
Por Flávia Barbosa
Elas se conheceram ainda muito jovens, dividindo corredores de escola, referências culturais e, sem saber, o embrião de um imaginário criativo que atravessaria décadas. Vindas do subúrbio, cresceram cercadas por uma educação lúdica, construtivista e profundamente conectada à arte, às histórias e à cultura popular brasileira.
Anos depois, essa conexão virou parceria profissional, e mais do que isso: uma simbiose criativa. Unidas pela moda, pelo Carnaval, pelo afeto e pela vontade de contar histórias através de objetos, Paloma Borges e Thaissa Becho criaram a Poch, uma marca que transforma memória, humor e identidade em pochetes cheias de personalidade.
Nesta conversa, elas falam sobre amizade, processos manuais, televisão brasileira, Carnaval, sustentabilidade, mercado da moda e a escolha consciente de não abrir mão do lúdico, nem da própria essência.
Leia na íntegra:
Vocês se conhecem há muitos anos, estudaram juntas na escola e na faculdade. Como se dá essa simbiose entre vocês?
A gente se conhece desde muito nova, mas curiosamente não foi na escola que nos tornamos inseparáveis. Estudávamos na mesma instituição, mas em turnos diferentes, então essa proximidade veio mesmo mais tarde, quando entramos juntas na faculdade de moda. A partir dali, nunca mais nos desgrudamos. Olhando pra trás, dá pra entender melhor essa simbiose. A escola onde estudamos tinha uma proposta muito lúdica, construtivista, que incentivava a imaginação, a criação e a contação de histórias. Acho que foi ali que nasceu esse lugar dentro de nós que gosta do imaginário, da arte e das narrativas. Além disso, somos do subúrbio, e sair desse lugar para desbravar outros espaços foi algo que vivemos juntas. Ter uma à outra como rede de apoio deu muita força pra encarar a faculdade, o mercado e o desejo de contar histórias que vinham de dentro de nós. Existe muito afeto nessa troca.

Vocês fazem muitas coisas juntas, mas são bem diferentes. Como conciliam as inspirações?
A gente é muito parecida em algumas coisas, mas muito diferente na forma de fazer – e isso vem muito da nossa criação. Crescemos no subúrbio, muito atravessadas pela televisão brasileira, pelas novelas, pelos programas de auditório, pela Hebe, pelo Fantasia, por esse imaginário popular que fazia parte do cotidiano. A TV estava ligada o tempo todo, era referência estética, emocional e cultural. Isso criou em nós um repertório muito forte, cheio de exagero, drama, humor e afeto. As novelas, por exemplo, sempre foram uma grande inspiração: personagens marcantes, figurinos simbólicos, histórias intensas. A Hebe também representa muito esse lugar do acolhimento, do brilho, do exagero carinhoso, do “falar com todo mundo”. Mesmo com essas referências em comum, a gente expressa isso de formas diferentes. Uma é mais ligada à comunicação, à imagem, ao conceito, a pensar como essa história vai chegar no mundo. A outra é mais da manualidade, do fazer com as mãos, da construção silenciosa do objeto. Essas diferenças se encontram justamente nesse imaginário compartilhado. A gente parte das mesmas memórias — do subúrbio, da TV aberta, da cultura popular — mas cada uma traduz isso do seu jeito. No fim, as inspirações se conciliam naturalmente, porque vêm do mesmo afeto, só ganham formas diferentes.
Vocês amam Carnaval e a marca nasceu a partir desse gatilho. Como ela se sustenta no resto do ano, já que está aí há mais de 10 anos?
O Carnaval é um ponto de partida muito importante, mas nunca foi um limite. A nossa provocação sempre foi não se levar tão a sério. A moda, pra gente, é uma ferramenta de escape, de expressão da identidade. O produto nasce pensando na fantasia, no personagem, mas depois ele ganha vida no dia a dia. Talvez não seja todo mundo que vai topar sair com um ovo frito na cintura numa terça-feira comum, mas quem tem bom humor vai. E é esse público que a gente alcança. A marca se sustenta porque o lúdico não é exclusivo do Carnaval. Ele existe o ano inteiro, nas memórias, no afeto, na vontade de rir, de se permitir. E é isso que mantém a marca viva há tanto tempo.

Vocês poderiam falar um pouco sobre o material que usam, o processo e como a poluição da indústria da moda impacta essas escolhas?
Nosso processo é pequeno, artesanal e muito cuidadoso. Trabalhamos com um material específico, o vinil, que nos dá a durabilidade que precisamos, especialmente pensando em Carnaval, bloco, rua, atrito. A gente reaproveita tudo o que pode. Recortes pequenos viram novos detalhes, e o descarte é mínimo. Não trabalhamos em grande escala, não geramos toneladas de resíduos. Somos duas pessoas costurando, produzindo, controlando cada etapa. Claro que ainda não encontramos um material que seja ao mesmo tempo mais sustentável e que ofereça a resistência necessária. Então fazemos escolhas possíveis. A durabilidade, para nós, também é uma forma de sustentabilidade: receber mensagens de pessoas dizendo que usam uma peça nossa há 10 anos diz muito sobre isso.
Como funciona o marketing de vocês?
Nossa comunicação sempre tentou criar um mundo. Um universo fantástico, colorido, exagerado, alegre. A referência vem muito da infância, daquela sensação de entrar numa loja de balas, onde tudo é estímulo, cor, cheiro, desejo. A gente não tem loja física, então o marketing acontece muito pelas redes sociais. Criamos narrativas, personagens, imagens que convidam as pessoas a brincar. É uma comunicação doce, escandalosa, carnavalesca, que fala alto e convida à diversão. Mais do que vender produto, a gente quer criar desejo a partir do afeto.

De forma geral, como vocês definem a precificação dos produtos e como isso se conecta com o público-alvo, sabendo que nem todo consumidor faz parte dele?
A precificação foi um aprendizado ao longo do tempo. A gente foi entendendo o valor do nosso processo artístico. Não é uma produção industrial: são dezenas de recortes, costura manual, criação autoral. Ainda assim, praticamos preços baixos em relação ao mercado, porque nosso modelo é direto. Não temos loja física, o atendimento é feito por nós mesmas, pelo Instagram, quase como um atendimento personalizado. Sabemos que não é um produto para todo mundo, e tudo bem. Nosso público é quem se conecta com a proposta, com o humor, com o afeto. Se colocássemos todo o valor criativo na conta, o produto custaria muito mais. É uma escolha consciente dentro do modelo que conseguimos sustentar.
2026 é um ano de eleição, Copa do Mundo, Oscar, BBB e Carnaval chegando. Isso vai influenciar a nova coleção?
Com certeza o contexto sempre influencia, mas de forma cuidadosa. A gente respeita muito os símbolos com os quais trabalha. Algumas referências são brincadeiras, mas brincadeiras sérias. Quando escolhemos trazer algum tema, é sempre com carinho, homenagem e afeto, nunca de forma rasa. O momento do país, da cultura, do que está no imaginário coletivo, tudo isso atravessa o processo criativo. Então sim, 2026 traz muitos estímulos, muitos símbolos fortes, e isso inevitavelmente dialoga com a coleção. Mas sempre do nosso jeito: lúdico, afetivo e cheio de história pra contar.
Onde encontrar a Poch: @carandai25 no Leblon, na Barra da Tijuca (ambos no RJ) e no Pátio Higienópolis (SP), além da @pinga.store (SP)



