
Flores, frutas, formas geométricas, cores, referências vistas nas ruas de Barcelona, Seul, Nova York, Xangai ou Paris. Durante anos, esse repertório alimentou um processo essencialmente humano: transformar pesquisa, desenho e técnica em uma estampa capaz de funcionar sobre um tecido e, finalmente, virar roupa. A IA (inteligência artificial) entrou nessa equação e começou a encurtar etapas que antes consumiam horas, ou dias. Mas, para a designer brasileira Débora Chodik, cofundadora do estúdio Monday&Co, de Barcelona, a velocidade traz uma nova pergunta para a moda: se a máquina consegue fazer cada vez mais, o que passa a diferenciar o trabalho de um designer?
“Eu acredito que é a referência, o background de cada designer. Toda a bagagem que um designer tem”, afirma Débora. A resposta ganha peso em um momento em que gerar uma imagem deixou de ser uma habilidade restrita aos profissionais da criação. Uma boa estampa, porém, não termina na imagem. “É uma arte pensada para ser produzida e aplicada em uma superfície, considerando não apenas o aspecto visual, mas também sua funcionalidade”, explica. É preciso pensar em escala, encaixe, repetição, tamanho e nas condições para que aquele desenho efetivamente possa ser reproduzido no tecido.
Essa relação com a estamparia começou antes mesmo da criação do Monday&Co. No Brasil, Débora trabalhou no departamento de estampas da Riachuelo. Há dez anos, mudou-se para Barcelona com o desejo de trabalhar mais perto do universo da Inditex, grupo dono da Zara. Passou por fornecedores da marca com produção em Portugal e na Turquia até conhecer a designer catalã Anna Blanco, que trabalhava como freelancer e já mantinha seu próprio estúdio. O convite veio de Anna: deixar o fornecedor e trabalhar juntas. Há cinco anos, nascia o Monday&Co.
As diferenças entre as duas acabaram se tornando parte da identidade do estúdio. Débora carrega referências mais brasileiras, com cores, flores, frutas e folhagens. Anna, que também viveu em Paris, se aproxima dos abstratos, geométricos e de uma paleta mais contida. “Eu sou mais mundo Brasil, minha referência é essa”, brinca Débora. O encontro dessas duas visões alimenta coleções destinadas principalmente ao mercado internacional e, com frequência, ao segmento infantil.
Algoritmo x rua
Antes da IA, porém, existe pesquisa. E, mesmo trabalhando hoje com ferramentas capazes de produzir centenas de imagens em poucos minutos, Débora e Anna continuam viajando para observar lojas, produtos, materiais e comportamento de consumo.
Em uma dessas viagens, a Xangai, receberam de uma cliente uma missão bastante específica: investigar o mercado de calcinhas menstruais na China. Pesquisaram previamente lojas, produtos e endereços. Ao chegar, descobriram que parte do roteiro sequer existia como imaginavam. Mais importante: perceberam que o produto não estava exposto da mesma maneira que estaria em mercados ocidentais.
“Tem coisas que você só entende quando você vai”, diz Débora. Ao conversar com uma vendedora, descobriram produtos guardados fora da exposição e começaram a compreender as questões culturais e os tabus que cercavam aquele mercado. É justamente esse tipo de informação que transforma uma pesquisa de tendências em algo além de um levantamento de imagens.
Para Débora, tendências tampouco podem ser tratadas como uma fórmula universal. O que funciona no Brasil pode não funcionar na Espanha ou nos Estados Unidos; o comportamento do consumidor infantil é diferente do jovem ou adulto. “Hoje em dia também, o que é uma tendência? É muito complicado identificar. Depende muito de quem são os seus clientes.”
Fermat
A IA entrou no Monday&Co há cerca de três anos, quase por acaso. Um conhecido de Anna apresentou as designers a um grupo de profissionais de tecnologia que começava a desenvolver a Fermat, uma plataforma de IA voltada à indústria da moda.
O encontro colocou frente a frente dois universos que ainda falavam línguas diferentes. “Eles vinham do mundo da tecnologia e não tinham familiaridade com o universo da moda e com os processos de criação dentro de uma empresa”, lembra Débora.
Começaram então reuniões frequentes. Débora e Anna explicavam quem fazia o quê dentro de uma empresa de moda, como funcionava uma estampa, quais eram as necessidades dos designers e onde uma ferramenta digital poderia efetivamente facilitar o trabalho.
No início, a experiência parecia ilimitada. “Era tipo o gênio da lâmpada. Eles falavam: ‘O que vocês acham que tem que melhorar?’. Gente, tudo, tudo”, conta, rindo.
Entre as sugestões estavam recursos extremamente específicos do cotidiano da profissão: reconhecer os Pantones presentes em uma estampa, construir automaticamente a repetição de um desenho ou visualizar o resultado aplicado a uma peça. O estúdio passou a testar a plataforma enquanto colaborava com feedbacks sobre sua aplicação no trabalho real dos designers.
O uso também mudou dentro do próprio Monday&Co. Para apresentar uma estampa a um cliente, por exemplo, era comum buscar fotografias em bancos de imagens e fazer montagens para simular a aplicação em uma camiseta ou vestido. Com a IA, o estúdio passou a criar as próprias modelos e construir apresentações visualmente alinhadas ao universo de cada marca.

Trabalho chato
Na criação da estampa propriamente dita, Débora vê a IA menos como autora e mais como parceira de experimentação. Uma ideia inicial pode rapidamente se transformar em quatro caminhos visuais diferentes para apresentar ao cliente antes que o designer gaste horas desenvolvendo uma direção que talvez seja descartada. “Você depois pode colocar todo o seu tempo de desenvolvimento já em algo que é o que o cliente quer, não tentando adivinhar.”
A tecnologia também já consegue organizar elementos de uma estampa em repetição – o chamado rapport (módulo de repetição de uma estampa) – embora ainda existam imperfeições que exigem intervenção técnica. “Você cria suas flores, seus elementos, joga na IA, ela já te faz o rapport, depois você joga no Photoshop e termina. É muito legal combinar o trabalho de um designer com a IA. É como se fosse um assistente que está ali fazendo o trabalho chato.”
O que mais impressionou Débora, no entanto, não foi a velocidade, mas a possibilidade de chegar a caminhos que talvez não surgissem apenas das referências acumuladas pelo profissional.
“Depois de fazer, sei lá, 50 coleções de flores, como você faz outra nova coleção que seja diferente?”, pergunta. “Ela te leva para lugares que, por mais viagens e referências que você tenha, são coisas que às vezes nem passam pela cabeça.”
Tempo
É impossível, porém, separar essa revolução criativa de outra transformação: tempo.
Dados apresentados por Débora, provenientes de um relatório da Fermat sobre um caso da varejista britânica Asos, apontam reduções expressivas em diferentes etapas do desenvolvimento de moda. A passagem do desenho final para o desenho técnico, por exemplo, cairia de uma hora para 15 minutos. Aplicar visualmente uma estampa a uma roupa, processo que poderia levar duas horas, passaria também para cerca de 15 minutos. A visualização de uma peça em uma modelo cairia de oito horas para aproximadamente meia hora.
Em etapas de produção de conteúdo, a diferença seria ainda maior: segundo os dados apresentados, determinadas imagens para catálogo poderiam passar de um processo de dois dias para cerca de 15 minutos, enquanto um vídeo de campanha poderia ter uma primeira versão produzida em minutos.
Débora faz questão de colocar esses números em perspectiva. “Não estou falando que vai ser a melhor qualidade do mundo, porque ninguém trabalha com IA em 15 minutos. Tudo que você vai fazer bem feito demora.” Ainda assim, a diferença evidencia o tamanho da mudança que começa a chegar aos departamentos criativos.
Autoria
Se a velocidade entusiasma, a autoria abre uma discussão bem mais complexa. “A IA generativa é criada a partir de coisas que já existem na internet”, reconhece Débora. Ela usa um exemplo simples: alguém pede à ferramenta que desenhe uma flor e, mesmo sem intenção de copiar outro artista, uma pétala daquela imagem pode ter origem em uma referência existente. “De repente, foi do seu portfólio. Essa pétala. Então é isso que é perigoso. Você não tem controle.”
Por isso, no Monday&Co, a recomendação é evitar comandos genéricos e alimentar o processo com repertório e referências mais específicas. “Uma estampa tropical… você não está colocando nada muito diferente ali. Então ele vai pegar coisas muito óbvias.”
O estúdio também não costuma entregar ao cliente uma estampa exatamente como foi gerada pela ferramenta. O resultado passa novamente pelas mãos do designer, que modifica, reconstrói e prepara tecnicamente o arquivo. As profissionais ainda recomendam fazer buscas reversas de imagem para identificar eventuais semelhanças com trabalhos existentes.
A autoria, portanto, permanece em uma zona cinzenta. Para Débora, ela pode existir em uma criação assistida por IA, desde que haja direção, repertório e intervenção do profissional. Mas isso exige atenção que o simples apertar de um botão não oferece.

Mesma cara
Talvez a maior ironia dessa transformação esteja no futuro imaginado pela própria designer.
Débora acredita que, em pouco tempo, a IA poderá assumir inclusive tarefas técnicas que hoje ainda chegam ao Monday&Co. Atualmente, há clientes que aparecem com uma imagem gerada artificialmente e pedem ao estúdio justamente o que a máquina ainda não resolveu: transformá-la em um arquivo tecnicamente preparado para a estamparia.
“Hoje as pessoas chegam com estampas prontas para a gente e falam: ‘Olha, eu gerei isso com IA, mas agora quero preparar para mandar para a estamparia’. Então a IA não faz isso ainda.”
Ela acredita que fará. “Acho que, em pouco tempo, a IA já vai fazer totalmente um trabalho de um designer, essa parte técnica”, prevê.
E é justamente aí que Débora imagina uma reação inesperada. Quando qualquer pessoa puder produzir rapidamente imagens sofisticadas e tiver acesso às mesmas ferramentas, a diferença talvez volte a estar justamente naquilo que a tecnologia tentou encurtar: a mão, a imperfeição e a identidade. “Vai ficar tudo com a mesma cara.”
Débora compara o fenômeno, com humor, à padronização provocada por determinados procedimentos estéticos: quando todo mundo começa a perseguir o mesmo ideal, surge o desejo pelo movimento contrário. “Acho que vai voltar um pouco para o manual. Eu espero que aconteça isso. Que as pessoas saibam usar a IA combinando, não deixar tudo com a mesma cara, porque fica muito sem graça.”
Talvez esteja aí o paradoxo da moda na era da IA: quanto mais fácil fica criar, mais difícil será ser diferente.



