
Um filósofo rabugento com crises existenciais e enxaquecas constantes, um urso de pelúcia neurótico, adolescentes insurgentes e uma instituição de saúde mental que promete felicidade a qualquer preço. É nesse universo entre a fantasia sombria, o humor ácido e o punk rock que Laura Binder vive um dos maiores desafios de sua carreira.
Atriz, cantora, dançarina e diretora artística, a curitibana protagoniza “O Fantasma de Friedrich – Uma Pop Ópera Punk”, musical brasileiro escrito e dirigido por Dimis, com músicas de Enzo Veiga e letras assinadas pelos dois criadores. Depois de passar por Curitiba, a produção chega a São Paulo, no Teatro Joao Caetano, onde Laura amplia uma trajetória de mais de uma década dedicada ao teatro musical.
Na trama, ela interpreta Alana, uma jovem melancólica atormentada pelo desaparecimento da irmã. Internada contra a própria vontade no Hospital das Graças, instituição que defende a felicidade como uma obrigação, a garota está decidida a descobrir o que realmente aconteceu.
Alana força a própria entrada no local e se vê cercada por tratamentos exaustivos, uma intimidadora equipe de enfermagem e jovens que, como ela, resistem às regras. A investigação toma um rumo ainda mais estranho quando a personagem encontra um livro misterioso capaz de libertar um espírito perturbador, ou, como brinca o espetáculo, “um espírito perturbado”.
É assim que Friedrich Nietzsche entra em cena. Transformado em personagem, o filósofo aparece como um fantasma mal-humorado, cheio de desconfortos físicos e ideias perigosamente rebeldes sobre liberdade. Ao lado dele e de Adolfo, seu urso de pelúcia neurótico, Alana embarca em uma jornada para compreender os próprios traumas e descobrir o que significa escolher o próprio caminho.
Punk
Em “O Fantasma de Friedrich”, a estética punk não está apenas na trilha sonora ou na identidade visual. Ela atravessa a própria concepção da história e aparece na recusa de Alana em aceitar as verdades impostas pelo lugar em que está confinada. “A estética punk está impressa nas músicas e na identidade visual do espetáculo, mas também aparece de uma forma mais intrínseca e ideológica. A peça é construída com humor ácido, uma fantasia dark e essa ideia de questionar aquilo que é imposto”, explica Laura.
O Hospital das Graças parte de uma promessa aparentemente positiva, mas que logo revela sua face mais incômoda: ali, não existe espaço para tristeza, dúvida, luto ou sofrimento. Todo desconforto precisa ser eliminado, seja por meio de medicamentos, seja por uma mudança forçada de comportamento.
“A peça se passa em uma instituição de saúde mental que tem como ideal a felicidade a qualquer custo, como se tudo na vida pudesse ser remediado com um fármaco ou com uma mudança forçada de chave”, conta a atriz.
É justamente diante dessa lógica que sua personagem se rebela. “A Alana é uma grande questionadora da instituição. O aspecto punk dela, para mim, está em ir atrás da verdade sem aceitar passivamente o que é pregado pelos membros daquele lugar”, afirma.
Sem abrir mão da fantasia e do entretenimento, o espetáculo toca em uma discussão bastante atual: a pressão para parecer bem o tempo inteiro, mesmo quando a experiência humana exige atravessar o medo, a perda e o caos.

Nietzsche
A aparição de Friedrich Nietzsche está longe de funcionar como uma aula tradicional de filosofia. Reimaginado como um fantasma rabugento e perturbado, ele também tem suas certezas abaladas ao longo da história, e passa a provocar as convicções de Alana. “O Nietzsche aparece como um personagem ficcional que mexe com os pensamentos da Alana e balança suas certezas. O próprio filósofo está ligado à ideia de questionar valores e abraçar o caos para atravessar os momentos de crise”, explica Laura.
No musical, essas ideias se conectam diretamente à trajetória da protagonista, que tenta continuar vivendo apesar da dor provocada por seus traumas. O encontro entre a jovem e o filósofo transforma conceitos existenciais em conflitos, canções, ironia e punk rock.
Maratona
Se Alana vive em permanente estado de tensão, Laura precisa sustentar essa intensidade por aproximadamente duas horas e meia. De quinta a domingo, a atriz atravessa textos e músicas complexos, além de uma carga física, vocal e emocional que se prolonga praticamente por todo o espetáculo. “É um trabalho que exige bastante física e vocalmente. O texto e as músicas são complexos, são duas horas e meia em cena, com sessões de quinta a domingo. Mas acho que a parte mais exigente é a psicológica e emocional”, revela.
Para a artista, o maior desafio está em manter a força da personagem sem permitir que o cansaço prejudique a interpretação ou o canto. “A Alana é uma personagem emocionalmente intensa 100% do tempo. Existe uma concentração muito grande para conseguir sustentá-la do início ao fim, mantendo a qualidade do canto, da atuação e da presença física, mesmo quando o corpo já está naturalmente sentindo o desgaste”, explica.
O esforço pede entrega, mas também controle. “É preciso estar muito inteira em cena durante essas duas horas e meia, além de ter técnica e preparo para conseguir chegar inteira até o final.”
O protagonismo em “O Fantasma de Friedrich” marca uma nova etapa para Laura Binder, mas também reúne diferentes aspectos de uma formação iniciada ainda na infância. Em São Paulo, ela já participou de produções como “Harry Potter – Um Grande Baile Tribruxo”, “Peter Pan – Crescer é Preciso”, “Brincando com a Broadway” e “Elyntra – O Resgate de Rapunzel”. Em alguns trabalhos, assumiu ainda a direção coreográfica, ampliando sua presença nos processos de criação.
“Protagonizar ‘O Fantasma de Friedrich’ já foi a materialização de um sonho quando apresentamos o espetáculo em Curitiba. Estar agora com essa obra em São Paulo, cidade que é um dos grandes polos mundiais de teatro musical, é uma enorme realização profissional”, afirma. “E isso se torna ainda mais especial por se tratar de um musical autoral brasileiro.”
Teatro João Caetano – R. Borges Lagoa, 650, Vila Clementino, São Paulo, SP.


