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Hugo Possolo: “Eu não acredito que uma piada é só uma piada”

por Ligia Kas
24/10/2026
Tempo De Leitura: 11 minutos de leitura
Hugo Possolo como Arlequim – Foto: Priscila Prade

A fome é o ponto de partida de uma história escrita há quase três séculos, mas que continua encontrando ecos no Brasil contemporâneo. Para conseguir um prato de comida, Arlequim precisa servir a dois patrões ao mesmo tempo, multiplicando mentiras, improvisando soluções e recorrendo à própria esperteza para sobreviver. É dessa sucessão de confusões que nasce a comédia “Arlequim, Servidor de Dois Patrões”, clássico do dramaturgo italiano Carlo Goldoni que ganha uma releitura brasileira pelas mãos dos Parlapatões. A montagem, dirigida e protagonizada por Hugo Possolo, celebra os 35 anos da companhia e permanece em cartaz no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, até 15 de novembro.

Inspirado na tradição da Commedia dell’Arte, o espetáculo preserva a época e o ambiente da trama original, mas incorpora elementos da palhaçaria, da música, das acrobacias e da cultura popular brasileira. As máscaras tradicionais dão lugar à maquiagem, rendas e bordados cedem espaço ao fuxico e a cores vibrantes, enquanto referências religiosas, objetos populares e elementos das artes visuais ajudam a construir uma atmosfera festiva e circense. Com composições originais de Alexandre Dalóia, a encenação propõe uma espécie de antropofagia teatral, transformando um clássico europeu em uma comédia atravessada pela identidade brasileira.

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Por trás da festa, entretanto, existe uma inquietação. Para Possolo, de 64 anos, a escolha da peça não se explica apenas pela oportunidade de celebrar a trajetória do grupo, mas pela urgência de recolocar a fome no centro das discussões sociais. O diretor acredita que, embora diferentes reivindicações tenham conquistado espaço no debate público, questões fundamentais à sobrevivência acabaram perdendo visibilidade. “Acredito que a luta contra as desigualdades sociais acabou pulverizando diversas pautas. E pautas que são maiores, como a questão da fome, como a questão do saneamento básico”, afirma. Ele ressalta que as discussões sobre identidade e comportamento são fundamentais diante das diferentes formas de opressão, mas considera necessário recuperar a atenção para problemas estruturais que continuam atingindo milhões de brasileiros.

A escolha do humor para abordar uma questão tão grave faz parte da própria concepção artística dos Parlapatões. Possolo acredita que a comicidade permite estabelecer uma comunicação direta com a plateia e perceber imediatamente como o público recebe determinada provocação. “O humor é de checagem imediata. Você verifica o que o público está entendendo ou não entendendo, criou identidade ou não criou, no momento em que ele acontece.”

Para o artista, essa resposta instantânea distingue o teatro de outras formas de comunicação. A presença física entre atores e espectadores transforma a apresentação em um espaço de encontro e discussão, no qual a reflexão não precisa assumir a forma de um discurso solene. “O teatro, por ser artesanal, por ter essa presença política no sentido de polis, de fórum, de lugar de encontro, de debate, acaba colocando isso com maior intensidade e com diálogo, com pergunta e resposta com o público.” É justamente essa possibilidade que o interessa: tratar de um assunto difícil sem oferecer respostas prontas, criando perspectivas de pensamento por meio da poesia e da comicidade. Afinal, diz Possolo, recorrendo a Oswald de Andrade, “a alegria é a prova dos nove”.

Na leitura do diretor, Arlequim representa a inteligência de quem precisa encontrar saídas diante da exploração. A necessidade de atender a dois patrões, originalmente apresentada como uma situação farsesca, aproxima o personagem de trabalhadores contemporâneos obrigados a acumular jornadas e buscar diferentes fontes de renda para garantir a sobrevivência.

“No meu entendimento, sempre que existir um patrão, existirá a exploração do trabalho de alguém que não está trabalhando, está lucrando com o trabalho do outro. Então não é uma questão só brasileira, mas uma questão mundial, uma questão do capitalismo”, argumenta.

Possolo identifica nessa relação uma das razões pelas quais o clássico permanece atual. Para ele, a exploração assume novas formas, mas continua baseada na vulnerabilidade daqueles que dependem do próprio trabalho. Entre os exemplos, cita a expansão da chamada uberização, que, em sua avaliação, frequentemente apresenta como independência uma relação marcada pela precariedade. “A gente vê criticamente cada vez mais o trabalho sendo explorado, até de maneira distante, com a uberização do trabalho, cada vez mais constante, em que ilude a pessoa, em que ela acha que ela é uma empreendedora individual e, na verdade, ela está dentro de um sistema que está engolindo ela.”

Apesar da crítica, o diretor não pretende construir uma narrativa de resignação. O que o fascina em Arlequim é justamente sua capacidade de reagir às dificuldades com criatividade. Essa inteligência popular encontra uma identificação imediata com a experiência brasileira. “A gente aplica, para além da visão do texto clássico do Goldoni, essa visão brasileira de que a gente consegue transformar qualquer situação ruim em uma saída, em uma alternativa.” A esperança, nesse contexto, não significa ignorar as desigualdades, mas reconhecer a capacidade de enfrentá-las. E é nesse ponto que Possolo estabelece uma distinção essencial entre fazer humor sobre a pobreza e construir uma comicidade comprometida com aqueles que vivem nessa condição. “Não existe um limite para as temáticas do humor. O que existe é em que posição você está para fazer esse humor”, afirma. Segundo ele, uma parcela da produção humorística acaba responsabilizando os próprios pobres por sua condição, enquanto a tradição popular com a qual os Parlapatões se identificam procura inverter essa perspectiva. “O humor que a gente faz, o humor popular, o humor que busca um riso transformador, se coloca ao lado de quem é pobre. Se coloca como um aliado dessa pobreza e com os problemas que ela tem a enfrentar. E faz rir exatamente de quem oprime o pobre, que é o rico.”

Grupo Parlapatões – Foto: Priscila Prade

Na montagem, essa oposição aparece na construção dos arquétipos. Enquanto Arlequim representa a renovação, a inventividade e a necessidade de sobreviver, Pantaleão personifica a avareza, a ganância e o apego ao dinheiro. São personagens que atravessaram séculos justamente porque continuam reconhecíveis nas relações sociais.

A atualização desses conflitos também se manifesta na linguagem visual e musical do espetáculo. Para Possolo, a cultura brasileira se constituiu a partir da transformação de referências europeias, africanas e de outras matrizes, processo que encontra na encenação uma expressão deliberadamente antropofágica. “Na nossa encenação, a gente utiliza músicas como o lundu, que representam, por exemplo, o nascimento do samba”, explica, destacando as misturas culturais que ajudaram a formar a música e as manifestações populares brasileiras. Essa combinação se estende às cores, aos figurinos, aos comportamentos e à própria maneira de atuar. O objetivo não é simplesmente transferir a história para outro país, mas imprimir à obra uma sensibilidade brasileira sem perder aquilo que Possolo considera sua essência: a crítica social.

No elenco, Alexandre Bamba, Camila Turim, Henrique Stroeter e Tadeu Pinheiro, integrantes da trajetória dos Parlapatões, dividem a cena com os convidados Rachel Ripani, Jéssica Turbiani e Robert Gomez. Juntos, dão vida a uma comédia que combina a tradição dos tipos populares com a liberdade de improvisação e a expressividade corporal características da companhia. Essa dimensão física representa um desafio particular para Possolo. Aos 64 anos, o ator precisou intensificar os cuidados com o corpo para interpretar um personagem conhecido pela agilidade e pelas peripécias. “Eu fazer o Arlequim aos 64 anos se tornou um desafio bastante grande, mas tenho cuidado bastante da minha saúde, do meu preparo físico, fazendo academia, natação, cuidando da saúde o tempo todo, porque são personagens que exigem muito fisicamente.”

Ele reconhece que um ator mais jovem talvez tivesse maior facilidade para determinadas acrobacias, mas acredita que a experiência oferece outros recursos. O domínio do tempo cômico, a consciência corporal e a economia de gestos permitem alcançar resultados que não dependem exclusivamente do vigor físico.

“Com a minha experiência, o jogo corporal e a consciência do que acontece me favorecem no sentido de dar esse humor, que muitas vezes é traduzido no corpo, com a devida habilidade e economia de gestos para que ele funcione da mesma maneira.”

E não falta disposição para recuperar habilidades de sua formação circense. Possolo conta, orgulhoso, que chega a executar uma estrela durante o espetáculo, movimento que exige preparação e atenção redobrada aos limites do corpo.

A relação com o circo e a palhaçaria, aliás, antecede a fundação dos Parlapatões, em 1991. Desde os tempos do Circo Escola Picadeiro, Possolo alimentava o desejo de integrar um coletivo dedicado à investigação da comicidade. Mais do que construir uma carreira individual, queria desenvolver uma pesquisa artística compartilhada.

“Nunca deixou de ser um projeto de vida, mas que não era um projeto de vida individualizado, individualista, mas um projeto de vida que queria esse sentido mais coletivo, de investigação artística mais aprofundada sobre a comicidade.”

Ao longo dessas décadas, uma de suas principais batalhas foi pelo reconhecimento da comédia como linguagem artística complexa. Possolo lembra que, durante muito tempo, o humor foi tratado como uma expressão menor, frequentemente associado à superficialidade ou ao entretenimento puramente comercial, enquanto o drama e a tragédia recebiam maior prestígio intelectual. “A comicidade é um trabalho de investigação muito difícil, muito detalhista, muito matemático, inclusive”, defende.

Essa convicção ajuda a explicar por que, apesar de atuar também como diretor e dramaturgo, ele mantém uma definição muito clara de sua identidade artística. “Eu digo palhaço, em primeiro lugar.”

Grupo Parlapatões – Foto: Priscila Prade

Para Possolo, assumir essa condição significa valorizar uma tradição popular frequentemente colocada em posição inferior na hierarquia das artes. E é justamente essa linguagem que sustenta a identidade dos Parlapatões, cuja trajetória inclui dezenas de espetáculos, mostras, festivais e experiências de formação.

Mas manter um grupo teatral durante 35 anos no Brasil também exige uma capacidade de sobrevivência que o diretor reconhece no protagonista de Goldoni. “Durante toda a existência do grupo, sempre fomos arlequinescos, né? De maneira a servir diversos patrões, sejam eles contratantes, patrocinadores, mas a gente serve mesmo ao público, é o público que nos interessa, porque é com ele que a gente dialoga.”

A comparação não é apenas uma brincadeira. Possolo recorda as dificuldades enfrentadas para garantir recursos, buscar cachês, conquistar bilheterias e acessar editais. Também critica os ataques aos mecanismos de financiamento cultural e o que considera uma tentativa de criminalização da atividade artística. “O que a gente faz é resistir, é lutar, é se expressar. E no nosso caso a gente se expressa através da comicidade, porque ela é bastante demolidora.”

Ao longo de sua história, os Parlapatões reuniram mais de 200 profissionais, entre artistas, técnicos e produtores. A nova montagem representa a 72ª produção da companhia, que chega ao aniversário reafirmando o compromisso com a pesquisa teatral e o diálogo com o público.

Essa troca ganhou uma dimensão especial com a criação do Espaço Parlapatões, que completa 20 anos de atividades na Praça Franklin Roosevelt, no centro de São Paulo. A convivência com diferentes artistas e grupos transformou não apenas o espaço, mas a própria companhia. “A Praça Roosevelt e todo o movimento teatral que ela representa, o movimento de encontro, o movimento de boemia, o movimento artístico, transformou o grupo.”

Possolo acredita que a abertura para outras experiências impediu que os Parlapatões permanecessem presos às próprias referências. A convivência entre gerações, segundo ele, permite que artistas experientes aprendam com os mais jovens, enquanto estes também encontram possibilidades de desenvolvimento no contato com quem já percorreu outros caminhos. “Não são os artistas mais velhos que ensinam os jovens, mas é uma troca.”

Aos 35 anos, portanto, o grupo não pretende apenas celebrar o passado. O diretor insiste na importância de olhar para o presente e imaginar o futuro, mantendo a disposição para pesquisar, renovar a linguagem e enfrentar os obstáculos que continuam surgindo.

Essa postura também orienta sua visão sobre os limites éticos da comicidade. Para Possolo, o humorista precisa compreender a posição que ocupa diante dos conflitos sociais e reconhecer que uma piada pode produzir consequências que ultrapassam a intenção de quem a conta. “Muitas vezes o humor pode ser reacionário. Então a gente precisa ter visão crítica e também ter a humildade de saber que você pode errar numa piada, que você pode fazer uma colocação errada.”

Hugo Possolo como Arlequim – Foto: Priscila Prade

Ele defende que o comediante tenha disposição para rever suas escolhas e pedir desculpas quando necessário, rejeitando a ideia de que o humor esteja automaticamente protegido de qualquer questionamento. “Eu não acredito que uma piada é só uma piada, porque eu vivo das piadas, e eu vivo elas como personagem, então eu preciso saber muito bem de que lado eu estou numa piada.”

Essa consciência também determina aquilo de que ele se recusa a rir. Possolo não encontra graça na humilhação de pessoas vulneráveis nem no humor que, em sua avaliação, reforça relações de opressão. “A gente não consegue rir do lado de quem faz o escárnio, de quem está buscando a humilhação. Porque, na verdade, esse é um riso de classe, um riso que quer se impor, um riso reacionário.”

Ao explicar sua defesa da alegria como forma de resistência, o artista recorda uma cena do filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, em que Eunice Paiva e seus filhos se recusam a assumir uma expressão de sofrimento para uma fotografia. Para ele, a atitude representa a decisão de não permitir que a violência determine também a maneira como alguém deve viver e se apresentar ao mundo. “Porque também o poder fica tentando tirar da gente a alegria. E eles não vão tirar a alegria.”

É nessa convicção que a história dos Parlapatões encontra a de Arlequim. Entre a necessidade de sobreviver e a capacidade de inventar saídas, o grupo continua fazendo do riso uma linguagem artística, uma forma de pensamento e um espaço de encontro com o público. “Podem nos tirar muitas coisas, mas a alegria, a esperança, a capacidade de viver não irão tirar.”

Sesc Bom Retiro – Alameda Nothmann, 185, Campos Elíseos, São Paulo, SP.

Tags: Alexandre Dalóiaarlequimarlequim servidos de dois patrõesCamila Turimcarlo goldonicomédiaCommedia dell’Artedestaque homeHenrique StroeterHugo PossoloJéssica Turbianilexandre BambaParlapatõesRachel RipanirisoRobert GomezsobrevivênciaTadeu Pinheiro
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