
Há artistas que transformam a dor em música. Bia Ferreira escolheu outro caminho: decidiu transformar a alegria em revolução. Durante anos, a cantora e compositora ficou conhecida por canções que denunciaram o racismo, a desigualdade e as violências que atravessam a sociedade brasileira. Mas, aos poucos, percebeu que falar apenas da dor também cobra um preço. O resultado dessa mudança de olhar é “Améfrica”, álbum que chega aos palcos levando uma mensagem tão política quanto seus trabalhos anteriores, mas construída a partir da celebração, do afeto, da espiritualidade e da possibilidade de imaginar futuros mais generosos.
A mudança não significa abandonar o ativismo. Pelo contrário. Para Bia, sua própria existência já é um ato político. “Ser uma mulher negra no Sul Global é ativismo por si só. Eu vivo aquilo que eu luto. Minha arte é baseada na escrevivência, conceito da Conceição Evaristo. Eu escrevo aquilo que eu vivo.”
A decisão de cantar apenas músicas autorais veio aos 20 anos, quando deixou de interpretar repertórios de outros artistas para transformar a própria experiência em matéria-prima. Desde então, a arte passou a caminhar lado a lado com sua história.
Mas “Améfrica” marca uma inflexão importante. Se antes sua obra apontava para as feridas, agora ela prefere iluminar os caminhos possíveis. Mais do que um disco, o projeto nasceu como um processo de reconstrução pessoal.
Nos últimos anos, Bia admite que se sentiu esgotada pela forma como sua arte era frequentemente reduzida apenas ao discurso político. A baixa autoestima, a sensação de não reconhecimento e o peso das expectativas fizeram com que ela se afastasse da própria essência. Foi durante a criação do álbum que encontrou novamente o motivo pelo qual começou a fazer música.
“Esse disco me curou. Eu lembrei que não estou aqui pelo mercado. Estou aqui pelo legado que quero construir.”
Essa mudança aparece em praticamente todas as respostas da artista. Ela quer que o público continue refletindo, mas também dançando. Quer falar de racismo sem abrir mão do amor. Quer defender direitos sem permitir que a violência seja a única narrativa possível. É por isso que ela define a alegria como uma forma de desobediência. “Nosso corpo alegre é um ato de desobediência civil. Gente adoecida não faz revolução.”

O conceito que dá nome ao álbum surgiu depois de um encontro com o pensamento de Lélia Gonzalez. Ao descobrir a ideia de “Améfrica”, formulada pela intelectual brasileira nos anos 1980, Bia percebeu que já vinha buscando intuitivamente aquilo em suas viagens, composições e pesquisas musicais: aproximar as culturas afro-diaspóricas e latino-americanas sem reconhecer fronteiras como barreiras. Mais do que inspiração, ela prefere falar em continuidade.
“Achei que estava tendo uma ideia genial. Quando fui pesquisar, descobri que Lélia Gonzalez já tinha pensado isso décadas antes. Minha vontade foi manter esse pensamento vivo.”
Essa pesquisa aparece tanto na mistura entre reggae, baião, xote e sonoridades afro-caribenhas quanto na escolha de cantar em português, espanhol, inglês e francês. Para Bia, a intenção nunca foi mostrar diversidade por si só, mas lembrar que os povos das Américas compartilham muito mais do que costumam imaginar.
Uma das faixas que sintetizam seu olhar sobre o presente é “Algoritmo”, que questiona o poder das redes sociais sobre desejos, comportamentos e identidades. Embora reconheça que a tecnologia a aproxima da família durante as longas turnês internacionais, ela faz um alerta para a dependência crescente dos algoritmos. “Você sabe mesmo quem você é ou está sendo programado pelo que o algoritmo entrega?”, indaga.
Mesmo vivendo uma fase mais leve, Bia não renega o passado. Ao contrário. Ela faz questão de incluir uma nova versão de “Cota Não É Esmola”, canção que a projetou nacionalmente. Não por nostalgia. Mas para lembrar que alegria e consciência podem caminhar juntas. “Estou muito feliz, muito leve, mas não sou boba. Sei exatamente quem eu sou e qual mensagem quero deixar.”
Quando fala sobre futuro, porém, seu sonho vai além de qualquer sucesso comercial. Bia quer ser lembrada pela qualidade da arte que produz, independentemente do gênero musical que escolha explorar.
No fim da conversa, ela resume o desejo de uma vida inteira em poucas palavras: “Quero que daqui a dez anos alguém ouça um disco meu e diga: ‘Não importa o ritmo que ela canta. Ela faz música boa’.”


