
Na peça “O Retorno”, em cartaz no Sesc Santana, o cenário não é apenas pano de fundo, ele sente, reage e se transforma junto com a história. É a partir dessa lógica que o Estúdio Bijari desenvolveu a cenografia, a videografia e as projeções do espetáculo dirigido por José Roberto Jardim, criando uma visualidade marcada pela desconstrução e pela instabilidade emocional. Estrelada por Helena Ranaldi, Leonardo Medeiros e Pedro Waddington, a peça “O Retorno” fica em cartaz até o dia 1º de março.
Segundo Gustavo Godoy, sócio e diretor de arte do Bijari, o conceito surgiu muito cedo no processo. “O conceito de desconstrução já apareceu logo quando o Zé Jardim nos apresentou o texto, foi um dos primeiros inputs que ele trouxe”, conta. A imagem inicial era quase arquitetônica e emocional ao mesmo tempo: “Talvez um canto de uma casa que se desmaterializa, como o sentimento dos próprios pais que se altera durante a peça pela perda do filho”.
Essa ideia se materializa em um espaço que nunca é fixo. O cenário “reage e se transforma a partir da narrativa e atuação dos atores”, assumindo também um papel ativo na dramaturgia. As projeções de texto, por exemplo, funcionam como um elemento narrativo próprio. “A camada de texto que aparece nas projeções vira quase um pseudo narrador que atua com os atores no palco”, explica Godoy, enquanto a arquitetura vai se desconstruindo à medida que as relações se alteram.
A escolha por poucos elementos físicos (mesa, três cadeiras e biombo) reforça essa abstração do ambiente doméstico. O minimalismo tem referência direta no design escandinavo, em diálogo com a origem do dramaturgo norueguês Fredrik Brattberg. “Pensamos em trazer esse contexto, onde tem muito neve, através dessa cor gelo, tons de cinza off-white, para virar uma grande tela em branco e receber os efeitos da luz e projeção”, diz Godoy. Para ele, o vazio nunca é ausência: “Gosto de pensar o vazio como um espaço cheio de possibilidade”.
Essa ideia se revela nos detalhes. As cadeiras, por exemplo, carregam significado simbólico. “Elas personificam a família, cada uma tem um desenho, e a cadeira do filho é maior, mais alta, para preencher o vazio deixado pela sua ausência e se manter presente durante a peça”, completa.

Para Geandre Tomazoni, sócio e diretor de arte do Bijari, essa lógica de vazios está diretamente ligada à relação com o público. “Uma das intenções que norteiam nossos trabalhos com José Jardim é criar espaços para o público preencher”, afirma. Em vez de uma cenografia fechada, a proposta é abrir camadas de interpretação. “Criar espaços maiores para troca com o público, que vai interpretar e dar novos sentidos a partir do seu próprio repertório.”
O mesmo princípio guia o uso de projeções mapeadas, textos, padrões orgânicos e glitches. Nada ali busca ilustrar a cena de forma literal. “Tudo é uma questão de equilíbrio e harmonia”, diz Godoy. “A luz, som, cenário e atores precisam ser complementares”. Os textos projetados ajudam a conduzir a narrativa sem impor uma leitura única: “Para que o público também possa imaginar e construir a própria história, como uma obra aberta”.
Tomazoni reforça essa ruptura com o naturalismo. “Pensar o texto menos como uma legenda burocrática e mais na direção espacial, seu impacto psicológico, num exercício mais plástico e emocional”. No processo com Jardim, essas camadas nunca são apenas ambientação. “O Zé costuma nos pedir para pensar nessas camadas como personagens”, explica.
Acostumado a transitar entre artes visuais, arquitetura e tecnologia, o Bijari vê o teatro como um território de expansão. “Gostamos de pensar o cenário como uma instalação imersiva, como uma grande experiência estética audiovisual”, diz Godoy. O diferencial está na relação com o tempo, o espaço e o coletivo. “Nunca sabemos, de fato, onde vamos chegar. O resultado é sempre inesperado”, completa.
Depois de dois Prêmios Shell de melhor cenário, “O Retorno” surge como continuidade e aprofundamento dessa pesquisa. “Penso como aprofundamentos”, resume Tomazoni. Já Godoy destaca a parceria de longa data com Jardim: “Vejo mais como uma continuidade de processo e pesquisa de linguagem. Estamos construindo um jeito de pensar e fazer teatro”.
Mais do que prêmios, o que move o estúdio é o processo. “O que mais importa é a relação que criamos com as pessoas, como algo que fazemos com paixão”, diz Godoy, em tom direto e celebratório: “Para fazer teatro no Brasil precisa ser muito ousado e criativo. Viva o teatro!”.



