
O consumidor brasileiro está mais velho, mais interessado em conforto e distribuído por um mercado no qual as lojas regionais ainda desempenham um papel decisivo. Ao mesmo tempo, fornecedores da indústria da moda enfrentam exigências crescentes de transparência, responsabilidade social e sustentabilidade. Essas duas transformações estarão no centro das apresentações da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex) e do Iemi – Inteligência de Mercado na Febratex 2026, realizada de 18 a 21 de agosto, em Blumenau (SC).
Dados reunidos pelo Iemi revelam a dimensão da mudança demográfica. Entre 2000 e 2024, a idade média da população brasileira passou de 28 para 36 anos. A parcela de pessoas com 45 anos ou mais saltou de 23% para 38%, enquanto a renda per capita cresceu 39% no mesmo período.
O avanço da chamada geração prateada abre oportunidades para a moda, mas também exige que marcas e varejistas revejam estratégias ainda muito associadas à juventude. Não se trata apenas de lançar coleções destinadas a consumidores maduros. A transformação passa pelo desenvolvimento dos produtos, pela modelagem, pela variedade de tamanhos, pela comunicação, pelo atendimento e pela integração entre lojas físicas e canais digitais.
As mudanças já aparecem nas escolhas feitas pelo consumidor. Nas últimas duas décadas e meia, as peças de malha ganharam participação, enquanto as roupas sociais perderam espaço. O movimento acompanha a busca por produtos mais informais, leves e confortáveis (atributos que não interessam exclusivamente às pessoas mais velhas, mas ganham força à medida que a população envelhece).
“Conhecer o tamanho do mercado é importante, mas já não é suficiente. As empresas precisam entender quem está consumindo, como as prioridades das famílias estão mudando, quais regiões apresentam maior potencial e por quais canais os produtos chegam ao consumidor”, afirma Marcelo Prado, diretor do Iemi.
Outro foco será o varejo multimarcas, apontado pelo instituto como uma alternativa para empresas interessadas em ampliar sua presença pelo país. Instaladas em cidades nem sempre alcançadas pelas redes próprias, essas lojas aproximam as marcas de diferentes mercados e funcionam como fonte de informações sobre hábitos, preferências e necessidades locais.
“O lojista multimarcas mantém contato direto com o consumidor e conhece particularidades do mercado local. Incorporar essa visão ao planejamento ajuda a indústria a desenvolver produtos, políticas comerciais e formas de relacionamento mais consistentes”, diz Prado.
Se o Iemi olhará para quem compra e para os canais pelos quais a moda chega ao público, a Abvtex discutirá as condições em que as peças são produzidas. A associação defenderá na feira que a conformidade pode deixar de ser encarada somente como uma obrigação e se transformar em vantagem competitiva para os fornecedores.
O tema será apresentado por Angela Bozzon. A palestra mostrará como a adoção de boas práticas pode fortalecer a gestão das empresas, estreitar sua relação com as marcas varejistas e ampliar oportunidades comerciais.
Em mais de 15 anos, o Programa Abvtex reuniu 3,5 mil empresas aprovadas e alcançou aproximadamente 532 mil trabalhadores em 616 municípios de 18 estados. A iniciativa estabelece critérios para o fornecimento responsável e atua na qualificação das relações entre varejistas, confecções e oficinas.
A apresentação também destacará o Selo Cobre, criado para promover a inclusão produtiva de pequenas oficinas de costura. A proposta é permitir que esses negócios avancem na adequação às exigências do mercado e tenham mais possibilidades de participação na cadeia formal da moda.
“O Programa Abvtex demonstra que conformidade e sustentabilidade são fatores que fortalecem a competitividade das empresas. Nosso objetivo é mostrar à indústria que investir em boas práticas também significa ampliar oportunidades de negócios e estreitar a relação com o varejo”, afirma Angela.
As duas apresentações colocam em pauta desafios que avançam simultaneamente. Enquanto o público da moda se transforma e demanda produtos e experiências mais alinhados à sua realidade, o mercado aumenta a cobrança sobre a origem e as condições de produção das peças. Para as empresas, compreender quem está comprando será tão importante quanto demonstrar como aquilo que chega às lojas foi produzido.



