
Reconhecida internacionalmente pelo teatro gestual e visual, a Cia. Dos à Deux estreia em São Paulo “Confuzo (está escurecendo dentro de mim)”, espetáculo no qual incorpora, pela primeira vez, a palavra à sua linguagem cênica. Após temporada no Rio de Janeiro, a montagem ocupa o CCBB São Paulo de 10 de setembro a 18 de outubro, com sessões às quintas e sextas-feiras, às 19h, e aos sábados e domingos, às 18h. Com direção, dramaturgia, cenografia e performance de André Curti e Artur Luanda Ribeiro, a obra articula teatro gestual, texto, luz, música e artes visuais para discutir pertencimento, resistência e esgotamento. A palavra surge como extensão do corpo: nasce do gesto e retorna a ele como matéria poética, sem assumir uma função meramente explicativa.
Na trama, o Homem-Árvore tenta lançar raízes sobre um solo que o rejeita. Carregando uma árvore nas costas, ele representa o indivíduo que deseja pertencer, mas é apontado como diferente e impedido de ocupar o próprio território. A imagem simboliza um ser contemporâneo dividido entre a necessidade de criar raízes e a impossibilidade de permanecer.
Ao seu lado está o Homem-Luz, que pedala continuamente uma bicicleta responsável por gerar parte da energia elétrica usada na iluminação da peça. Cada volta mantém o palco aceso, mas também leva o personagem ao limite físico. Enquanto produz luz para o mundo ao redor, ele escurece por dentro.

O mecanismo transforma tecnologia e esforço corporal em elementos da dramaturgia. A iluminação é instável, vulnerável e sujeita a falhas, tornando visível o trabalho necessário para conservar alguma luz, dentro de si, nos afetos e na própria criação. O cansaço real de Artur Luanda Ribeiro passa, assim, a integrar a experiência cênica. “Tenho a sensação de que também sigo pedalando na vida para que certas luzes não se apaguem, dentro de mim, no trabalho, nos afetos, na criação”, afirma. “O corpo acaba revelando aquilo que as palavras nem sempre conseguem dizer, como o desgaste, a insistência, a fragilidade e, ao mesmo tempo, a vontade de continuar.”
Para Curti, a árvore carregada pelo personagem representa “aquilo que insiste em crescer dentro da gente: memória, tempo, desejo, raízes e perdas”. Segundo o artista, o peso físico do objeto também remete às escolhas e histórias que cada pessoa transporta ao longo da vida.
Com música original de Federico Puppi, construída em diálogo com os movimentos, a palavra e a iluminação, “Confuzo” apresenta uma fábula contemporânea sobre corpos que resistem em meio ao colapso social, ambiental e emocional. No espetáculo, escurecer não significa necessariamente chegar ao fim, mas encontrar outra maneira de ver, dizer e existir.
CCBB SP – Rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico, São Paulo, SP.



