
Em 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche caminhava pela Piazza Carlo Alberto, em Turim, na Itália, quando presenciou um cocheiro espancando um cavalo. O filósofo correu em direção ao animal, abraçou seu pescoço e começou a chorar. Pouco depois, mergulharia no colapso mental do qual jamais se recuperaria.
Mais de um século depois, esse abraço desesperado (gesto de compaixão, impotência e ruptura) chega ao palco por meio do corpo de João Paulo Lorenzon. Em “Do Cavalo Nada Sabemos”, o ator, diretor e dramaturgo investiga o que acontece quando a sensibilidade humana se vê diante de uma violência que não consegue deter.
Aclamado pela crítica francesa durante o Festival de Avignon, o solo estreia no Teatro Mínimo do Sesc Ipiranga no dia 18 de setembro, sob a direção de duas artistas de trajetórias marcantes: Denise Stoklos, referência internacional do Teatro Essencial, e Alessandra Maestrini, atriz, cantora e diretora reconhecida pela potência de sua pesquisa vocal e interpretativa.
Em cena, Lorenzon não apenas representa a violência. Ele a inscreve no próprio corpo, levado ao limite por uma encenação física, muscular e sensorial. Entre golpes, palavras, silêncios e respirações, as fronteiras entre homem, cavalo, vítima e algoz começam a desaparecer.
Denise Stoklos
O espetáculo começou a nascer em 2024, quando Lorenzon estava em cartaz com “Quase Infinito”, trabalho inspirado no escritor argentino Jorge Luis Borges e dedicado às loucuras contemporâneas e à possibilidade de redenção.
Denise Stoklos, que ainda não o conhecia pessoalmente, foi assistir à montagem acompanhada de Alessandra Maestrini. Uma semana depois, voltou ao teatro com a filha e seus assistentes.
“Para mim, aquilo já era uma honra, porque a Denise sempre foi uma inspiração na minha vida. Ela ter me esperado depois da peça foi incrível. Ela voltar uma segunda vez foi incrível”, recorda Lorenzon.
Dez dias depois, Denise lhe enviou um pequeno texto sobre o episódio vivido por Nietzsche em Turim. Não chegou a fazer formalmente um convite, mas ofereceu o impulso que faltava para o nascimento de uma nova criação.
“Eu me senti duplamente presenteado, porque não conhecia essa história. Não foi exatamente um convite, mas um impulsionamento de que eu deveria montar aquele trabalho.”
Lorenzon, então, convidou Denise para dirigir o espetáculo. Alessandra Maestrini juntou-se ao processo, formando um trio que aproximaria universos artísticos distintos e complementares.
Dois olhares
Habituado também a ocupar a cadeira de diretor, Lorenzon precisou se colocar inteiramente à disposição de duas artistas de personalidade e linguagens muito próprias. A entrega, garante, ocorreu sem resistência.

“Foi natural, como quando a gente está apaixonado e nem pensa direito no que está fazendo”, compara.
Com Denise, o ator encontrou o rigor da presença e a exigência de levar o corpo ao limite. Ele descreve essa relação como uma espécie de transferência artística, na qual criou cenas dentro de sua própria linguagem, mas mantendo Denise como interlocutora permanente.
Já Alessandra conduziu o trabalho para uma região de maior delicadeza, explorando a musicalidade da palavra, as gradações emocionais e aquilo que poderia existir entre uma frase e outra.
“A Alessandra foi convocando a palavra e o corpo integrados a um lugar mais sensível, com mais nuances. Ela dizia: ‘Mais silêncio aqui, mais emoção aqui’. As duas foram lapidando o trabalho aos poucos.”
Alessandra também aproximou Lorenzon de novos colaboradores, como o iluminador Wagner Freire e o figurinista Leandro Castro. Para o ator, a chegada da equipe significou a possibilidade de receber outros ângulos e formas de enxergar a criação.
Ao observar as duas diretoras, Lorenzon também se viu aprendendo sobre seu próprio trabalho de direção. O principal ensinamento foi não apressar as descobertas, mesmo diante da pressão de uma data de estreia.
“As duas davam muito tempo para as coisas acontecerem. Provocavam de maneira amorosa, reconhecendo o que já existia de especial, mas ainda convidando a encontrar emoções mais finas. Esse espaço foi muito generoso e produtivo para mim.”
Parceria
Outra presença decisiva na construção do espetáculo foi a psicanalista e ecofeminista Renata Zambonelli, companheira de Lorenzon. Inicialmente, ela participava do processo oferecendo referências e provocações: o filme “O Cavalo de Turim”, de Béla Tarr; “EO”, de Jerzy Skolimowski; e o pensamento da bióloga e filósofa Donna Haraway, que questiona a suposta excepcionalidade humana e propõe outras formas de convivência entre as espécies.
Aos poucos, Renata passou a integrar diretamente a dramaturgia. Foi ela quem estimulou o espetáculo a abandonar apenas os personagens envolvidos no episódio de Nietzsche (cavalo, agressor, filósofo e narrador) para alcançar também o homem da multidão, aquele que observa a violência sem agir e que pode até se sentir fascinado por ela.
“Ela foi conduzindo o espetáculo do micro para o macro”, explica Lorenzon. “Levou o trabalho para esse mundo contaminado pela violência, esse mundo ensopado de sangue.”

Na montagem, o ser humano parece nascer e morrer com as mãos manchadas. Se enfrenta o poder, pode produzir mais violência; se permanece calado, ajuda a alimentá-la. Em vez de oferecer respostas confortáveis, a peça expõe o impasse e convida cada espectador a reconhecer seu lugar dentro dessa engrenagem.
Essa ampliação também fortaleceu o diálogo com a devastação ambiental e a angústia climática. Ainda assim, Lorenzon evita limitar o espetáculo a uma única interpretação.
“Se a pessoa é ligada à questão climática, vai enxergar o clima. Se está discutindo a liberdade em sua vida, poderá enxergar a liberdade. Esse cavalo pode ser, para cada um, o cavalo que quiser.”
O ombro do algoz
A violência apresentada no palco não é uma simulação puramente visual. Durante cerca de três minutos e meio, Lorenzon golpeia as próprias costas com uma corda. Depois, permanece por mais cinco minutos utilizando um chicote. O som ganha proporções ainda mais perturbadoras na proximidade do Teatro Mínimo.
“Para além do que está sendo dito e contado, o público entra em contato com um homem em sacrifício, com um homem lidando com a dor”, define.
A corda é de algodão e foi cuidadosamente preparada para produzir um ruído assustador sem cortar as costas do intérprete. O maior risco físico está em outro lugar: no ombro que executa repetidamente os golpes. Lorenzon realiza fisioterapia tanto para se preparar quanto para preservar o corpo durante a temporada.
É desse cuidado prático que emerge uma das imagens mais contundentes da peça.
“Não são as costas de quem apanha que doem nos bastidores. É o ombro do algoz que apita. É ali que preciso tomar cuidado com os meus excessos”, revela. “Quem bate acredita estar em um lugar de liberdade, mas está aprisionado na própria violência.”
Assim, o corpo cindido, simultaneamente vítima e agressor, transforma-se em uma síntese das contradições investigadas pela montagem. Um braço golpeia enquanto o restante do corpo tenta sobreviver ao golpe. Aquele que agride também acaba deformado e aprisionado por sua ação.
Embora a questão ambiental tenha ganhado força durante o processo, o cavalo de João Paulo Lorenzon também ocupa uma dimensão profundamente íntima.
“O meu cavalo primário é o menino”, afirma. “Acho que todos os meus trabalhos estão ligados a essa infância perdida.”

A imagem o conduz a perguntas que parecem simples, mas que atravessam sua trajetória artística: estaria vivendo com felicidade suficiente? Seu cavalo interior permanece livre e amoroso? Ele ainda é capaz de aproveitar os momentos da vida?
“Esse meu cavalo está ligado à criança livre, feliz, capaz de todas as belezas e que aproveita esse pedaço de chão que temos para ser felizes.”
A infância, portanto, não aparece apenas como lembrança. Torna-se uma medida de liberdade e uma parte da existência que pode ter sido domesticada, ferida ou abandonada pelo caminho.
Sensibilidade x colapso
Ao abraçar o cavalo, Nietzsche realizou um gesto extremo de identificação com o sofrimento do outro. Mas seria possível permanecer verdadeiramente sensível diante da crueldade sem também sucumbir a ela?
Para Lorenzon, essa é uma das perguntas centrais do espetáculo. A montagem inclui o chamado “homem da multidão”, que sente terror diante da violência, mas também se percebe fascinado e permanece imóvel.
“Como lidamos com a violência? Basta a sensibilidade ou é necessária uma contra-violência? Como se freia a violência? Onde ela começa e até onde é capaz de chegar?”
“Do Cavalo Nada Sabemos” não pretende solucionar esse dilema. Seu desejo, segundo o artista, é fazer com que cada pessoa examine tanto a violência que sofre quanto aquela que pratica, tolera ou observa silenciosamente.

Dupla ação
Em julho de 2026, Lorenzon tornou-se o primeiro brasileiro a protagonizar um espetáculo e dirigir outro em uma mesma edição do Festival de Avignon. Além de atuar em “Do Cavalo Nada Sabemos”, dirigiu Julia Setubal em “Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma”, trabalho inspirado no universo de Sarah Kane.
A temporada francesa teve 11 apresentações e recebeu elogios pela intensidade física do ator e pela experiência sensorial construída em cena. O reconhecimento, no entanto, não eliminou a consciência de que o trabalho permanece vivo e sujeito a novas descobertas.
30 anos
Depois de três décadas de teatro, Lorenzon chega ao Sesc Ipiranga mais seguro de sua potência, mas ainda interessado em encontrar camadas desconhecidas de sua vulnerabilidade.
“A vulnerabilidade é um lugar muito lindo de ser alcançado. Ela é uma potência em si, mas também é um exercício que se renova a cada trabalho e a cada apresentação”, reflete. “Venho para o Sesc querendo dividir essa alegria, mas com toda a humildade de quem ainda vai aprender muito e pode descobrir novas vulnerabilidades.”
A estreia em São Paulo também guarda um significado afetivo. Lorenzon define sua relação com o Sesc como uma “paixão absoluta” e destaca a pluralidade de públicos possibilitada pela instituição.
“O Sesc tem esse lugar democrático, acessível, de troca, diálogo e encontro. Depois de Avignon, poder viver essa experiência com o Brasil que o Sesc representa — com suas cores, seus gêneros, suas faixas sociais e suas belezas múltiplas — é um grande privilégio.”
No palco, o corpo de João Paulo Lorenzon golpeia e é golpeado, domina e implora, fere e tenta reparar. Entre o homem que bate, o animal que sofre e o filósofo que desaba, permanece uma pergunta incômoda: quanto de nossa humanidade ainda pode ser salvo pelo gesto de abraçar aquilo que ajudamos a destruir?



