
A agenda sustentável na confecção brasileira começa a sair do discurso para ganhar escala prática dentro das fábricas. Redução de consumo de água e energia, corte de desperdícios e destinação correta de resíduos aparecem hoje como os principais focos de investimento da indústria.
Um estudo realizado pelo Iemi – Inteligência de Mercado com 280 indústrias do vestuário fornecedoras de grandes redes e certificadas mostra que 46% já possuem programas estruturados de sustentabilidade aplicados à produção e comercialização. Entre essas empresas, as prioridades se concentram em eficiência no uso de recursos naturais (79%) e na redução e reaproveitamento de resíduos têxteis (77%).
“Essa transição reflete não apenas uma resposta às exigências do mercado e dos consumidores, mas uma nova consciência sobre o impacto da moda no planeta. As empresas estão investindo para se tornarem mais eficientes, responsáveis e competitivas”, afirma Marcelo Prado, consultor e diretor do Iemi.
Um dos indicadores mais simbólicos dessa transformação está no controle de perdas de matéria-prima. Em média, 7,2% do tecido utilizado na produção ainda se transforma em retalho. O dado, porém, também revela avanço: 35% das empresas já operam com perdas de até 5%, enquanto apenas 19% registram desperdício superior a 10%. Na prática, a redução desse índice representa não só ganho ambiental, mas também eficiência econômica e melhor aproveitamento de insumos.
O monitoramento da destinação de resíduos industriais acompanha essa evolução. O levantamento aponta que 99% das empresas indicam dar destino correto a retalhos e aviamentos, 85% a papéis e 76% a plásticos.
Materiais de descarte mais específico, como lâmpadas e sucatas metálicas, registram índice de 73%, reforçando o avanço na gestão responsável de resíduos recorrentes na rotina produtiva.
A mudança também alcança a escolha de matérias-primas. Atualmente, 16% das empresas afirmam utilizar materiais certificados ou reciclados e, dentro desse grupo, 65% relatam que estão ampliando esse consumo, sinalizando tendência de expansão no curto e médio prazo.
Metas ambientais mais sofisticadas começam a entrar na pauta estratégica dos programas de sustentabilidade. Transparência e rastreabilidade já aparecem entre os objetivos de 26% das empresas, enquanto 24% estabelecem compromissos ligados à redução de emissões. Práticas de economia circular, como upcycling (que transforma resíduos em novos materiais) e logística reversa, são citadas por 22% das indústrias.

A consolidação da agenda ambiental também passa pela estrutura financeira das empresas. Entre as que já possuem programas de sustentabilidade, 35% afirmam contar com orçamento específico, enquanto 40% ainda não destinam recursos formais, mas planejam investir. Nos casos em que há verba definida, a média corresponde a 3,6% do faturamento, e 22% das empresas contrataram assessoria externa para apoiar a implementação das iniciativas.
No pilar social [entendido como extensão da sustentabilidade corporativa] o estudo mostra que políticas de diversidade, equidade e inclusão já estão presentes em 80% das empresas. Destas, 27% possuem programas totalmente implantados e 66% estão em fase de implementação.
Os principais objetivos dessas políticas incluem combate à discriminação e preconceito (81%), acessibilidade para pessoas com deficiência (61%) e promoção de igualdade salarial (60%). Entre as prioridades declaradas, raça e etnia aparecem em primeiro lugar (87%), seguidas por gênero, com foco na valorização e proteção das mulheres (64%), e inclusão de pessoas com deficiência (63%).
Para Prado, o pano de fundo é claro: “A moda brasileira está se reposicionando para competir num mercado global que exige rastreabilidade, transparência e compromisso real com o meio ambiente”.



