
Às 5h, quando o mundo ainda dorme, um casal atravessa uma discussão sem saída, entre o amor e a ruptura, entre o desejo de ficar e a impossibilidade de continuar. É nesse território instável que se constrói “A Linha Solar”, texto do dramaturgo russo Ivan Viripaev, que estreia pela primeira vez no Brasil no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo, a partir de 24 de abril.
Dirigida por Marcelo Lazzaratto e protagonizada por Carol Gonzalez e Chico Carvalho, a montagem transforma um conflito conjugal em um embate que ultrapassa o íntimo. Entre ironia, crueldade e humor, a peça expõe a falha essencial das relações contemporâneas: a incapacidade de se comunicar.
A cena começa ancorada em uma estética realista, mas rapidamente se desloca para o absurdo e o surreal. Enquanto Barbara e Werner discutem, o texto revela a violência emocional escondida nos diálogos cotidianos, e escancara o quanto o afeto pode conviver com a incompreensão.

Mesmo densa, a dramaturgia aposta no humor como ferramenta de desconforto. O riso surge como ruptura, mas também como espelho. Em cena, o casal tenta, sem sucesso, encontrar um ponto comum, num movimento que ecoa relações amorosas, sociais e até políticas.
Publicada em 2018, a obra amplia o conflito doméstico para uma dimensão mais ampla. Para Viripaev, os impasses entre duas pessoas refletem um problema maior: as falhas nos sistemas de comunicação que atravessam o mundo contemporâneo, das relações pessoais às crises globais. Ainda assim, o autor insiste no caráter cômico da peça, um humor que nasce justamente da contradição.
O título, “A Linha Solar”, traduz a distância simbólica entre os dois. Enquanto Barbara busca um ponto de encontro, Werner evidencia o desalinhamento. A imagem do sol, associada à luz e à ideia de felicidade, revela também aquilo que permanece nas sombras: as fissuras que sustentam o relacionamento.
CCBB SP – Rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico, São Paulo, SP.



