gerações. Ao todo, 16 nomes participam da mostra, evidenciando a continuidade de um pensamento estético e simbólico que atravessa o tempo e influencia novas práticas.
Entre os destaques, está a forma como Didi reelabora objetos rituais como o ibiri e o xaxará – tradicionalmente ligados ao culto dos orixás -, criando composições que combinam materiais como palha de dendezeiro, couro e búzios. Mais do que matéria, esses elementos carregam energia simbólica, como ressalta a curadoria, evidenciando a dimensão espiritual que atravessa sua produção.

A expografia acompanha essa lógica ao organizar o espaço em “ilhas” sobre bases de terra, evocando o universo religioso do artista. O resultado é um percurso que aproxima gesto, matéria e memória, convidando o público a observar a obra de Didi a partir de múltiplas camadas, estética, histórica e espiritual.
Mais do que uma retrospectiva, a mostra reposiciona Mestre Didi como figura-chave para entender a arte brasileira contemporânea, revelando a força de uma produção que transforma conhecimento ancestral em forma e linguagem.



