
A solidão, a busca por pertencimento e a pressão da fama em uma sociedade hiperconectada são a essência de “Uma Família à Procura de um Ator”, primeiro texto escrito por Samir Yazbek, em montagem de Gustavo Merighi, com Anderson Muller estreando em um solo. A peça estreia dia 14 de outubro, terça-feira, no Teatro Itália.
O espetáculo convida a uma jornada psicodélica e bem-humorada. A proposta estética mescla elementos analógicos dos anos 1980 com a tecnologia digital, com o objetivo de estabelecer um diálogo vibrante entre passado e presente, levantando temas urgentes com um olhar original.
“Por se tratar de um ator lidando com suas memórias e delírios, escolhemos usar a metalinguagem para confundir a realidade com a ficção. O público, que a princípio assiste a uma peça de teatro, tem a sensação de estar em um reality show, como no filme ‘O Show de Truman’. Isso acontece quando o backstage é revelado, mostrando o ator como um participante tentando entender o sentido da própria vida”, explica Merighi.

Um ator com mais de 50 anos, com fama recém-conquistada, decide retornar à sua terra natal. O reencontro com a casa da infância traz à tona memórias e revela ausências, transformando sua jornada pessoal em uma reflexão sobre pertencimento, carreira e relações familiares. O espetáculo apresenta, de forma poética, provocativa e bem-humorada, a trajetória de um homem que, para conseguir “vencer” em seu ofício, acaba abandonando as suas raízes.
Para traduzir o conflito interno do protagonista, o espetáculo flerta com a estética cyberpunk, criando um ambiente pós-apocalíptico onde elementos analógicos, como TVs de tubo e sucata, se misturam a tecnologia de ponta, como um drone com transmissão em tempo real. Essa fusão simboliza a jornada do ator entre o humano e o tecnológico e traduz o conflito em sua mente: a deterioração de sua identidade e de suas relações familiares versus a invasão da tecnologia e a superficialidade das conexões modernas. A dualidade entre o que o público vê e o que o personagem percebe – um inseto se tornando um drone, por exemplo – gera um estranhamento que transita entre o cômico e o dramático. Essa linguagem visual paradoxal questiona a busca por autenticidade em uma sociedade obcecada por aparências, onde o drone serve como metáfora para a vigilância constante e a invasão da privacidade. O resultado é um espetáculo que convida o público a participar de um jogo cênico, questionando o que é realidade e o que é delírio na mente do ator. Como o próprio Merighi afirma: “A peça aborda temas profundamente atuais – um mundo excessivamente preocupado com a imagem, constantemente vigiado, onde muitos buscam seu lugar sob os holofotes sem perceberem as consequências disso”.
Teatro Itália – Av. Ipiranga, 344, República, São Paulo, SP. Até 19 de novembro de 2025.



