
Com 57 anos de história, presença em 76% dos municípios brasileiros e uma produção anual de cerca de 40 milhões de peças, o Grupo Malwee construiu uma operação de escala rara no país, e decidiu enfrentar, de dentro, uma das principais tensões da indústria: como crescer sem ampliar o impacto ambiental.
Ao longo das últimas décadas, a empresa incorporou práticas que vão do uso de energia renovável ao reaproveitamento de água, passando por ajustes em processos industriais e desenvolvimento de matérias-primas de menor impacto. Hoje, 100% das unidades fabris operam com energia renovável, enquanto o consumo de água e as emissões vêm sendo reduzidos de forma consistente.
Ainda assim, o desafio não é simples. A moda é uma das indústrias mais eficientes quando o assunto é produção em massa e, justamente por isso, qualquer mudança estrutural tende a ser mais lenta, mais cara e mais difícil de escalar. “São produzidas mais peças do que pessoas no planeta por ano”, afirma Renato Martins, gerente de sustentabilidade e comunicação corporativa da Malwee.

Nesse cenário, a aposta da empresa não está em reduzir volume, mas em redesenhar o processo. A lógica é clara: sustentabilidade não pode depender apenas de um consumidor disposto a pagar mais, mas precisa estar incorporada ao produto e ao modelo de produção.
Leia a seguir a entrevista completa que CHNews fez com Renato Martins, da Malwee:
A Malwee fala sobre sustentabilidade há décadas. Quando isso deixou de ser um diferencial e virou obrigação no setor?
Bom, na Malwee, a sustentabilidade, como você disse, é falada há décadas. A Malwee já tem isso no DNA dela. Eu sei que é uma frase clichê, mas a família sempre teve essa lógica. No setor, a gente pode separar em dois grandes momentos, principalmente no Brasil. No início dos anos 2000, quando começou o trabalho referente à dignidade, o trabalho na cadeia, quando algumas marcas… Houve algumas batidas do Ministério do Trabalho e houve a questão do trabalho escravo na cadeia de moda. Então ali começou-se a falar sobre sustentabilidade em geral na moda. E talvez mais para 2014, 2015, após o Acordo de Paris, foi um segundo grande momento.
Hoje, o que ainda diferencia a Malwee dentro da agenda ESG?
O que diferencia é que a Malwee tem ações que ela vem trazendo historicamente dentro da sua produção que garantem que a maioria dos nossos produtos que são fabricados dentro da nossa empresa tenham processos sustentáveis de verdade, que conseguimos mostrar de onde vem, para onde vai e por que é feito. Essa questão da transparência de como é feito um produto sustentável é muito difícil no mercado, porque o mercado é muito pulverizado em pequenas facções. Como a maior parte dos produtos da Malwee passa pela própria indústria, a gente tem uma série de otimizações aqui, seja de energia que não vem de fontes fósseis, seja de aproveitamento de água, de tinturaria.
Como equilibrar preço competitivo com produção de menor impacto ambiental?
É difícil porque sempre que você está falando de ações de menor impacto ambiental, você está normalmente falando de ações que ainda não são escaladas. Hoje são produzidas mais peças do que pessoas no planeta por ano. Então você tem um setor que é supermaduro, ele já amadureceu há muitas décadas e consegue ter uma escalabilidade enorme. Quando você tenta trazer uma nova tecnologia que vai impactar essa escala, ela tem dificuldade de ganhar aderência. Mas é possível.
O consumidor está disposto a pagar mais por moda responsável?
As pesquisas mostram que sim. Só que é uma pesquisa que a gente entende que é um pouco enviesada, porque a pessoa responde que está preocupada, mas quando ela se vê na loja para pagar mais caro, a gente não vê essa aderência toda. O que a gente vê é que, se você conta bem a história, gera desejo por isso. Existem pessoas que vão pagar mais caro, sem dúvida alguma, mas elas são minoria. Elas não são as pessoas que movem o ponteiro.

Qual é o tamanho da Malwee hoje no Brasil?
A Malwee hoje produz cerca de 40 milhões de peças por ano. Temos aproximadamente 3 mil colaboradores. Também temos presença em 76% dos municípios brasileiros, mais de 21 mil lojas multimarcas e quase 250 lojas monomarca.
O uso de matérias-primas sustentáveis já é 100% da produção?
Não, por vários motivos. O algodão agroecológico não existe em volume suficiente para cobrir a nossa produção. Mas 100% do nosso algodão é certificado dentro de programas que buscam mitigar qualquer chance de trabalho análogo ao escravo. E cerca de 91% dos nossos produtos têm matéria-prima ou processos sustentáveis o suficiente para diminuir o impacto em relação ao produto normal.
Qual foi a decisão sustentável mais desafiadora?
A conversão das ramas para energia de origem não fóssil. Foi um investimento de milhões, onde você perde um pouco de performance e aumenta a complexidade. E também projetos como o Fio do Futuro, que transforma resíduos em novos produtos. É um processo mais caro, mais difícil, mas a gente mantém.
Qual é o papel da tecnologia nesse processo?
A [participação da] tecnologia é altíssima. A gente tem desde corte-laser para evitar sobra até processos de reuso de água. Em alguns casos, a gente já consegue usar praticamente toda a água reutilizada no processo. Para manter uma produção alta e diminuir o impacto, só com implementações de tecnologia.

Vocês já usam inteligência artificial?
A gente utiliza IA como ferramenta de apoio em algumas coisas específicas. Mas a gente não substituiu nenhum processo por IA. Não tem nenhuma IA criando estampa. O uso é mais para auxiliar.
O futuro da moda é mais digital ou mais consciente?
É possível ser digital e consciente. Eu acho que o futuro da moda vai nas duas linhas. Você tem mudanças de legislação que vêm acontecendo na Europa e na Ásia que vão exigir mais transparência. Não vai ter outro caminho.
A moda brasileira está preparada para competir globalmente em sustentabilidade?
Acho que sim. Existem desafios, principalmente por conta de custo e estrutura. Mas a gente já tem uma matriz energética melhor e uma produção de algodão com menor impacto em relação a outros países.
O fast fashion tem espaço no futuro sustentável?
Do jeito que é hoje, não. Ele precisa se adaptar. Esse modelo baseado em baixa qualidade tende a perder força.

Quais são os principais objetivos até 2027?
Expandir projetos de circularidade, reduzir emissões, otimizar o uso de água e aumentar a transparência da cadeia.
Como você define a Malwee para a próxima geração?
Uma empresa com propósito. Que tenha uma história verificável e uma preocupação real com impacto, e que consiga passar isso para o produto.



