
Ela vem de uma família de artistas, arte de diferentes formas. A mãe, artista plástica, trabalhava como bancária, e o pai, serralheiro, sempre criou peças incríveis, portões com desenhos coloniais. Mariana Sena, 30, chegou a pensar que seguiria a profissão das artes manuais, devido sua facilidade, mas acabou enveredando para a carreira de atriz, depois de se apaixonar pelo teatro.
Mariana chegou a cursar alguns anos de fonoaudiologia na USP (Universidade de São Paulo), e foi lá mesmo que de um jeito ou de outro acabou indo parar na EAD (Escola de Arte Dramática), e de onde não saiu mais. Acabou abandonando a fonoaudiologia para ser atriz. Fizera um curso de teatro pouco antes de entrar na faculdade, e ali já nascia a profissão que Mariana abraçou e tocou com afinco. “Acabei largando a faculdade para me dedicar às artes. Meu vinculo com a USP durou dez anos, entre idas e vindas, e, paralelamente o teatro, que cursava na EAD.”
Obviamente, o fato de ela desistir da faculdade deixou a mãe maluca, desesperada, sem entender direito o que estava acontecendo, mas o sucesso das produções encenadas por Mariana acabaram levando a mãe a entender e apoiar a escolha da filha.
O primeiro emprego de Mariana foi logo no audiovisual. “Passei no meu primeiro teste, que foi a série “Spectros”, da Netflix. Gostei muito, eu era protagonista”, conta. Em seguida, apareceu oportunidade de fazer “Todas as Mulheres do Mundo”, da Globoplay. Depois disso, aconteceu sua estreia na TV aberta, em “Mar do Sertão”, da Globo.
Atualmente no papel de Glorinha, melhor amiga de Beatriz (Duda Santos), no folhetim de época “Garota do Momento”, da TV Globo, Mariana vem sobressaindo e recebendo elogios por sua atuação. A receptividade não é diferente por parte do público, que a aborda nas ruas e manda mensagens sobre sua personagens nas redes sociais. “O público adora a Glorinha. Eu amo isso. As senhoras me encontram na rua e falam ‘você é linda, você é fofa’. E é muito engraçado porque, na vida, eu sou meio tímida. Então, às vezes, as pessoas chegam, me abraçam e eu fico meio desconcertada. Ou então eu fico, ah, obrigada. Parece que eu sou outra pessoa. Que é, né? Porque a Glorinha não sou eu.”

A receptividade é tão grande por parte do público, que, aconselhada pela irmã, Mariana acabou criando contas no X (ex-Twitter) e no TikTok, onde sua personagem aparecia com frequência, além do Instagram. “Eu fiz uma conta no X, troco com as pessoas lá, fiz um TikTok também para ter esse vínculo, porque é muito legal as pessoas gostarem, se identificarem com a personagem”, explica.
Outro ponto que aproximou muito Glorinha do público foi o fato de ela ter revelado ter sofrido abuso. Mariana passou a receber depoimentos pela internet, e a conversar com pessoas que se identificaram com a história dela. “Quando, enfim, a história da Glorinha veio à tona, várias pessoas vieram trocar e me contar coisas e dar esses depoimentos. Ou falar como a cena as tocou.” Mariana explica que revelar o abuso foi algo desafiador para ela, pois era uma responsabilidade muito grande falar sobre esse assunto sensível e que atinge a tantas pessoas.
Mas, afinal, como nasceu a Glorinha? Segundo Mariana, ela foi construindo a personagem ao longo das gravações. “Sinto que eu fui construindo a Glorinha ao mesmo tempo em que eu também estava voltando para mim [após a maternidade]. Foi uma experiência muito legal, muito feliz. Acho que a gente [Glorinha e Mariana] tem coisas muito parecida. Também sou uma pessoa que me dedico muito aos meus amigos e vou deixando meus problemas e minhas questões de lado. Não de lado, eu vou resolvendo paralelamente, mas sem me expor.”
A Glorinha é uma mulher forte, empoderada, que usa um cabelo natural, tem seu próprio negócio e explora com delicadeza diferentes temas inerentes à sociedade. Mas Mariana, como telespectadora, não teve essa referência na TV. Foi muito depois que mulheres pretas começaram a ter protagonismo nas novelas e no streaming. “Então, eu não tive essa referência. Fui ter depois de mais velha e quando já estava vivendo a coisa da minha transição capilar, porque fui uma pessoa que alisei o cabelo. Não tinha essa referência do que era a mulher com o seu cabelo natural dentro de uma tela. Eram mais coisas, referências vindas de fora e que não eram brasileiras. E nem dentro da minha casa. Então eu lembro que quando eu vivi a transição capilar, para mim também foi uma coisa natural. Minha imagem de mulher empoderado era da Angela Davis, e meu cabelo, depois que cortei, ficou parecido com o dela, e eu gostei.”
Mariana era mãe recente quando veio o convite para fazer Glorinha. Ela encarou deixar a filhinha de três meses aos cuidados de outros para encarar a empreitada, e deu certo. “Não imaginava que voltaria a trabalhar tão cedo. Ayomi tinha três meses quando fui aprovada para ser Glorinha. Ao mesmo tempo, estar na novela me tirou o medo de não voltar a trabalhar. Além de ter a sensação de que a maternidade já me recolocou no mercado de trabalho de uma forma diferente.”

Segundo diz, foi uma correria danada, mas ela deu conta. “Eu acho que é entender que, independentemente de qualquer coisa, a gente dá conta. Eu acho que isso é uma coisa que me surpreende até hoje. Eu dou conta. Tipo, tem dias que eu falo, meu Deus do céu, hoje mesmo foi um dia, que eu acordei assim, já exausta. E aí, quando eu vi, eram sete horas da manhã e já estava de pé, resolvendo as coisas, fazendo isso, aquilo. E o dia passa e quando você percebe, ele já acabou, e você deu conta.” E, sim, Mariana dá super conta de tudo.
Pensando no futuro, a atriz quer muito fazer cinema, arte que até agora não deu certo de ela gravar. “Meu sonho é fazer cinema, porque eu acho que eu ainda não experimentei isso e eu tenho muita vontade de fazer. Tô estudando ainda as possibilidades. Porque como eu falei, eu vim do teatro e eu tô morrendo de saudade do teatro.”
Que venha o teatro, o cinema, o streaming. O mais importante para o público agora é ter Mariana Sena por aí, interpretando e dando uma surra de talento.



