
A galeria Fortes D’Aloia & Gabriel está com duas exposições na unidade da Barra Funda, em São Paulo, que, embora distintas em linguagem e escala, se aproximam pelo interesse comum nas transformações da matéria e nas tensões entre forma, memória e experiência. De um lado, a primeira individual no Brasil do artista inglês radicado em Nova York Jesse Wine, “Amor e outros estranhos”; de outro, a coletiva “Até um carvalho enlouqueceu”, que reúne Bruno Dunley, Lais Amaral, Marina Rheingantz e Richard Aldrich em torno da abstração como campo expandido.
Na mostra de Jesse Wine, o artista apresenta obras recentes em cerâmica e composições em bronze que operam como um diário material. Três esculturas de argila em grande escala, de caráter biográfico, trazem partes do corpo arqueadas e expressivas que parecem fundir-se à arquitetura expositiva. Ao redor, elementos botânicos moldados e fundidos em bronze (coletados ao longo de viagens realizadas nos últimos quatro anos) formam constelações delicadas que orbitam temas como habitação, memória e herança afetiva.

Membros, folhas, casas e edifícios emergem como ícones de uma memória suspensa, onde o orgânico é preservado e a arquitetura permanece em estado de interrupção. Em “Evening, all day long” (2026), uma versão reduzida da casa do pai do artista afunda em um colchão esculpido, tornando-se suporte para membros desarticulados. Já em “Canção para o meu pai” (“Song for my father”) (2024–2026), plantas alongadas fundidas em bronze criam uma estrutura de enquadramento que oscila entre crescimento e decomposição.
Há, ao longo da exposição, uma tensão direcional entre materiais: enquanto a cerâmica transmite peso, compressão e gravidade, o bronze parece elevar-se em um movimento quase etéreo. O corpo, o espaço doméstico e o mundo natural se articulam em composições que não buscam resolução única, mas permanecem em suspensão – refletindo a sobreposição de experiências que marca a vida contemporânea.

Essa ideia de instabilidade e transformação também atravessa a coletiva Até um carvalho enlouqueceu, cujo título faz referência ao mito de Orfeu – cuja música seria capaz de comover não apenas humanos e animais, mas também pedras e árvores. A imagem serve como chave de leitura para a mostra: aqui, a abstração é entendida como força que age diretamente sobre a matéria, suspendendo fronteiras entre o animado e o inanimado.
Nas pinturas de Bruno Dunley, a forma se constrói em tensão, atravessada por hesitações cromáticas e equilíbrios precários. Lais Amaral trabalha por acumulação e apagamento, deixando que o tempo, a pressão e os resíduos se inscrevam na superfície. Marina Rheingantz cria campos espaciais que oscilam entre paisagem e memória, enquanto Richard Aldrich trata a pintura como lugar de transferência, onde marcas e decisões permanecem provisórias.

Ao longo da exposição, linhas, manchas e planos afirmam-se como fatos físicos, mais do que representações. O sentido não se fixa: emerge da duração do olhar, da proximidade e da experiência corporal diante das obras. Pigmentos escorrem ou resistem, áreas de intensidade cedem lugar a zonas de silêncio, e as pinturas passam a operar como eventos que se desdobram no tempo.
Apresentadas simultaneamente, as duas mostras transformam a galeria em um campo de forças onde escultura e pintura investigam, cada uma à sua maneira, as possibilidades expressivas da matéria. Entre corpo e paisagem, memória e abstração, peso e suspensão, as exposições propõem ao visitante um percurso em que ver é também habitar – ainda que provisoriamente – estados instáveis da forma.



