
A trajetória de Gabriel Contente começa no teatro ainda jovem, em sala de aula, quando a prática cênica deixa de ser exercício escolar e passa a se transformar em escolha de vida. Foi ali que o ator carioca encontrou não só o palco, mas também a consciência de que criar histórias, estar em cena e se expressar artisticamente seriam caminhos inseparáveis.
Desde o início, atuação e escrita caminham juntas. O humor, a dramaturgia e a experimentação aparecem cedo, moldando uma carreira que nunca se restringiu a um único formato. Ao longo do tempo, essa inquietação se expandiu para a televisão, o cinema e o teatro, sempre com personagens e projetos que dialogam com intensidade, afeto e transformação.
Hoje, esse percurso se reflete em novos trabalhos que conectam origem e maturidade artística: a volta ao teatro em “O Legado”, o musical autoral “Shakespeare, uma paródia tropical” e o filme “Aqui comem os pombos”, projeto íntimo que nasce da memória e do luto. A seguir, Gabriel fala sobre começo, processos criativos e o momento atual da sua carreira.
Leia a seguir o papo que CHNews teve com Gabriel Contente.
Como tudo começou para você, na carreira?
É muito legal falar disso, porque agora que eu estou gravando esse curta com a Letícia Canavale, da Cia. de Teatro Íntimo, tudo faz sentido, porque ela foi minha primeira professora de teatro. Começou mais ou menos assim, porque eu fazia teatro na escola e a Letícia começou a ser minha professora. A gente montou Shakespeare na época, eu fiz o Iago do “Otelo”. Eu também assistia a série “Som e Fúria”, que falava de Shakespeare, e isso me despertou muito. O Pedro Paulo Rangel foi meu ídolo máximo durante muito tempo. Foi pela mão dessa professora que eu entro na carreira. É ali que eu me descubro artista. Quando eu tive aula com a Letícia, eu tive essa consciência: falei, cara, eu quero ser ator.
Em que momento você percebeu que não conseguiria escolher só um caminho?
Eu acho que também logo no início. Assim que eu acabei de fazer aula de teatro na escola, eu passei para o Pedro II e estudei lá durante o ensino médio inteiro. Lá eu comecei a fazer stand up, comedy. Eu já escrevia meus filmes de comédia e me apresentava. Ao mesmo tempo que eu escrevia, eu me apresentava. Eu sempre gostei muito de escrever. Ganhei um prêmio de literatura na escola e, em 2017, escrevi minha primeira peça que entrou em cartaz, “Natal”.
Os personagens da TV ainda reverberam em você?
Muito. Principalmente o Vicente, de “Bom Sucesso”(TV Globo). Eu acho que foi o meu trabalho mais viralizado. Ele era galã, jogava basquete, tinha uma coisa de bad boy. É um personagem que todo mundo fala até hoje. E o Cavaco, da “Malhação”, também teve muita repercussão. Eram personagens muito importantes.
Que tipo de personagem ainda falta fazer?
Vou ser bem sério com você: eu queria muito fazer vilão. Vilão, vilão daqueles. O Vicente chegou perto disso, começou meio vilãozinho, depois foi se corrigindo. Mas vilão mesmo, ainda não.

O que “O Legado” representa para você neste momento?
Cara, muita coisa. É a companhia da minha primeira professora de teatro. Chego exatamente nesse momento de 20 anos da companhia e numa volta ao teatro. É onde eu comecei e é onde todo ator tem que ir para se renovar, para se experimentar em outros lugares. Depois que eu comecei a fazer parte dessa peça, eu sinto que me reconectei com tudo que é importante para mim: a presença cênica, o contato direto com o público. É uma experiência sensorial, de cheiro, de som, de olhar, de afeto, de troca.
Como nasce “Shakespeare, uma paródia tropical”?
Eu sempre tive essa conexão com Shakespeare. Fiz o Otelo, fiz o Iago, li praticamente todas as tragédias e grande parte das comédias. Eu sempre quis escrever sobre Shakespeare, mas com jeito brasileiro, trazendo para gente, fazendo essa relação antropofágica. Peguei todo esse estudo que eu tinha e fiz uma coisa meio Augusto Boal. Tem samba, funk, marchinha de Carnaval, MPB, teatro de revista, Ariano Suassuna. É Brasil, Brasilzão.
Qual foi o maior desafio nesse musical?
O Hamlet é um anti-herói, um monarca, alguém cheio de privilégios. Quem dialoga com o povo é o ator, um personagem mais dialético, mais humano. E é uma comédia pastelão. Eu adoro pastelão, adoro comédia. Sempre fiz stand up, improvisação. Tudo que eu gosto de fazer, eu fiz nesse musical.

Como nasceu o filme “Aqui comem os pombos”?
Eu estava muito mal. Minha mãe ficou cinco anos em estado vegetativo por conta de uma demência frontotemporal. Um dia eu fui à praia do Leme pra tentar extravasar, me conectar com o mar. Comecei a ver os pombos comendo na marca que a onda deixa na areia. Fui me identificando com aqueles pombos, com esse estado de abandono, de sujeira, de sobrevivência. Eu falei: eu acho que vai ser por aí a metáfora do filme. O filme inteiro se passa na Praia do Leme.
Quando você sentiu que ali era o começo do filme?
Foi muito orgânico. Eu escrevi o título na areia. Aí falei: caraca, é isso. Saí correndo da praia, vim pra casa e comecei a escrever.
Como foi dividir esse processo com pessoas tão próximas da sua história?
É lindo. Vira quase uma família. Tudo é muito íntimo e sensível. Foi tudo feito com muito carinho. A Letícia Cannavale atuando, a Brunna Diacoyannis dirigindo, a trilha sendo feita pela minha namorada com os pais dela. Tudo nesse curta é pensado para ser especial para minha mãe, para realmente fazer essa homenagem.

Que palavra define o Gabriel Contente hoje?
Leveza. Agora eu tô conseguindo de novo me conectar com a arte. Poder ficar presente, usar o meu humor. Foram anos muito difíceis, com a doença da minha mãe, a pandemia. Agora eu estou tendo a possibilidade de ser feliz de novo. Agora que a energia tá fluindo assim, tá bom demais.



