
Uma janela nunca é apenas uma janela quando guarda a lembrança de quem olhou através dela. O mesmo vale para portões, fachadas e muros: elementos banais da paisagem urbana que podem carregar histórias inteiras. É desse território, situado entre o que se vê e aquilo que permanece, que Agrade Camíz extrai a matéria de “Nome Próprio”, exposição que será aberta em 19 de setembro, às 19h, n’A Gentil Carioca, no Rio de Janeiro, e fica em cartaz até 31 de outubro de 2026.
Nas novas pinturas, a artista carioca retoma as geografias de sua formação, sobretudo o Jacaré e outros bairros suburbanos da cidade. Essas paisagens, porém, não surgem como reproduções reconhecíveis ou registros documentais. Camíz prefere trabalhar com os vestígios deixados por elas. Ritmos, formas, cores e sensações que sobreviveram ao tempo e hoje orientam sua maneira de pintar.
As construções que povoaram sua infância e juventude deixam de ser cenário para assumir uma função mais profunda. A arquitetura organiza as composições e ajuda a estabelecer tensões entre acolhimento e vulnerabilidade, intimidade e mundo exterior. Cada tela parece guardar algo e, simultaneamente, permitir que esse conteúdo escape.

O nome escolhido para a mostra também aponta para uma questão central de sua produção: até que ponto uma palavra consegue definir alguém? Se o nome próprio distingue um indivíduo, ele jamais dá conta das contradições, lembranças e experiências que formam uma identidade. As obras seguem lógica semelhante. Há nelas pistas capazes de despertar familiaridade, mas nenhuma interpretação definitiva. O olhar reconhece alguma coisa e, logo depois, percebe que ainda há muito por decifrar.
Com ensaio crítico assinado pelo curador e escritor ganês-americano Larry Ossei-Mensah, “Nome Próprio” apresenta uma inflexão no percurso de Camíz. Elementos recorrentes em seu trabalho aparecem agora mais interiorizados, sem a necessidade de serem ilustrados literalmente. A cidade fornece a ossatura das pinturas; as recordações determinam sua temperatura cromática; e o corpo funciona como referência para compreender dimensões, distâncias e afetos.

A inauguração coincide com o aniversário de 23 anos d’A Gentil Carioca. Para celebrar a data, a galeria prepara uma noite com Quimera (Escola de Mistérios), Baixa Santo Sound System e Glau. O programa inclui ainda a apresentação da 46ª edição da Parede Gentil. Batizada de “O levante das mariposas”, a intervenção de Marcela Cantuária presta homenagem a Sônia e Helenira, mulheres que participaram da luta armada contra a ditadura militar.
A Gentil Carioca RJ – Rua Gonçalves Lédo, 11/17, sobrado, Centro, Rio de Janeiro, RJ.


