
Rapha Mendonça não gosta de caber em uma caixinha, e talvez seja exatamente por isso que ele virou referência. Hoje, ele se apresenta sem rodeios: diretor criativo. Só que, dentro dessa direção, o “Rapha” é quase uma marca de multitarefas bem coreografadas, pois ele comanda uma agência, assina direção criativa e styling, e ainda faz um braço que pouca gente consegue executar com a mesma naturalidade, relações públicas + eventos + vendas, tudo no mesmo pacote. O resultado é um modelo de trabalho que ele descreve como um “casado” raro no mercado, e, do jeito que ele conta, dá para imaginar por que funciona.
“Uma marca pode me contratar para direção criativa e styling… E também para fazer o evento, montar mailing, criar um desfile dentro da loja e vender”, explica. A palavra “vender”, aqui, não vem com cara de balcão. Vem com a confiança de quem veste pessoas há décadas. “Eu não sou vendedor. Eu sou stylist. Estou ali para auxiliar o cliente a fazer uma compra certa.” É quase um serviço de curadoria ao vivo, com emoção, repertório e aquele toque de “pega esse lenço, coloca com essa calça, confia”.
Ele diz que começou a fazer isso há cerca de dez anos, quando uma mentora – Mônica Mendes, então relações públicas que abriu portas para ele na Daslu e mais tarde atuava com Dolce & Gabbana no Brasil – soltou a frase que parece roteiro de virada. “Quero que você comece a ganhar dinheiro com o seu relacionamento.” O desafio era simples e genial: levar clientes para um evento, e ganhar comissão sobre o que elas comprassem. “O evento foi um sucesso. E ali começou um case”, relembra. Depois da Dolce, vieram Fendi, Prada, Saint Laurent, uma sequência de portas abertas que ele traduz com uma mistura de gratidão e uma pitada de orgulho de quem sabe que criou um formato. “Um monte de gente me copiou… Mas a essência ninguém imita.”
A essência, para ele, tem nome, e é amor pelo que faz. E uma obsessão pelo belo. Rapha gosta de repetir que tudo o que toca vira estética. “Tudo que eu ponho a mão é para deixar bonito… Eu vejo o mundo de outra forma.” Essa relação com a beleza é antiga, e doméstica. A memória de infância dele não tem filtro de rede social, tem revista de moda italiana gigante (“Coletziones”), tem avó recortando referências, tem tecido comprado toda semana e uma sala de costura dentro do apartamento. Antes de internet, ele esperava revista chegar na banca para entender o mundo. E lia crítica como quem lê mapa. “Eu sempre amei as críticas… Regina Guerreiro era o alvo”, ele diz, com aquele respeito de quem foi formado por páginas impressas.
Só que Rapha nunca foi só teoria. A moda, no corpo dele, é linguagem, e no currículo, é estrada. Ele começou cedo. Ainda adolescente, chegou a tentar a vida de modelo, mas a altura não ajudou. Em vez de desistir, ele fez o que muita gente não faz, mudou de lugar dentro do mesmo sonho. Virou assistente de produtor de moda no Rio ainda muito jovem, entrou na faculdade de moda na Cândido Mendes (entre as primeiras turmas), e foi construindo a tal quilometragem que ele defende como pré-requisito. “Stylist não é fácil… Precisa ter chão de fábrica e chão de rua.”
A virada de chave tem nome e sobrenome pop: Sabrina Sato. Rapha diz que foi o primeiro stylist dela e que o objetivo era claro, tirar a “cara de ‘Big Brother’ e construir uma imagem sofisticada, o começo da transformação que ele chama, com humor e visão de branding, de “Pony Fashion”. “A gente ia para a rua pedir roupa emprestada e construir a imagem”, lembra. Foi ali que ele consolidou o que considera o coração do styling: entender proporção, desejo do cliente e, principalmente, trabalhar o ego. “O ego é o maior inimigo… Destrói qualquer carreira.”
E, se a carreira dele tem um motor, é a inquietação. Rapha conta que achava que seria estilista com marca própria, até perceber que o processo tradicional o deixava impaciente. “Demora muito… Modelagem eu detesto, odeio matemática.” Ele prefere a moulage (a “mágica” do tecido no corpo). A vida, então, foi abrindo trilhas: revistas, campanhas, filmes, e um turning point que parece troféu, assinar o styling do desfile do Carlos Miele na Semana de Moda de Nova York. “Uau… Daí eu não parei mais.”
Nova York, aliás, vira quase um personagem à parte na narrativa. Ele se muda, se conecta, faz “milhões de coisas”, e solta uma daquelas frases que já vêm prontas para título. “Eu virei jornalista sem nunca ter pego um microfone.” A entrada no jornalismo aconteceu do jeito mais Rapha possível, por improviso, coragem e contato humano. Um convite para participar de um programa de TV no Brasil vira um quadro fixo; de lá, ele se torna correspondente em Nova York e começa a gravar a semana de moda com microfone na mão, chamando Calvin Klein no peito e indo onde dava, sem timidez.
A história mais “Rapha” dessa fase? O Met Gala. “Coragem, sem autorização de ninguém… Eu, o câmera e o microfone. E a minha cara de pau.” Ele entrevistava gente descendo de limusine, antes de subir a escadaria, perguntando o que podia e o que não podia na moda, e comentando figurinos em tempo real. É a síntese do que ele se orgulha – repertório + ousadia + presença.
Mas nem tudo foi aplauso. Ele conta que ser múltiplo custou caro quando assinou a primeira coleção como estilista. Marcas viraram a cara, ele perdeu trabalhos, e criou até inimizades. O motivo? Medo de concorrência. “Ele era stylist e agora é concorrente.” Só que aí Rapha faz o que sempre faz: devolve com resultado. A estreia veio com um detalhe impossível de ignorar, dois vestidos na Miley Cyrus. “Foi um boom.” Para ele, a frase que fecha esse capítulo é quase manifesto – “Eu provei que eu posso ser o que eu quiser.”
Hoje, com 30 anos de estrada, ele diz estar em uma “zona de conforto boa”, mas com fome. “Quero sobremesa… E repetir sobremesa várias vezes.” Isso se traduz em escolhas mais criteriosas, ele não quer mais qualquer job, qualquer lookbook, qualquer set sem alma. Ele quer o “uau”. Quer ambiente com energia boa. Quer trabalho com amor.
E talvez por isso o discurso dele sobre internet tenha tanto peso. Rapha não esconde que já postou para agradar. Até entender que o jogo virou quando ele parou de se preocupar com o julgamento. Hoje, ele prefere consistência e dosar a exposição. “Não quero a minha vida um reality show… Se eu quiser reality, eu ligo o ‘Big Brother’.” Ele também evita ostentação em excesso, por consciência do contexto social. E, como criador, faz uma crítica direta ao conteúdo “copy-paste”. “Não quero mais ver conteúdo raso… Gente repetindo o que o outro falou. Vai estudar.”
No meio desse furacão, ele mantém a regra de falar menos, escutar mais. É maturidade de quem já peitou cliente, já pagou o preço do ego, já caiu e subiu de novo. “O importante é se reinventar”, ele diz, e a palavra “reinvenção” aparece como método, não slogan.
O futuro? Ele está aberto, e isso significa, naturalmente, mais caminhos. Rapha quer voltar para a TV (“sou um comunicador nato”), quer fazer outra coleção no tempo certo e, principalmente, está mergulhando em um território que ele jura ter tudo a ver com moda: gastronomia. Há dois anos, entrou como relações públicas de um restaurante, virou diretor criativo do projeto e começou a transformar o espaço em cenário. Halloween, black tie, fashion movies, editoriais. “Eu consegui trazer a moda para dentro do restaurante.” E vem mais um projeto gastronômico por aí, ainda em segredo.
Quando perguntado sobre sonhos, Rapha surpreende, pois prefere guardar. Não por falta de ambição [ele tem fome], mas por uma espécie de gratidão ativa. “Eu já vivo uma vida de sonho… Eu sou uma pessoa realizada.” E fecha como quem sabe exatamente quem é: um cara múltiplo, obcecado pelo trabalho, que faz do belo uma missão e do novo um vício saudável. No mercado onde todo mundo tenta parecer tendência, Rapha Mendonça faz o contrário, ele constrói formato. E é isso que fica.


















