
Um debate acalorado toma conta das rodas de conversa nos últimos dias: a “adultização” de crianças e a forte exposição de suas imagens nas redes sociais. Com vídeo de denúncia escancarando casos de uso irresponsável da figura de menores para engajamento e monetização, o influenciador digital Felca acendeu alerta em todo o país.
Como repercussão, a intenção de combate ao uso indevido de imagens de menores chegou a motivar trinta e dois projetos de lei na Câmara dos Deputados apenas entre os dias 11 e 12 deste mês. Mas e na indústria da moda? Quais medidas de proteção os pais e responsáveis devem tomar para resguardar seus filhos em campanhas de publicidade, por exemplo? Como salvaguardar os pequenos dos riscos de práticas que podem fomentar sua erotização e alimentar a pedofilia?

Casos como a polêmica de quase três anos atrás da grife Balenciaga reforçam o entendimento de que todo cuidado é pouco quando se fala em menores dentro da indústria. De responsabilidade do georgiano Demna Gvasalia – que recentemente deixou o comando da maison para iniciar jornada na Gucci -, a campanha “Gift Shop”, de novembro de 2022, demonstrou crianças segurando ursos de pelúcia em adereços de bondage, o que demarcaria sexualização dos pequenos. A marca tomou medidas como em remover os itens de venda, assim como as imagens das mídias sociais e pediu desculpas publicamente.

Grande ferramenta de autoexpressão, é preciso que a moda fotografada junto aos menores auxilie no desenvolvimento de como se manifestam e de sua personalidade. Cores, texturas, estampas despertam a imaginação e os ajudam a experimentar e iniciar o processo de construção do seu estilo próprio. Em meio a isto, um ambiente profissional lúdico, que desperte a imaginação e abrace a pureza dos mais jovens, é o mais indicado.
No set ou locação fashion, é necessário também prezar pela individualidade e pelo conforto, físico e psicológico, das crianças. Roupas leves e tecidos suaves são itens essenciais e vêm de mãos dadas com a supervisão próxima dos pais ou responsáveis. É importante, ainda, informar aos tutores previamente sobre a intenção criativa do projeto, seja uma campanha ou editorial, bem como aprovar conjuntamente as roupas, cores, objetos e adereços a serem utilizados para as imagens.
Deve-se compreender, também, que independentemente da tenra idade, os pequenos devem ser perguntados, de maneira leve, sobre o que sentem a respeito do projeto e das peças que vestem. Deste modo, é assegurado o seu bem-estar e desenvolvida a sua autoconfiança durante o processo, por meio da delegação de um razoável poder de escolha.

A diretora de redação do título “Harper’s Bazaar Kids Brasil”, Patrícia Favalle relata ao CHNews que a revista trabalha com crianças de 0 a 10 anos e que todos os rostos são agenciados, garantindo maior regulamentação de sua documentação. Para os shootings, elas devem ter homologação no Ministério do Trabalho e a presença de seus pais ou responsáveis.
Os profissionais envolvidos passam por checagem rígida e seus perfis são enviados ao Ministério Público previamente, em busca de maior segurança para os menores. Há o cuidado com a adequação de roupas e posições, para afastar a mínima chance de sexualização. É o caso, por exemplo, de editorial de tema praiano que a revista realizou, em que modelos mirins usaram roupas de banho modestas e foram fotografados apenas da cintura para cima.
“Esse [a adultização] é um tema muito recorrente na Bazaar Kids. A gente fala sobre isso em quase todas as nossas edições”, afirma. Patrícia relata ainda que há especificidades no trato com as crianças em um set. São disponibilizados brinquedos e atividades para as crianças, os shootings não podem exceder a duração de seis horas, além da obrigatoriedade de atestados médico e psicológico para garantir seu bem-estar.

Para Letícia de Carvalho, maquiadora e cabeleireira expert em beleza para crianças, um dos pilares do seu trabalho é o de seguir os protocolos de biossegurança. Na maquiagem, ela opta por produtos de origem natural, em quantidades que mantêm a essência dos pequenos, além de serem próprios para o público infantil e livres de parabenos, perfume, metais e químicos agressivos. Para isto, conta com marcas como a Care Natural Beauty e a Simple Organic como suas aliadas. Sempre que necessário, produtos coloridos e lúdicos também adentram a sua rotina de trabalho com os menores.
“[…] Também me esforço para criar um ambiente divertido e tranquilo para as crianças, com bancada infantil colorida e itens interativos. […] O vocabulário e a postura devem ser sempre apropriados nesse ambiente”, afirma.
Ainda segundo ela, o ambiente profissional que envolve as crianças está evoluindo: “as produções estão se tornando mais atentas ao bem-estar das crianças e de seus acompanhantes, oferecendo alimentação mais saudável e pausas para descanso”. É importante que elas se divirtam e tenham uma experiência prazerosa”, conclui.



