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Peça explora homofobia e preconceito dentro do boxe

por Redação CHNews
04/06/2025
Tempo De Leitura: 4 minutos de leitura

Montagem inédita no Brasil, “12º Round: A História de Emile Griffith” estreia no Sesc Ipiranga dia 6 de junho, às 20h. Abordando o racismo e a homofobia no esporte na década de 1960, o espetáculo narra a trajetória de Emile Griffith, um dos maiores boxeadores da história que, ao assumir sua bissexualidade, passou a enfrentar uma luta contra o preconceito dentro e fora dos ringues. 

Traçando um voo panorâmico sobre temas como a violência no mundo do esporte, o racismo, a homofobia e as fronteiras da masculinidade negra, a peça também se propõe a discutir como essas tensões ainda ecoam até hoje na sociedade, abordando as contradições, violências e resistências vividas por corpos dissidentes. A curta temporada acontece até 13 de julho, sempre às sextas-feiras e sábados, às 20h, e domingos e feriados, às 18h. E uma sessão com Libras no dia 27 de junho.

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Cinco vezes campeão mundial em três categorias de pesos diferentes, Griffith foi o primeiro atleta com este perfil a assumir publicamente sua bissexualidade. Sua vida foi  rofundamente transformada após vencer o combate com Kid Paret, que havia chamado Emile de “bicha” várias vezes em público e, no embate, foi nocauteado e faleceu, numa luta televisionada para todos os EUA em 1962. 

Negro e afro-caribenho, Griffith é uma figura de dimensões épicas, cuja trajetória nos permite discutir o quanto a sociedade contemporânea está – ou não – comprometida com a preservação dos direitos da população LGBTQIAPN+ e negra. O espetáculo busca dar corpo à memória de um herói complexo, que ousou desafiar as regras de seu tempo, um símbolo que rompeu paradigmas e enfrentou o peso do preconceito.

Idealizado pelo ator Fernando Vitor, que interpreta o personagem principal da trama, o projeto faz parte de uma longa pesquisa com o objetivo de dar luz a histórias queers e negras, dentre as quais se destaca Griffith. “A trajetória de Griffith é uma das maiores histórias do mundo do esporte, e seu desconhecimento é resultado de um longo processo de apagamento de nossa história e nossas identidades. Estamos comprometidos em honrar sua trajetória, destacando o fato de Emile ter se tornado, além de tudo, um ativista da causa LGBTQIAPN+. O espetáculo está na encruzilhada de questões atuais. E num momento histórico onde a luta contra a homofobia e o racismo se fazem tão necessária, resgatar a história de Griffith nos inspira a seguir em frente”, declara Vitor.

Com a dramaturgia assinada por Sérgio Roveri e direção de Bruno Lourenço, a peça é encenada em “rounds”, assim como uma luta de boxe, num formato que aproxima o espectador de uma linguagem singular, marcada pela repetição, pelo esforço e pelo esgotamento, elementos que tensionam os corpos em cena e tornam esse ringue” um constante território de disputa. A montagem do espetáculo marca ainda a estreia do Coletivo Nocaute, um grupo de teatro negro formado por Bruno Lourenço (indicado ao Prêmio Shell de Melhor Ator por “Brás Cubas”), Fernando Vitor (“James Baldwin: Pode Um Negro Ser Otimista?”), Letícia Calvosa (“Escola Modelo”) e Alexandre Ammano (“O Avesso da Pele”).

“Decidi escrever esta peça principalmente por achar imperdoável que um lutador de sua importância, um ser humano generoso e ativista de tantas e tão belas causas sociais não tivesse gravado seu nome na história. Griffith foi um ser humano excepcional, dentro e fora dos ringues. Senti que a ramaturgia poderia obedecer às regras do boxe, no intuito de reproduzir o tempo de uma disputa na íntegra. Criei 12 cenas de três minutos, separadas por cenas menores, de um minuto, que corresponderiam aos intervalos do gongo, com o objetivo de ser fiel ao esporte. A narrativa surge entrecortada, com algumas idas e vindas no tempo, até que o arremate final se dá na última cena, na qual Griffith vive, aparentemente, o que teria sido o melhor dia de sua vida”, diz Roveri.

Neste percurso, a montagem dá voz a personagens reais e ficcionais que orbitam o universo de Griffith – sua mãe; seu maior adversário, Kid Paret; seu namorado; jornalistas e figuras simbólicas – oferecendo uma cartografia afetiva, política e histórica de sua trajetória e seu legado. A peça propõe uma reflexão sobre a complexidade da vida de Griffith, seus dilemas íntimos e os desafios impostos por uma sociedade que marginalizava sua identidade. A encenação busca captar a tensão entre o corpo como máquina de luta e o corpo como espaço de desejo, dor e resistência. O espetáculo conta ainda com projeções de imagens de arquivos em foot e vídeos, utilizados com a finalidade de conferir verossimilhança às memórias fragmentadas, apresentar os rostos das personalidades reais e estabelecer diálogos entre os diversos tempos históricos. 

“Esse foi o maior desafio da minha estreia na direção artística: transformar a luta em linguagem, em dança e em narrativa. E, mais do que isso, dar corpo e voz a uma história que me atravessa. Emile Griffith não é apenas uma figura biográfica, é um ancestral. Um campeão mundial praticamente apagado do nosso imaginário por conta da homofobia. Como é possível que saibamos tanto sobre Muhammad Ali, Pelé, Michael Jordan e quase nada sobre Griffith? Achei que essa lacuna precisava ser preenchida. Através da tensão entre elegância e violência, o espetáculo se constrói como uma espécie de teatro-documentário com uma pegada pop. A trilha sonora, marcada por clássicos do cinema, contribui para esse clima híbrido entre o real e a memória, entre o ringue, o vestiário e o clube noturno”, finaliza Lourenço.

Sesc Ipiranga – Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo, SP.

 

Tags: 12º Round: A História de Emile GriffithAlexandre AmmanoboxeBruno LourençoColetivo NocauteEmile GriffithFernando VitorhomofobiaLetícia CalvosaNegropeçapreconceitoqueerSérgio Roveriteatro
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