
Há casas que protegem seus moradores do mundo. Outras parecem concebidas para acolhê-lo. Suspensa entre pilares, cercada pela vegetação do Morumbi e atravessada pela transparência de suas grandes janelas, a Casa de Vidro pertence à segunda categoria. Primeira obra construída de Lina Bo Bardi, a residência completa 75 anos em 2026 ainda capaz de provocar uma pergunta essencial: de que maneira a arquitetura pode influenciar a vida, os encontros e até a felicidade?
Essa história ganha novos contornos na exposição “Casa de Vidro 75 anos – Janelas de Afeto e Memória”, que abre ao público neste sábado, 26 de setembro, das 11h às 16h, com entrada gratuita. A mostra apresenta de maneira inédita a residência onde Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi viveram, trabalharam, receberam amigos e desenvolveram parte fundamental de seu pensamento sobre arte, arquitetura, design e cultura brasileira.
Mais do que celebrar um marco da arquitetura moderna, a exposição recupera as relações construídas naquele espaço ao longo de décadas. A Casa de Vidro surge não apenas como monumento ou documento histórico, mas como um organismo vivo: um lugar transformado pelas pessoas, pelas ideias, pelos objetos e pelas conversas que passaram por seus ambientes.
Com curadoria do arquiteto, designer, jornalista e educador Bruno Simões, conselheiro e curador do Instituto Bardi, a narrativa foi organizada em cinco eixos: a ideia, o projeto, o design, a intimidade e o futuro. Juntos, eles ampliam o olhar sobre a casa, concluída em 1951, e revelam como sua trajetória acompanhou as mudanças vividas pelo casal Bardi e o aprofundamento de sua relação com o Brasil.
A exposição reúne desenhos técnicos de arquitetura, croquis de mobiliário, trechos de correspondências trocadas pelo casal e fotografias que registram diferentes momentos da residência. Entre os destaques estão um modelo inédito do esqueleto estrutural da construção, um protótipo da célebre estante de vidro retirada da biblioteca e pesquisas de acervo apresentadas ao público pela primeira vez.

O percurso também inclui instalações de fotógrafos reconhecidos e uma videoarte inédita. O conjunto permite observar tanto a precisão construtiva de Lina quanto a dimensão mais íntima e cotidiana da Casa de Vidro, espaço em que vida doméstica, criação intelectual e experimentação nunca estiveram completamente separados.
Para Bruno Simões, o grande desafio de uma retrospectiva com essa abrangência foi construir uma narrativa capaz de combinar os aspectos técnicos e criativos da obra sem apagar sua atmosfera humana, mutável e lúdica. “Nesta exposição, o público vai encontrar uma mistura entre desenhos técnicos de arquitetura, um modelo inédito do esqueleto estrutural da casa, croquis do mobiliário projetado para o espaço, um protótipo da famosa estante de vidro removida da biblioteca, trechos de correspondência entre o casal e fotografias icônicas que revelam o quanto a Casa se mantém contemporânea e segue como importante referência para a arquitetura e a arte brasileiras”, afirma o curador.
O afeto sugerido no título aparece de maneira especialmente potente no olhar de dez fotógrafos convidados: Bob Wolfenson, Demian Jacob, Eduardo Ortega, Filippo Bamberghi, Fran Parente, Leonardo Finotti, Maíra Acayaba, Nelson Kon, Ruy Teixeira e Vincent Catala. Suas imagens estabelecem novas relações com a construção, a paisagem e as memórias acumuladas ao longo de 75 anos.
A expografia, assinada pelo arquiteto e curador Giancarlo Latorraca, foi concebida para conversar diretamente com o projeto de Lina. A ambientação fluida acompanha a arquitetura e a paisagem enquadrada pelas superfícies transparentes que deram nome à mostra. Latorraca traz para o trabalho uma relação próxima com esse legado: colaborou com Lina Bo Bardi e integrou o Instituto entre 1993 e 2001, participando da montagem de exposições sobre a arquiteta em cidades do Brasil, da Europa e da Ásia.
Projetada inicialmente para ser a residência do casal Bardi, a Casa de Vidro logo se tornou um ponto de encontro de artistas, arquitetos, intelectuais e personagens decisivos da cultura do século 20. Essa vocação para o diálogo permanece no centro da mostra. Ao revelar documentos, objetos e imagens, a exposição permite compreender não apenas como a casa foi construída, mas como foi habitada, e como a vida que existiu dentro dela ajudou a expandir o significado de sua arquitetura.
Os cinco núcleos conduzem o visitante do gesto inicial ao debate sobre a permanência desse patrimônio. Se “a ideia” e “o projeto” recuperam a concepção da residência e suas soluções estruturais, “o design” evidencia a integração entre arquitetura e mobiliário. “A intimidade” aproxima o público da vida cotidiana dos Bardi, enquanto “o futuro” reflete sobre a preservação e a capacidade de manter esse legado aberto a novas interpretações.
A celebração dos 75 anos também lança o olhar para aquilo que a Casa de Vidro ainda pode representar. Sede do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, o imóvel permanece dedicado à pesquisa, à reflexão e à difusão da arquitetura, do urbanismo, do design e da arte no Brasil. Em vez de congelá-la no tempo, a exposição reafirma a casa como espaço de produção de conhecimento e de construção de futuros.

A atualidade do projeto talvez esteja justamente na união entre rigor e liberdade, estrutura e natureza, vida pública e intimidade. Lina não pensava a arquitetura como cenário, mas como espaço humano, capaz de interferir diretamente na experiência de quem o ocupa. “A influência da arquitetura poderá ser, no futuro, ainda mais essencial do que no passado e, naturalmente, diversa. Arquitetura como espaço habitado, humano, é uma realidade perene responsável pelo comportamento do homem, responsável até pela sua felicidade. E, neste sentido, o Movimento Moderno continua”, escreveu a arquiteta.
Setenta e cinco anos depois, a Casa de Vidro continua. Não somente como uma das obras mais emblemáticas da arquitetura brasileira e mundial, mas como lugar de encontro, descoberta, memória e imaginação. Suas janelas atravessam o tempo sem deixar de se abrir para o que ainda está por vir.
Casa de Vidro – Rua General Almerio de Moura, 200, Moumbi, São Paulo, SP. Ingressos: casadevidro.byinti.com, com agendamento prévio.



