
Quase quatro décadas de estrada não diminuíram o apetite criativo de Lan Lanh, ao contrário. É justamente da coragem de se colocar em risco que nasce “Lan Lanh e Mário Soares num axé pra Lua”, espetáculo que chega ao Rio de Janeiro como uma travessia sonora entre ancestralidade, invenção e afeto. No centro da cena, um encontro improvável: percussão e violino, barro e corda, terreiro e rua.
“Desafio e coragem sempre passearam comigo”, diz Lan. Mulher, baiana e percussionista em um território historicamente masculino, ela faz do cruzamento de linguagens um gesto político e poético. “Tirar o violino do lugar exclusivamente erudito, botar ritmo nele e trazer harmonia para o batuque é surpreendente.” O resultado aparece em diálogos inesperados (como berimbau e violino dividindo o mesmo pulso) e na inversão de papéis: a percussão também é harmônica, afinada, tonal.

O parceiro dessa travessia é o violinista Mário Soares, músico versátil que transita entre orquestras sinfônicas e projetos populares. O encontro dos dois aconteceu de forma quase cinematográfica, em Salvador: Lan foi assistir a um show, subiu ao palco, e em poucos minutos o violino virou rabeca. “Foi um encontro de almas”, resume. A temporada baiana marcou também um reencontro íntimo da artista com suas próprias origens, depois de mais de 35 anos vivendo no Rio.
A espinha dorsal do espetáculo é uma ponte simbólica entre dois gigantes da música brasileira: Luiz Gonzaga e Luiz Caldas. Gonzagão, o “Velho Lua”, estruturou o Brasil musical; Caldas abriu caminhos ao conectar tradição, pop e invenção, levando o axé das ruas de Salvador para o país inteiro. O título do show vem justamente de “Num axé pra Lua”, canção em que Caldas homenageia Gonzaga, síntese perfeita desse diálogo entre tempos, ritmos e territórios.
No palco, a ancestralidade africana não é estética: é fundamento. O espetáculo começa com um pedido de licença aos orixás, passa por “Canto de Xangô” (Baden Powell e Vinicius de Moraes) e por “Batuque nas Águas”, de Naná Vasconcelos, mestre que Lan reverencia como referência maior. Cada apresentação é única, aberta ao improviso, ao corpo e à escuta – valores que orientam todo o método de criação da artista. “Não existe fórmula, collab estratégica ou enquadramento de mercado. Quando existe verdade, a coisa flui.”
A temporada carioca ganha novas camadas com a participação especial de Márcia Short, voz histórica do axé e símbolo de uma geração que ajudou a moldar a música baiana contemporânea. “Ela canta tudo com verdade, do popular ao sagrado”, diz Lan. O elenco se completa com o violonista Ruan de Souza e com Dadi Carvalho, fortalecendo o diálogo entre gerações, estilos e geografias.
O projeto se expande para o campo pedagógico com a oficina “Ritmos Afro-Brasileiros para Percussões e Cordas Friccionadas”. Ali, crianças, estudantes e até uma senhora de 95 anos dividem o tambor, aprendem sobre células rítmicas, claves e escuta coletiva. “É um espaço raro de troca, onde o ritmo aparece como linguagem viva”, afirma Lan, emocionada ao falar da dimensão afetiva desses encontros.
No encerramento, o espetáculo se transforma em praça: referências ao trio elétrico de Dodô & Osmar, frevos, dança e comunhão coletiva. Um final que reafirma a essência do projeto, rito, alegria e celebração. Para Lan Lanh, o axé segue sendo isso: passado pulsando no presente, apontando para futuros possíveis da música brasileira.

Além dos palcos, Lan Lanh também vem expandindo sua atuação como diretora musical, produtora e compositora. Seu projeto mais recente, Música e Poesia, nasceu de um convite da produtora das Minas e reúne música autoral criada a partir de poemas de seis grandes vozes da literatura brasileira contemporânea. Lan assina a direção musical, a produção e as composições do trabalho, que dialoga diretamente com sua pesquisa sonora e sua relação íntima com a palavra.
O projeto parte de textos de autoras como Conceição Evaristo, Elisa Lucinda e Ryane Leão, transformando poesia em som, ritmo e paisagem musical. Lançado inicialmente como documentário exibido no canal Arte 1 (e atualmente disponível no Prime Video), Música e Poesia também ganhou vida própria nas plataformas digitais, onde os fonogramas estão disponíveis para escuta.
“É um trabalho do qual eu me orgulho muito”, resume Lan. “Foi um processo de escuta profunda da palavra, do tempo do poema, do silêncio.” Assim como em “Num axé pra Lua”, o projeto reafirma sua assinatura artística: criar pontes – entre linguagens, gerações e territórios – sem abrir mão da emoção, da ancestralidade e da liberdade criativa.



