
“Não é nem a gente que escolhe a arquitetura. A arquitetura que escolhe a gente.” É assim que o arquiteto e designer Luciano Dalla Marta começa a contar a própria história, com uma convicção que atravessa toda a sua trajetória. Desde cedo, o desenho, a arte e um olhar atento ao detalhe já estavam ali. “Eu sempre gostei de desenhar. Parece clichê, mas é a mais pura verdade. Eu nasci arquiteto. Não dava para pensar em fazer outra coisa.”
Esse impulso se desdobra em um modo muito particular de observar o mundo. Dalla Marta fala de uma curiosidade quase inevitável, aquela que faz o arquiteto reparar na fechadura de um museu ou no funcionamento de um forno em um ateliê de cerâmica. É desse olhar, atento e inquieto, que nasce também o design. “No meio da minha carreira, comecei a desenhar uma peça para a casa de um cliente. Pensar em um detalhe. E aí, de repente, eu já estava designer. Foi uma coisa muito natural.”

Hoje, arquitetura e design não se separam. “Parece que é quase uma coisa só”, diz. Ao projetar uma casa, o raciocínio técnico rapidamente se mistura à construção de atmosferas. “De repente, eu já começo a visualizar a parte interna, a sensação que eu quero que as pessoas tenham.” O gesto é contínuo, e o olhar atravessa o desenho do mobiliário, enquanto o designer se infiltra nos projetos de arquitetura. “Uma coisa acaba interferindo na outra.”
Essa forma de pensar se ancora em referências que ele revisita com frequência. O modernismo aparece como uma base importante, não como reprodução, mas como campo de inspiração. “É um momento em que arquitetura, design e artes plásticas estavam muito conectados.” Ao mesmo tempo, há um interesse constante por outras formas de olhar, como a arquitetura asiática. “Eles têm um olhar diferente, uma iluminação filtrada. Um rasgo de luz que entra em um bloco e cria uma sensação.” Entre passado e presente, Dalla Marta constrói um repertório que se alimenta tanto da memória quanto da observação contínua.

O reconhecimento ao longo da carreira surge como consequência desse processo. Para ele, os prêmios funcionam como uma espécie de confirmação de percurso. “Quando você recebe um prêmio, é como se fosse uma afirmação: o caminho está certo.” Mais do que um ponto de chegada, eles operam como impulso. “É um incentivo. Agora eu tenho que me superar.”
Entre esses momentos, um permanece como divisor de águas: a primeira vez em que recebeu o IF Awards (uma das mais importantes premiações de design do mundo), na Alemanha. “Foi uma surpresa. Eu não esperava. E quando eu fui receber, foi uma emoção tão grande.” A experiência, cercada por profissionais de diferentes partes do mundo, ampliou a percepção sobre o próprio trabalho. “Aquilo mudou minha vida.”
Ele também já levou para casa o Berlin Awards, Loop Design Awards, Paris Design Awards, Design Roma, ArchDaily e New York Property Awards, além de acumular mais três novas premiações no IF awards de 2026.

Mesmo com esse reconhecimento, Dalla Marta insiste na ideia de processo contínuo. “Meu trabalho hoje é muito melhor do que há 15 anos, e eu espero que seja melhor ainda daqui a 20.” Há uma consciência clara de que criar envolve revisão constante, escuta e abertura. “A gente tem que estar sempre pronto para as críticas, ter um olhar crítico sobre o nosso próprio trabalho.”
Essa lógica também se reflete na dinâmica do escritório, que ele entende como um coletivo. “A gente não faz nada sozinho. É um grande brainstorming, um grande casamento”, afirma.

Na SP–Arte, essa visão ganha forma no espaço desenvolvido para a Firma Casa, de Sonia Diniz Bernardini e Mariana Bernardini. Ali, Dalla Marta propõe uma experiência baseada em múltiplos pontos de vista. “Eu não queria que fosse um estande, nem uma casa. Eu queria trazer esse olhar do mobiliário como obra de arte.” A construção do ambiente parte justamente dessa ideia de percepção individual. “Cada pessoa vai enxergar os objetos de uma maneira.”
Para isso, ele cria uma arquitetura que convida ao deslocamento do olhar. Planos inclinados, espelhos e diferentes ângulos permitem que o visitante observe as peças por perspectivas pouco usuais. “Você vai ver uma mesa por trás, por cima. Eu quero que as pessoas tirem suas próprias conclusões.” O espaço se organiza como uma estrutura geométrica, mas sem impor um caminho. “É uma caixa imersiva. Você entra e as peças começam a conversar.”

Ao mesmo tempo, o projeto evita competir com o que expõe. “A ideia foi justamente não competir com o mobiliário.” A arquitetura sustenta a experiência, mas não a domina. Mesmo dentro desse contexto, Dalla Marta também apresenta peças próprias, e novamente os campos se cruzam. “É difícil separar. Quando eu estava pensando o espaço, já fui enxergando quais peças fariam sentido ali.”
Há um elemento que permanece imprevisível. A montagem, assim como a obra, abre espaço para ajustes, intuição e refinamento. O que é bom pode melhorar, e, ao final, ele se coloca quase como espectador do próprio trabalho. “Agora eu estou vendo o espaço projetado. E as perspectivas estão acontecendo.”

Depois de 25 anos de carreira, o que permanece é o movimento. “Eu amo o que faço.” A prática se alimenta de pesquisa constante, viagens, exposições e novos desafios. “A vida é uma pesquisa.” E é justamente essa busca contínua que mantém o trabalho em evolução. “Eu adoro quando chega um projeto difícil. Um projeto novo, um cliente novo.”
Entre arquitetura e design, passado e futuro, Luciano Dalla Marta segue construindo um trabalho guiado por curiosidade, observação e pela vontade de continuar criando.



