
Fôlego. Movimento de aspirar e expelir o ar pelas vias respiratórias; respiração. Ânimo; coragem para continuar alguma coisa muito difícil: tomar fôlego. Com essa palavra a atriz e diretora Maria Carol Rebello traduz a fase que vem vivendo. “Acho que a palavra é fôlego. Depois da trágica perda do irmão há seis meses, o ator e DJ João Rebello (1979-2024), e da morte do tio, o diretor Jorge Fernando (1955-2019), muita coisa mudou para ela. Pensou em desistir da vida de atriz. Questionou se continuaria, mas a arte falou mais alto. “Olha, como eu te falei, eu achei que eu não ia mais atuar. Mas bastou um convite para a coisa reacender aqui”, conta.
Escalada para viver novamente a personagem Olga, em “Êta Mundo Melhor!”, próxima novela das 18h da Globo e continuação de “Êta Mundo Bom!”, ela vê a oportunidade como uma forma de encarar a vida e fazer uma das coisas que mais gosta: representar. “A Olga está inserida numa obra que é riquíssima pela época. Então, quando a gente tem época, a gente tem fatores políticos, fatores sociais, uma mulher ali dos anos 40, com toda a repressão que tem, o figurino, a caracterização e tal, isso tudo é maravilhoso para a gente construir uma personagem”, diz.
Maria Carol ama fazer novelas de época em que possa interagir com os elementos político-sociais. E a Olga é tudo isso. “Ela me marca nesse lugar e também de ser uma novela escrita brilhantemente pelo Walcir Carrasco, que conduz a história, a telenovela, que é uma obra aberta… A forma como ele conduz a Olga era para ser uma coisa, e no final ela foi para um outro lugar, e foi lindo”, relata. Sobre a nova fase de Olga, a atriz não pode contar detalhes, mas está empolgada com a empreitada. Outros atores da trama voltarão com seus personagens da primeira versão. “Eu acho muito louco, nove anos depois, voltar com essa personagem. Então, a gente vê foto nossa para fazer a caracterização. Ai, meu Deus, será que vou conseguir ficar assim de novo? Tem a questão do tom, da interpretação, de você retomar tudo aquilo, né? E a curiosidade de saber o que vai acontecer daqui pra frente.”
A atriz começou sua carreira ainda criança. Vivendo em ambiente de TV, teatro, coxias, casas de show e tudo o que envolve o mundo do entretenimento, ela teve dentro de casa os maiores exemplos de sucesso em novelas e outras produções levadas a cabo pelo tio Jorge Fernando e pela mãe Maria Rebello. Ainda garotinha, acompanhava a mãe, que é atriz e diretora, e a avó Hilda Rebello que levavam o irmão, à época um ator mirim, para gravações de folhetins na TV. Sua primeira participação à frente das telas foi em “Vamp”, em 1991, dali não parou mais. “São muitos anos na televisão. Quer dizer, é uma loucura, né? São muitas coisas, além das pessoas com quem eu trabalhava, eu era filha da Inês Galvão e do Marcelo Picchi. A Inês é uma grande amiga. Ela já tinha sido mãe do meu irmão numa outra novela, uns dois anos antes, que era “Bebê a Bordo” (Globo), então é uma pessoa que a gente tem muito carinho. Contracenava com monstros, como Francisco Milani, Cleide Yáconis, Joana Fomm, sabe? Então fica essa memória ali daquelas pessoas tão importantes para a arte brasileira, e eu apenas uma criança.”
Afora sua carreira de atriz, ela é formada em moda e se arriscou em outras áreas. Começou a estudar nutrição, mas não terminou. O mesmo ocorreu com um curso de estética e cosméticos. Mas formou-se em maquiagem pela L’Oréal. Fez dublagem, faz várias danças, pole dance, sapateado. Atualmente estuda xequerê [instrumento de percussão de origem africana]. “Essa inquietação do que ser e das possibilidades do que a gente pode ser. Eu acho que eu sempre me questionei, mas sempre atuei, sempre acabei sendo atriz, né?”

Maria Carol é atriz, isso é fato, mas ela vai muito além disso. É diretora também, estreou na peça infantil “O Menino do Olho Azul” (2022), uma homenagem ao tio Jorge Fernando. “Me encontrei muito ali, sabe? Era uma coisa que estava muito introjetada em mim. E aí me abriu esse outro caminho, esse outro campo”, explica.
Questionada sobre o que lhe atrai na direção, Maria Carol é direta: tem muito a ver com a forma como ela observava o tio trabalhando. “‘O Menino do Olho Azul’, quando a gente retomou com a ideia, eu conversando com a minha mãe, que é a produtora do espetáculo, que sempre foi produtora das coisas do Jorge, eu falei, mãe, eu quero dirigir. Porque eu tinha a peça toda na minha cabeça. Toda. Eu sabia exatamente tudo que eu queria.” E assim foi feito. A peça, que fez grande sucesso, deve ser retomada em breve e viajar o país. “Você vê as coisas do meu tio, vê que é dele. É você poder transmitir para todos os profissionais que estão ali envolvidos uma ideia inteira, uma concepção inteira, pegar as referências. E eu tenho isso, como estudei moda, eu tenho a coisa do visagismo com a maquiagem. Eu visualizo o todo de um projeto”, comenta.
Para além da atuação, que agora volta com tudo com seu papel em “Êta Mundo Melhor”, Maria Carol quer se aprofundar em cinema e streaming, gostaria de encarar mais personagens nessas duas frentes. “Eu tenho muita vontade de entender mais, sabe? Porque eu amo cinema. Consumo muito e tinha muita vontade de estar ali em um set. Isso vai acontecer em breve. É um projeto também”, relata. E que projeto seria esse? Ela, a exemplo do que já faz nos destaques dos Stories de seu perfil no Instagram, pretende contar no cinema a história de sua família. Ela está escrevendo em primeira pessoa contando tudo, e que passa pela história da avó. “É uma história brilhante, que puxa e conduz toda essa coisa artística. Tenho feito por partes, contando a história. Vou contar, vou documentar isso, porque tem muita coisa.”

No teatro, ela prepara algo não menos forte, está escrevendo o roteiro de uma peça que será baseada no livro “Presos Que Menstruam”, de Nana Queiroz. “Eu sou uma tarada por teatro, que é a minha grande arte, sou louca pelo teatro. E esse projeto que eu tinha para dirigir é baseado no livro da Nana Queiroz, é um assunto super importante também. Conta a história das mulheres no cárcere, casadas com a problemática de ser mulher no cárcere, a pobreza menstrual e tudo isso. São histórias muito fortes de mulheres criminosas. Tem as não criminosas que são presas erroneamente, mas são histórias muito fortes. Eu fiz a adaptação desse livro para dirigir. E aí, agora, eu já penso, será que eu não faço como atriz um monólogo?” Fôlego, muito fôlego, isso não falta para Maria Carol Rebello.



