
Heloisa Faria, que detém uma marca homônima, é nome conhecido no mundo da moda. Suas peças, que expressam sua alma, são como uma roupa que cobre e esbanja conforto e qualidade. Ela preza por isso. Preza que seus clientes experimentem algo que ela própria valoriza: o bem-estar. Tranquila e inteligentíssima, Heloisa, mesmo tendo uma queda e amor pela moda, acabou indo cursar administração na Unicamp, em Campinas, onde vivia. Mas a empreitada não durou muito, ela se inscreveu no curso de moda da Santa Marcelina, e lá tudo mudou para ela.
Dedicada a oferecer uma roupa que tenha padrões de sustentabilidade e economia criativa, Heloisa trabalha com artesão e costureiras que recebem um preço justo pelo trabalho, muitas vezes corrigido por ela mesma. Como conta, nas comunidades em que busca sua mão de obra, às vezes, o que eles cobram é muito abaixo do mercado, então a diretora criativa faz questão de corrigir o valor para cima, a fim de construir uma relação mais justa e duradoura com seus prestadores de serviço, o que tem dado certo.
Nas suas criações, o upcycling é constante. Ela recria peças, usa tecidos datados, tecidos comprados de coleções já extintas e vai construindo a marca Heloisa Faria com o cuidado que seus clientes merecem e esperam, além de ajudar o planeta. “Tem muito upcycling, de todas as maneiras desde eu transformar uma peça antiga até trabalhar com uma estampa que eu fiz há dez anos. Então pode ser de mil maneiras. Os aviamentos eu trabalho muito com upcycling, trabalho com aviamentos fora de uso. Esta última coleção, a maioria das tecelagens trabalhou comigo com tecidos que já não estavam mais em uso, na venda”, explica.

Sobre sua nova linha, a ser apresentada em outubro no São Paulo Fashion Week, Heloisa faz segredo, mas adianta: “A coleção vai falar muito sobre o que que está entre o céu e a terra e quais são as possibilidades de futuro que a gente pode construir, do jeito que a vida está, do jeito que o planeta está nesse momento de catástrofe climática uma atrás da outra. Como que a gente pode olhar para nossas ancestralidades do Brasil, de cada um individualmente e entender onde a gente pode entrar nessa roda, e construir novas possibilidades, esse é o caminho”. Então agora é esperar a apresentação e correr para adquirir uma peça assinada por Heloisa Faria.
Leia a seguir o papo que CHNews teve com a diretora criativa da Heloisa Faria.
O que que você estudou? Como que você se envolve com moda? Queria que você me contasse até chegar à marca como tudo aconteceu.
Eu sempre fui bastante ligada em moda, assim em iniciativa pessoal, de gostar de frequentar brechó, desde o começo da adolescência eu morava em Campinas, morava perto da Unicamp. Ali não é um lugar que tinha muitos brechós e coisas assim, mas o que tinha eu ia lá fazer umas trocas. Era o começo. Mas aí acabei seguindo outro caminho de trabalho, quando eu saí da escola fui fazer um curso de administração em alemão, fiquei nesse curso dois anos aí depois entrei na PUC fazendo administração, ainda fiz um ano de PUC, mas no final do primeiro ano pensei o que eu estava fazendo. Trabalhar com rouparia era um desejo antigo, aí resolvi prestar a Santa Marcelina. Durante um ano cursei as duas faculdades juntas, depois abandonei a PUC. Cursar a Santa Marcelina foi bom demais, a faculdade abriu muitas portas, no final do curso de moda montei um ateliê com mais três amigos, a gente criou uma marca que se chamava Petit, de upcycling, isso em 2005, 2006, na época chamavam de customização ainda. Éramos quatro estudantes e um ateliê. Uma das participantes tinha um acervo da avó, e nós transformávamos as peças. Fizemos uns dez desfiles na Casa de Criadores mais ou menos, o primeiro foi em 2005, eu já tinha trabalhado brevemente com a Carla Giroto na faculdade, então já tinha passado pela Casa de Criadores e o André Hidalgo [fundador da Casa de Criadores] me conhecia. Ficamos esse tempo junto e tal, de repente chegou uma hora que cada um começou a seguir seu caminho, a gente não achou uma via comercial também, então nos separamos e eu montei uma marca homônima.
Logo no começo eu engravidei também, eu sou mãe de gêmeas, hoje elas têm 14 anos, então foi bem lá no comecinho, foi um início mais lento porque eu estava bem ocupada com outra coisa. Aí comecei a pegar ritmo de novo e continuei atendendo os clientes, e, de novo, o André [Hidalgo] veio falar comigo, e eu fui para a Casa de Criadores, fiquei lá um tempão, até a pandemia, quando apresentei fashion filme. Depois disso fui para o São Paulo Fashion Week, e estou no line up faz dois anos. O SPFW abre muitas portas, no sentido de você conseguir financiar seu desfile, você conseguir um apoio substancial de tecidos para conseguir produzir também.
E você já está no SPFW há três anos, então?
Eu já nem sei mais, não, terceiro, não, quarto, vai ser o quarto porque a minha primeira participação foi um fashion filme, chamava Máquina dos Sonhos, depois veio o desfile Tessituras, e em 2024, o Revela Kimera. Eu trabalho com uma apresentação de uma coleção por ano e o resto do ano a gente vai soltando drops.

O forte da sua coleção ainda é o upcycling?
Tem muito upcycling, de todas as maneiras desde eu transformar uma peça antiga até trabalhar com uma estampa que eu fiz há dez anos. Então pode ser de mil maneiras. Os aviamentos eu trabalho muito com upcycling, trabalho com aviamentos fora de uso. Esta última coleção agora, a maioria das tecelagens trabalhou comigo com tecidos que já não estavam mais em uso, na venda. Trabalhei com a Innovative, que tinha uns tecidos que eram antigamente só para decoração e estavam lá no final do estoque, fui lá em Santa Bárbara do Oeste para escolher os tecidos. A Cataguases também, foi assim que a gente fez. A Werner foi bem legal, não pude ir a Petrópolis para escolher os tecidos, mas fizemos tudo de forma virtual. Foram surpresas muito lindas, as peças são tecidos muito bonitos.
Tem algum momento da sua carreira que você considera um marco, que teve uma mudança, assim de A pra B?
Ah, eu acho que foi a entrada no São Paulo Fashion Week. O primeiro foi um fashion filme, eu gosto de fazer filmes, já faço filme faz tempo com meu companheiro [Rubens Crispim Jr.], a gente tem esse trabalho também em paralelo, de fazer filmes de arte para museu, galeria, essas coisas.
Como funciona seu processo criativo? Quais são as suas principais fontes de inspiração?
Olha, as principais fontes de inspiração vêm sempre das artes e da vivência pessoal, a natureza é uma fonte constante. Meu processo criativo vai de um mood que vai se construindo das coisas que eu vou observando e assimilando e vendo o que está acontecendo, desde filmes ou livros que eu li, ou exposições que vou, então é muito é bem espalhado o processo criativo. Trabalho muito também com a história da moda, eu gosto do ofício da construção da peça. Isso é muito parte do meu processo. A ideia é que é tudo um contínuo, porque a marca tem um DNA próprio, então por mais que você tenha uma coleção em um ano, as coisas se conversam e continuam, que nem no guarda-roupa da pessoa, você não se desfazer de tudo no seu armário porque acabou a coleção. Tem referências que às vezes voltam, tem referências que eu pego para trabalhar numa coleção e que acabou não sendo tão trabalhada da maneira que eu imaginava e eu retomo com ela, e assim às vezes acaba acontecendo também um upcycling de uma coisa do passado. O processo criativo é isso, é um mood que vai vindo, um desejo, um panorama do que eu vou vendo, do que acho que vai ser, o que vou trabalhar, não segue um caminho muito linear.
Você usa muito as técnicas artesanais. Queria que falasse um pouquinho sobre esse trabalho com os artesãos e como é integrar esses elementos a suas criações.
Sempre trabalhei com algumas pessoas me trazendo conhecimento, uma técnica que eu não dominasse, para desenvolver uma ideia e tal. Na última coleção eu trabalhei com a Revelando SP, que é um evento, um festival que tem em São Paulo, da Secretaria de Cultura, que fala de tudo que tem em São Paulo em relação a movimentos culturais, gastronomia, música. Foi muito interessante porque você acaba encontrando pessoas que estão em outro lugar. Eu queria mostrar um pouco de tudo que dá para fazer com coisas que estão na terra, estava muito apegada a isso, sabe? Então, bom, os bordados, por exemplo, é um bordado bem naif. Um bordado que não é um bordado, que busca uma perfeição ou busca uma ideia eurocêntrica de perfeição, de belo. É um bordado de uma pessoa que mora numa cidade minúscula que me contou que é uma analfabeta virtual, então ela não consegue divulgar o trabalho porque não consegue se entender bem com a história da internet. Trabalhei também com uma artesã que atua com palha de milho, que é super legal, é um grupo de mulheres artesãs de Guapiara (SP) que trabalha com milho, elas mesmas plantam. Todo mundo planta ali junto e aí o subproduto do que elas vendem do milho vira palha de milho, onde elas desenvolvem vários artesanatos, fazem chapéu, bolsa, a gente trabalhou com flores e com passarinhos de palha de milho também, tinha ainda algumas bolsas. A ideia era trazer novas possibilidades para elas, que olhassem o trabalho e pensassem em outras maneiras de comercializar. Por exemplo, elas cobravam um preço muito baixo para os bordados, eu disse: “Vamos melhorar um pouco o preço aí, porque eu sei que depois eu vou repassar na passarela”.

Você acredita que a moda pode impactar positivamente questões sociais e ambientais?
Muito, muito. Acho até que nessas escolhas do dia a dia, por exemplo, eu tenho uma rede de costureiras que trabalha comigo e com quem tenho um acordo de preço para que elas ganhem o suficiente pelo seu trabalho. Não fico negociando para baixar o preço, porque acho que consigo negociar no produto final, por um preço ok, no produto que vale a pena para mim e para ela. Eu só trabalho com matéria-prima brasileira, não compro matéria-prima importada nenhuma. É sempre uma utopia ser totalmente sustentável, é impossível, mas você tem que ir tentando em várias frentes, porque acho que isso impacta no final, sabe?
Como que você equilibra o design e a responsabilidade ambiental?
Acho que primeiro, para mim, vem o design, tem que ser um design interessante, moderno, que vista bem, que tenha uma uma pesquisa de modelagem, uma coisa que traga uma personalidade para pessoa, enfim, que conte uma história para quem veste. Quando vou trabalhar com um tecido que não seja necessariamente um tecido totalmente natural, é porque foi um tecido garimpado numa loja com estoque antigo, com estoque morto. Sempre manter essa roda da sustentabilidade, por assim dizer, girando, eu sempre procuro essas soluções que fazem mais sentido, trabalhar com um tecido que já está parado, trabalhar com as costureiras que eu conheço, em vez de mandar para uma oficina onde elas vão ganhar R$ 10 por peça, eu vou pagar R$ 40.
O que você pode contar sobre sua próxima coleção?
Vou apresentar de novo em outubro, que é quando eu participo do SPFW, uma vez por ano. E essa coleção vai falar muito sobre o que que está entre o céu e a terra e quais são as possibilidades de futuro que a gente pode construir, do jeito que a vida está, do jeito que o planeta está nesse momento de catástrofe climática uma atrás da outra. Como que a gente pode olhar para nossas ancestralidades do Brasil, de cada um individualmente e entender onde a gente pode entrar nessa roda, e construir novas possibilidades, esse é o caminho.
Atualmente, você recebe os clientes em seu ateliê?
Assim, foi uma decisão muito boa e eu espero que no futuro eu continue intensificando esse contato direto com os clientes no ateliê, e focando mais no e-commerce, é bem esse o caminho que eu quero seguir.
Então não tem mais intenção de ter loja física?
Agora não, nossa, eu renasci depois que fechei a loja. Eu estava havia muitos anos com loja física [na Mateus Grou, em Pinheiros] e estava muito cansativo, muito difícil, então na hora que terminou, terminou, e foi a melhor decisão que tomei. Estou com outro pique, outro gás, outra vontade de criar, de fazer as coisas. É difícil ter loja quando você é uma marca muito pequena, porque aí você tem duas operações, tem a operação comercial enorme física e a operação da produção da marca, que também é enorme, chegou uma hora que eu estava muito estafada, não valia mais a pena.
Na sua opinião, qual que é o papel da moda na sociedade atualmente?
Acho que é a questão do espírito de um tempo, é muito claro, a gente consegue entender muito no que está acontecendo ali na vestimenta e nas tendências, hoje em dia, tão rápidas, uma atrás da outra, você consegue ver um reflexo do que está acontecendo. Acho que além disso e acima disso é um cartão de visita muito imediato e imagético, num mundo totalmente imagético que a gente tem hoje. Acho muito legal a gente ter essa facilidade de comunicação tão rápida, e todo mundo poder ter acesso a tanta informação, especialmente em relação à moda, tanto de street style, quanto desfile, e tudo isso está disponível para quem quiser acompanhar. E cada vez mais eu acho que você consegue construir quem é a sua persona nesse mundo, onde a gente tem tanta informação. Acho que esse papel da moda, de te ajudar a construir e entender quem você é, e construir essa pessoa energeticamente, para você já passar uma comunicação para o seu interlocutor, é um papel muito importante da moda e muito de empoderamento também. A gente sabe na história da moda quanto a vestimenta vem, vinha e segue vindo sendo tão importante para as pessoas poderem se colocar, poderem ser respeitadas, a gente vê muito, por exemplo, na questão do racismo, eu já li muito muitos depoimentos falando de pessoas pretas que têm uma preocupação muito especial de sair de casa, de se arrumar e tal, para serem respeitadas na rua e não sofrerem racismo que acontece tanto. Tudo isso faz você pensar.
Existe algum sonho, alguma meta que você ainda deseja alcançar na sua carreira?
Nossa, um monte. Gostaria de no futuro ter uma loja num esquema que não fosse uma operação totalmente minha, mas com um sócio, uma sócia, esse é um desejo também do futuro para ter um pouco mais de tranquilidade na gestão do negócio além do investimento nas coisas, isso é uma coisa que eu estou prospectando, vamos ver como é que vai acontecer, e também tenho vontade de passar um tempo fora do Brasil, fazendo uns cursos de algumas coisas bem do ofício mesmo. Tenho vontade de ficar em Paris estudando bordado, seis meses. Também tenho desejo de vender muito mais do que eu vendo, uma série de coisas. As vontades que eu tenho são de ter mais tempo para me dedicar ao ofício em si, por isso que eu estou tão feliz de ter fechado a loja, porque era impensável naquele momento.

Agora, com o ateliê, acredita que a relação com os clientes ficou mais próxima?
Sim, porque com a loja eu tinha uma vendedora que atendia, muitas vezes era eu mesma, lógico, que a gente está sempre lá e atende também, mas muitas vezes era a vendedora. Quem vai no ateliê vai porque quer ver com calma, quer conversar, quer trocar, então, assim, é uma coisa muito rica, é uma troca muito preciosa, entender como a pessoa enxerga aquela roupa, o que a pessoa deseja com o que está vestindo, qual que é a história que a pessoa quer contar, é um atendimento mais lento, mais tranquilo, mas muito mais enriquecedor.
Heloisa, me fala uma coisa, como você descreveria o seu estilo pessoal? Ele reflete nas suas criações?
Ah, com certeza. Eu gosto do humor na moda, então sempre vai ser uma coisa colorida, gosto de mistura, de estampa, tanto para mim quanto na marca e eu sempre foco conforto, uma modelagem que vista bem. Dificilmente você vai ver alguma coisa muito dura, muito apertada e muito difícil de usar. Eu chamo de funny fashion, porque tem muitas referências e também acho que a moda está um pouco nesse papel de trazer em alguns momentos uma leveza, uma coisa que é segura, que você sabe onde está segura. Você pode tomar mil riscos mas segura no sentido que você está indo atrás da sua própria expressão, é sua expressão, ninguém tem que te falar o que você gosta, é você que gosta, você que almeja tornar suas coleções internacionais ou seja, do exterior, sim eu tenho alguns clientes pontuais no exterior, que eu atendo diretamente e entrego via DHL. Já vendi em Portugal, nos Estados Unidos, no Japão e sempre foi muito bem-sucedida.

Que conselhos você daria para jovens que estão querendo seguir a sua carreira?
Meus conselhos são o seguinte: um que eu sempre dou, procure referência no analógico também, vá a bibliotecas, veja livros, leia livros de papel, folheie, põe a mão no livro. Então vá a bibliotecas porque ali não está preso no algoritmo, é o seu olhar que vai te levar. Outra coisa é: trabalhe para os outros o tanto que você puder antes de se lançar, se quiser também se lançar fique à vontade, mas faça uma coisa devagarzinho sob demanda e tente trabalhar com outras pessoas porque a gente perde muito tempo inventando a roda.



