
Ao adaptar e dirigir “Baixa Sociedade”, Pedro Neschling se deparou com um desafio raro: atualizar um texto escrito em 1979 sem que ele perdesse a força ou a atualidade. “É impressionante como a temática continua extremamente contemporânea”, diz o diretor. “A peça fala de um Brasil que a gente reconhece imediatamente.”
A nova montagem nasce de um convite do produtor Sandro Chaim e carrega um peso simbólico especial: traz Luiz Fernando Guimarães no papel de Otávio, celebrando 50 anos de carreira. Além dele, estão na peça Bruno Gissoni, Bruna Trindade e Isabella Santoni. Para Neschling, a escolha não só engrandece o espetáculo como reafirma a tradição da obra, que já foi protagonizada por nomes como Luiz Gustavo e Osmar Prado. “Grandes atores buscam textos que permitam exercitar muitos recursos. E o Luiz tem uma assinatura muito forte. Ele é hilário até quando está falando sério”, brinca.

O diretor conta que o processo de adaptação foi pautado pelo respeito ao texto original de Juca de Oliveira. As mudanças foram pontuais, focadas principalmente na forma de dizer e de rir. “Nossa relação com o humor mudou. Tem coisas que hoje já não fazem mais sentido. Então a adaptação foi mais uma ‘refrescada’, sem mexer no DNA da peça.” Parte dessas alterações surgiu antes dos ensaios, mas o texto seguiu sendo lapidado em diálogo direto com o elenco.
No centro da trama está Otávio, um homem disposto a tudo para “se dar bem”, mesmo que isso signifique ignorar qualquer limite ético. Para Neschling, é justamente aí que “Baixa Sociedade” toca em algo incômodo e profundamente brasileiro. “É um personagem muito familiar. A pessoa que acha que o mundo está em dívida com ela e que merece mais do que tem, custe o que custar.” Segundo ele, essa dramaturgia não está apenas no palco: “Está nos jornais, estava em 1979 e continua aí até hoje.”
A comédia, nesse contexto, surge como ferramenta essencial de crítica. “O riso faz a crítica passar sem que a pessoa perceba. Quando ela se dá conta, o recado já foi dado”, afirma. Mas o diretor faz questão de lembrar que fazer rir não é simples: “Comédia é matemática, tem um tempo muito preciso. E, ao mesmo tempo, é extremamente intuitiva.”

É aí que entra a experiência de Luiz Fernando Guimarães. “Na troca, ele é um gênio. A capacidade de reação dele é impressionante, e quase sempre imprevisível.”
Entre gargalhadas e desconfortos sutis, “Baixa Sociedade” se afirma como um espelho nada condescendente do país. “Colocar isso em cena de forma leve e divertida é falar da nossa realidade”, resume Neschling. “Mas também é uma forma de provocar reflexão. A gente ri e, logo depois, pensa.”



