
O comércio eletrônico brasileiro de alto padrão movimentou R$ 4,12 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, avanço de 2,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Mais do que uma expansão generalizada do setor, os números revelam uma mudança na composição das compras: os consumidores estão colocando mais produtos no carrinho, embora gastem menos em cada item.
No período, foram registrados 6,22 milhões de pedidos, número 0,3% inferior ao observado nos oito primeiros meses de 2025. Mesmo assim, o ticket médio aumentou 2,4% e chegou a R$ 663,29.
A aparente contradição é explicada pelo tamanho das cestas. O número de produtos vendidos cresceu 6,5%, alcançando 13,58 milhões de unidades. A média passou de 2,05 para 2,19 itens por pedido, alta de 6,8%. Ao mesmo tempo, o preço médio de cada produto recuou 4,1%, para R$ 303,51.
Os dados fazem parte de um levantamento da Confi, produzido por meio da plataforma de inteligência de mercado Neotrust em parceria com o E-Commerce Brasil. O estudo considera transações realizadas entre 1º de janeiro e 31 de agosto deste ano por 92 cadastros de lojas de alto padrão, incluindo operações de moda autoral, joalheria, perfumaria, beleza, casa, revenda de luxo e shoppings.
“O mercado não está simplesmente crescendo ou retraindo. É o consumidor quem está alterando o seu comportamento: ele segue formando cestas maiores, mas a partir de produtos individualmente mais baratos”, afirma Pedro Chiamulera, CEO da Confi.
Segundo o executivo, os dois últimos meses analisados também apresentaram uma retomada no volume de pedidos, sem aumento relevante do ticket médio. O levantamento, no entanto, não informa a taxa exata dessa recuperação.
Beleza x moda
A mudança no consumo fica mais evidente quando os resultados são divididos por categoria. Moda e Acessórios continua sendo o principal segmento do comércio eletrônico de alto padrão e responde por 59,8% do faturamento acompanhado. A categoria, contudo, movimentou R$ 2,47 bilhões até agosto, queda de 1,8% na comparação anual.
A retração ganhou força ao longo do período. Depois de recuar 1,2% no primeiro semestre, o faturamento de moda caiu 3,6% em julho e agosto, na comparação com os mesmos meses de 2025.
Beleza e Perfumaria seguiu o caminho oposto. O segmento faturou R$ 609,7 milhões nos oito primeiros meses do ano, crescimento de 17,3%, e alcançou uma participação de 14,8% no painel. Apenas em julho e agosto, a alta foi de 19,1%. Os resultados indicam um deslocamento do consumo dentro do próprio universo do luxo. Produtos de beleza, geralmente mais acessíveis do que roupas, bolsas ou joias de alto padrão, podem funcionar como uma porta de entrada para esse mercado e ajudar a explicar o aumento do número de itens comprados mesmo em um cenário de menor preço unitário.
“Moda, que ainda concentra a maior parte do faturamento, está perdendo espaço, enquanto Beleza e Perfumaria acelera e ganha participação. Isso mostra que o consumidor de alto padrão não é homogêneo e que as oportunidades de crescimento estão se deslocando entre categorias”, diz Chiamulera.
Relógios e Joias também perderam terreno. A categoria movimentou R$ 487,6 milhões, retração de 4,7%, e registrou ticket médio de R$ 1.121. A queda passou de 4,5% no primeiro semestre para 5,3% em julho e agosto.
Embora ainda tenham participação menor no faturamento, outros departamentos cresceram de maneira expressiva. Utilidades Domésticas avançou 49,1% e chegou a R$ 66,5 milhões, enquanto Saúde apresentou alta de 30,8%. Móveis teve o maior ticket médio entre todas as categorias, de R$ 1.934. Na sequência aparecem Banho, Cama e Mesa, com R$ 1.300, e Relógios e Joias, com R$ 1.121.
Expansão
O levantamento também mostra uma expansão geográfica do consumo premium digital. O Sudeste ainda concentra 59% do faturamento analisado, mas foi a região com o menor crescimento entre janeiro e agosto: apenas 0,1%. Com isso, perdeu 0,9 ponto percentual de participação.
Todas as regiões apresentaram avanço no período. O Norte liderou, com crescimento de 5,6%, seguido pelo Sul, com 4,4%; Nordeste, com 3,9%; e Centro-Oeste, com 3%. Os maiores tickets médios foram registrados no Sul, com R$ 705, e no Centro-Oeste, com R$ 703. Ambos ficaram acima do Sudeste, onde o valor médio por pedido foi de R$ 654.
Para Bruno Pati, CEO do E-Commerce Brasil, os números ajudam a desfazer a associação do consumo de luxo apenas aos centros econômicos tradicionais. “Existe um consumidor de alto padrão fora dos centros tradicionalmente associados ao luxo, e os dados ajudam a dimensionar melhor essa oportunidade”, afirma.
O cenário apresentado pelo estudo é de crescimento moderado, mas com transformações relevantes por trás do faturamento. O consumidor continua disposto a comprar artigos de alto padrão, porém distribui os gastos entre mais produtos, procura itens de menor valor médio e fortalece categorias como beleza e cuidados pessoais. Ao mesmo tempo, mercados regionais ganham importância e abrem novas frentes de expansão para as marcas.
Como o levantamento acompanha um painel específico de 92 cadastros de lojas, os R$ 4,12 bilhões representam as operações monitoradas, e não necessariamente todo o comércio eletrônico de luxo do país. Ainda assim, o recorte oferece sinais importantes sobre a direção desse consumo – o luxo digital cresce, mas seu novo impulso parece vir menos do encarecimento dos produtos e mais da diversificação das compras.


